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Alemanha e o cheirinho

Toni Kroos, Alemanha, Suécia, Copa do Mundo, Rússia 2018
Escrito por Gabriel Galo

Toni Kross se prepara para a cobrança. Ao seu lado, quase na risca da lateral direita da grande área sueca, Marco Reus, autor do gol de empate. Esperam pelo apito do juiz autorizando a cobrança aos quase 50 minutos do segundo tempo. Área lotada de alemães, todos menos o goleiro Neuer, que teve permissão negada pelo técnico Joachim Loew para se aventurar na tentativa do gol da salvação. Alemanha jogava com um a menos desde a expulsão de Boateng e ainda teve um jogador substituído no primeiro tempo por conta de um nariz quebrado num lance fortuito. O empate praticamente decretava a eliminação de uma das maiores instituições do esporte mundial.

Aqui no Brasil salivávamos pela consumação da derrocada alemã. Afinal, um 7 a 1 em pleno Mineirão não poderia passar impune. Os efeitos colaterais do maior desastre da história do futebol brasileiro pareciam atingir também a Argentina, finalista derrotada no Maracanã. Por um fio, mantém-se viva, respirando por aparelhos, correndo sério risco de se ver eliminada na fase de grupos, o que não acontecia desde 2002 e aquela frustrante seleção de ‘El Loco’ Bielsa. Se já ter a Argentina na berlinda era maravilhoso, ter também a Alemanha então era o auge!

Toni Kroos rola a bola de lado. Marco Reus a deixa imóvel, segurando-a contra o tapete verde com a sola da chuteira. Cumprida a sua função, afasta-se para deixar o espaço livre para Kroos, que num movimento seguro, martela a redonda.

O histórico alemão nas primeiras fases de Copas do Mundo é praticamente impecável. Nunca deu adeus ao torneio no formato de grupos. No longínquo ano de 1938 experimentou sua única eliminação em primeiras fases, numa Copa feita apenas de mata-matas. Em pleno auge nazista, os alemães sucumbiram nos pênaltis diante da Suíça, depois de empate por 1 a 1 no tempo normal. Aquele cheiro de eliminação precoce contra a Suécia seria um capítulo tenebroso no vencedor futebol germânico.

Quando o 8 de branco chuta, o esperado cruzamento não vem. Um apressado sueco sai da barreira de dois homens para evitar o arremate direto. Cuidadoso, procura manter os braços grudados no corpo. Um pênalti da eventual derrota seria fatal para a Suécia. O empate garantia que os nórdicos brigassem por um ponto apenas contra o líder México na última rodada, carimbando o passaporte dos dois à próxima fase, deixando os alemães para trás.

E em matéria de derrotar gigantes a Suécia estava escolada. Sobreviveu às eliminatórias europeias num grupo com França e Holanda, este último ficando de fora da festa na Rússia. Na repescagem, seguraram a Itália com o mesmo ônibus estacionado na frente de sua área que agora os alemães tentavam transpor. Alemanha seria apenas mais um, por assim dizer. Só que a Alemanha nunca é um qualquer.

Cair na fase de grupos de uma competição gera consequências severas. Assim foi quando em 2000, seguraram a lanterna de sua chave na Eurocopa. O trauma foi transformado em reconstrução. Um extenso programa de evolução de centros de treinamentos, capacitação de profissionais, implementação de tecnologias de suporte, unificação de táticas nas categorias de base foi cumprido à risca. Apenas dois anos depois estavam numa final de Copa do Mundo. Viveram a dor novamente em 2004, mas o caminho estava pavimentado para evitar que este desdobramento jamais se repetisse. E assim se fez. No mínimo, a Alemanha alcançou as semifinais de todos as competições que disputou.

Quando a trajetória da bola apontou o canto esquerdo do goleiro sueco, o cheiro subiu. O cheiro do receio sueco de que um gol alemão no crepúsculo do jogo jogasse por terra suas pretensões. O cheiro da esperança inabalável dos alemães que sabem que a Alemanha sempre chega. O cheiro do extravasar de um Toni Kroos que se redimia de seu erro que deu origem ao gol sueco. O cheiro da história de uma equipe que nunca deve ser renegada. Respeita os caras! E ali ela se aninhou, serena com a placidez da certeza recoberta.

Alemanha segue viva, vivíssima. Com grandes chances de se pôr no caminho do Brasil já nas oitavas, num duelo de titãs que poderá sacudir o planeta.

Crônica publicada no site do Correio da Bahia em 23 de junho de 2018. Link AQUI!

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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