Ensaio

A inevitabilidade da tragédia

Se o Brasil tinha planos de se tornar um país desenvolvido, uns EUA, por exemplo, está começando pelo lado errado. O que aconteceu ontem (07/abril) no Rio de Janeiro é algo ainda inconcebível na cabeça de um brasileiro.

Pipocaram, depois da tragédia, inúmeras baboseiras sobre as causas do acontecido, como não saber diferenciar um perfil psicótico de um psicopata. “As escolas estão muito violentas”, grita uma coordenadora de educação de um lado; “esses jogos de video games mexem com a cabeça das pessoas”, apelam os conservadores; “fanatismo religioso é um mal para a humanidade”, nunca gritaria um candidato a presidente. Ora, será que ninguém consegue ver que existe, claramente, um distúrbio psiquiátrico no rapaz, e que, portanto, não há medida de segurança, fanatismo religioso, videogame ou qualquer outro meio de parar um transe?

Acontece que nós queremos sempre a sensação de que a tudo e a todos podemos controlar. Não há qualquer ligação direta entre violência e agressão de alunos a professores e o ocorrido. Não há qualquer ligação direta entre fanatismo religioso – exceção feita àqueles fanáticos que pregam a dita guerra santa, as cruzadas do século XXI – e o ocorrido, embora admita, e esta admissão parte da minha condição religiosa, que fanáticos religiosos são chatos e dão no saco. Muito menos há qualquer indício de causa e efeito entre games violentos e atentados terroristas, ponto que chega a beirar a paranoia.

Afirmam ser desconexa a carta do assassino. Primeiro, quem espera construção linear de texto por parte de alguém sofrendo de distúrbios mentais não pode estar bem de saúde. Segundo, faz sentido sim, embora seja mal escrito; o que não faz sentido para muitos é o conteúdo da carta.
Então, como fazer com que esse fato não mais ocorra? A resposta, infelizmente, é muito simples: não tem como. Podemos procurar milhões de

culpados, pessoas que poderiam ter identificado o problema, e por aí vai. Mas o que impediria, por exemplo, que qualquer um de nós lendo este texto, um dia entrasse no prédio onde trabalha com uma bomba debaixo da camisa e causasse tragédia semelhante, porque simplesmente acredita ser esse o caminho da salvação? Apesar de haver segurança, pare para pensar por um segundo: você é revistado quando chega ao trabalho?

Estamos todos expostos a esse tipo de situação. Em alguns lugares há uma probabilidade maior de que isso ocorra, nunca imaginaríamos que o Brasil estaria suscetível a isso. Por quê não? Porque somos um povo alegre e contente, que recebe bem o turista, e que nunca estaria propenso a distúrbios psicóticos? Porque somos evoluídos civilizadamente? Não é bem assim.

O Brasil precisa acordar do inexplicável sentimento de que tragédias não acontecem por aqui, por mais que nos últimos anos tenhamos sido provados do contrário. E entender que alguns fatos, simplesmente, não têm explicação.

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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