Eleições 2018 Ensaio Política

A estratégia do PT com a indicação de Lula à Presidência

PT, Lula, Eleições 2018, Presidência da República, São Paulo
Escrito por Gabriel Galo

Na chapa do PT, portanto, não importa ser Lula o candidato número 1. Quem conta e vale mesmo é o número dois, é a indicação de vice.

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Neste sábado, dia 04 de agosto, o PT oficializou a indicação de Lula à Presidência da República. O anúncio vem mesmo com o ex-Presidente preso em Curitiba, acusado de ocultação de patrimônio. Para muitos é motivo de afronta à legalidade, uma vez que um condenado em segunda instância, de acordo com votação colegiada do STF, não poder se candidatar a cargo público. O que parece, à primeira vista, uma decisão incongruente do PT, pode se tornar uma estratégia genial – a depender do que decidir o TSE.

Não se iluda: o PT tem CERTEZA de que Lula não será o próximo a assumir a cadeira do Palácio do Planalto. Mas então, o que acontece?

Voltemos às pesquisas e à própria estrutura do partido para começar traçar a linha que desemboca neste sábado.

O experimento Dilma Rousseff, capitaneado pelo próprio Lula, mostrou-se muito bem-sucedido num primeiro momento, mas falho logo na sequência. Dilma, longe de sequer ser maioria no partido em 2010, foi imposta por Lula. Fortalecendo a influência do patriarca dos Trabalhadores (sic), Dilma foi eleita duas vezes.

Problemas, no entanto, com a gestão da base aliada e na nomeação do primeiro escalão de Governo eram evidentes. Havia um mundo de distância entre o Ministério de Dilma e o de Lula. Simultaneamente, Dilma conhecidamente expulsou Lula da mesa que distribuía as cartas no Governo. Entende-se que foi ali, no escanteamento do coroné inconteste, que o Governo Rousseff se perdeu. Espalhou-se, assim, na estrutura do partido, a ideia de que Lula tinha a força e a posse da chave do conhecimento da Realpolitik. Com ele, o poder; sem ele, o desmoronamento. É lógico, por fim, que se voltem a Lula para comandar o timão do barco outrora afundando do partido. É certo que ninguém hoje tem capital político suficiente para confrontar Lula dentro do PT. A ele, pertence a palavra final.

O poder concedido ao mandatário tem viés de confirmação não somente nas entranhas hierárquicas e operacionais do PT, como também é corroborado pelas pesquisas de intenção de voto. Nelas, Lula é líder em qualquer cenário, contra qualquer adversário. Um porém surge nestas mesmas pesquisas: enquanto a preferência pelo nome de Lula é incontestável, a transferência de votos não decola.

Desta forma, a estratégia do partido nestas Eleições 2018 tem que ser compreendida a partir de uma pergunta fundamental: como maximizar a transferência de votos de Lula ao mesmo tempo em que ele permanece visível no pleito? (Afinal, obviamente, encarcerados não aparecem na TV)

O PT, então, assume um risco calculado e certamente controlado por juristas alinhados com a sigla. E aqui pode haver um golpe de mestre dele e do partido – ou um tiro n’água, a depender do TSE.

Lula permanece como cabeça de chapa como o partido apostando que o nome dele, somente, será impugnado, não a candidatura. Ou, que, se vencer, será necessária nova eleição, azedando o processo como um todo, recomeçando do zero e ganhando tempo. Ou seja: na eleição, você verá Lula 13 nas urnas, mas ele, sabidamente, não vai assumir. E aqui entra a rasteira certeira da estratégia: se assim efetivamente for, transfere-se 100% dos votos ao eventual vice, que assumiria o Planalto com a negativa assegurada ao nome dele. Favorito na disputa, Lula, neste caso, pavimentaria o caminho para o retorno do PT ao comando do Governo Federal. Seria o maior cabo eleitoral da história, candidato construído artificialmente para eleger seu vice.

Pegue essa narrativa de golpe e eleve à enésima potência!

Na chapa do PT, portanto, não importa ser Lula o candidato número 1. Quem conta e vale mesmo é o número dois, é a indicação de vice. Haddad? Provavelmente. Ciro correndo por fora (ou negociando um Ministério manda-chuva)? Não descartemos. Enquanto o documento de inscrição no TSE não estiver preenchido, tudo é possível.

O que não podemos é olhar para a estratégia do PT e vermos loucura e falta de noção. Tanto pelo contrário. Durante muitos anos, a sigla foi a única que fez política profissionalmente no Brasil. Os líderes do partido patinaram nos últimos anos, foram acuados, julgados e condenados, mas bobos eles não são. Não os subestimemos. Na indicação de Lula existe um projeto maior de retorno ao poder. Fiquemos de olho.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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