Ensaio

A correção de rumo de Dória

Escrito por Gabriel Galo

Assisti ontem, como faço quase todos os dias, à propaganda política na TV. Se pegarem a minha análise da semana passada – alguém deve ter repassado a ele, não é possível – praticamente todos os pontos foram corrigidos.

A iluminação mudou significativamente. Saiu o branco de doer a vista, surgiu uma luz em estúdio mais natural.

A camisa sob medida, com monogramas e para fora da calça já não aparece mais! Tudo bem, ainda aparece com um suéter, pelo menos não está no ombro, mas vestido. Sabe como é, um passo de cada vez.

Vai à casa das pessoas. As propagandas são religiosamente as mesmas. Ele aparece em algumas casas, conversando com donas-de-casa. Se você não souber por que, explico: no detalhamento da pesquisa do Datafolha do dia 09/setembro, apontou que o eleitorado do Dória é essencialmente masculino. Aliás, os clusters pontos fracos de sua campanha são mulheres, pobres, de pouca idade. Ou seja: foi na mosca a comunicação.

Veja bem uma diferença gritante: os pontos fracos de voto de Dória são exatamente OS MESMOS que Aécio enfrentou em 2014. Um alerta para os tucanos: vocês precisam trabalhar a imagem do partido com estes públicos recorrentemente, especialmente no intervalo entre campanhas. Mas, ao contrário do mineiro, Dória os abordou. Aécio se manteve acima, ele não se mistura.

Ainda assim, não é natural a postura de Dória. Toque demais, nervosismo, ainda não sabe como reagir a interações com populares. Aprenderá com a campanha. Isto é bom sinal.

E outra! Finalmente entendeu que seu alvo NÃO É o Haddad. Até tem poupado o petista, e virado sua metralhadora, bem mais amena e assertiva, para Marta. Não necessariamente concordo com isso. É mais uma visão indireta demais, assim como era a postura perante Haddad. Gosto da objetividade na política. Seu alvo deveria ser, sim, Russomanno. É de lá que ele tem que tirar votos em quantidade suficiente para levá-lo ao segundo turno contra Marta.

No entanto, ainda há um aspecto histórico a se preocupar.

O Datafolha catapultou Dória para 16% das intenções de voto, 19% dos votos válidos apurados na pesquisa. Um ganho de mais do que expressivos 11%. Marta também ganhou 5%. Russomanno caiu 5%.

O viés é de alta, certo? Mais ou menos.

Existe um fator que não pode ser esquecido: Dória era um completo desconhecido antes da propaganda política. Mais do que fazer com que o público migrasse de um candidato a outro, Dória abocanhou o quinhão base do PSDB na capital paulista, por se fazer visto. Natural.

Outro ponto preocupante: nenhum candidato do PSDB que não se chamasse José Serra jamais foi ao segundo turno em São Paulo. E olhe que Serra, na campanha vencedora de 2008, já tinha perdido outras duas eleições antes, em 1988, quando foi quarto lugar, e em 1996, terceiro, atrás de Pitta e Erundina. Durma com um barulho desse…. Nem Geraldo Alckmin conseguiu, terminando em terceiro em suas duas candidaturas em 2000 e em 2008.

Busquei os dados de votos finais nas apurações de primeiro turno desde 1985, quando voltaram as eleições diretas para prefeito. O terceiro lugar teve, em média, 17% dos votos, 22,48% no máximo, com Geraldo Alckmin em 2008, atrás de Kassab e Marta.

Está aí, na largada, o piso de Dória: 18,43%, a média dos terceiros lugares de Serra em 1996, e Alckmin nos anos 2000 e 2008. Com os 19% dos votos válidos pelo Datafolha, Dória atingiu o seu piso. O problema é que esse pode ser, também, o seu teto. Lembrando: nenhum candidato tucano que não se chame José Serra foi para o segundo turno em São Paulo. E Serra tinha a seu favor campanhas presidenciais (em 2002, indo ao segundo turno em 2004; e em 2010, indo ao segundo turno em 2012). Não é coincidência.

Para atingir aquele seu público fraco, Dória precisa fazer um pouco mais. Primeiro, assumir que Marta vai para o segundo turno, o que pode mudar é o Russomanno. Ali está o seu quinhão. O problema é que na hora de tratar com a mulher pobre e de baixa escolaridade, quem está quilômetros na sua frente em termos de imagem é justamente Marta.

Talvez devesse aqui incorrer num risco: deixar propositalmente Marta levar votos do Russomanno, para minar a base do candidato do PRB e assim aproximar-se da possibilidade de um segundo turno. Pode causar estragos, reverter votos de Marta para si seria complicado, mas ainda assim é melhor trabalhar na hipótese de HAVER um segundo turno.

Algumas ações simples poderiam ser tomadas. Dória não deveria se dizer católico, mas cristão. Um detalhe semântico que faz toda a diferença dentro do público evangélico do Russomanno. E a proporção mulheres:homem cresce dentro deste cluster.

Além disso, Dória tem que trabalhar mais sua interação com a população. Já melhorou muito, mas ainda há um longo caminho pela frente.

Arrisco aqui o gabarito da próxima pesquisa de intenção de voto, ali por volta do dia 25/setembro:

  1. Marta aparece numericamente na frente de Russomanno.
  2. Dória estagnado
  3. Haddad cresce acima da margem de erro
  4. Erundina cai numericamente, mas dentro da margem de erro

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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