Crônicas Eleições 2018 Ensaio Política

As Eleições de 1910 e o insight

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Escrito por Gabriel Galo

Eu tinha um texto na cabeça. Fruto de um insight em pesquisa sobre outros temas. Tal qual delações premiadas, uma coisa puxa a outra, está tudo interligado. Eureca! Tratava-se, a epifania, de analogia longa no tempo dentro de uma crônica que se fundiria em análise política. A ideia era a de fazer o retorno às eleições de 1910, quando o jurista Ruy Barbosa, já então conhecido como a Águia de Haia, enfrentou o folclórico (e frequentemente chamado de burro, tão limitado cognitivamente que era) militar Hermes da Fonseca, sobrinho de Deodoro, aquele mesmo. A imprensa nomeou o embate pelo sufrágio de confronto entre a pena e a espada.

Hermes da Fonseca, posando para foto oficial das eleições de 1910. Ele é considerado por alguns como o pior presidente da história do Brasil, cargo nada honroso mas extremamente disputado.

[Anedota: conta-se que certa vez Hermes estava doente. O poderoso senador  gaúcho Pinheiro Machado, o ACM, o Jucá, o Calheiros, o Sarney da virada do século, foi visitá-lo. Chegou e encontrou o quarto completamente fechado, com o Marechal deitado em sua cama, convalescendo. Preocupado, pois o ar preso do ambiente escuro causaria mais mal, perguntou ao militar, já abrindo cortinas e janelas, “Por que este quarto hermeticamente fechado?” Tempos depois, foi a vez de Pinheiro adoecer – viria a falecer em 1915. Hermes da Fonseca encontrou cenário parecido no quarto do Senador. Atento ao que dissera da outra vez o agora enfermo, Hermes pôs-se a abrir cortinas e janelas e perguntou, um sábio!, “Por que este quarto PINHEIRAMENTE fechado?” (Não se pode dizer que ele não se esforçava para captar as coisas.) Gaúcho, Hermes era cria da Escola Militar da Praia Vermelha, instituição cuja principal atividade era planejar e executar tantos golpes quantos fosse possível. Com o apoio de titio, secundado por uma obediência e vontade contumazes, Hermes foi sendo promovido meteoricamente na hierarquia militar, até alcançar as mais altas patentes. Em 1922, no ocaso do governo de Epitácio Pessoa, que vencera Ruy Barbosa nas eleições de 1919, Hermes foi detido por se opor a algumas ações do Presidente e… tramar um golpe. Foi o primeiro ex-Presidente preso de nossa história.]

Esta era na história do Brasil caracterizou-se por altíssimas turbulências. Presidentes militares e civis se alternavam, golpes eram arregimentados tanto em quartéis quanto em salões nobres da alta sociedade. Conluios e acordões com Supremo, com tudo, já eram praxe. Operando dos bastidores, Pinheiro Machado, conhecido como o “condestável da República” era a iminência parda que movia as marionetes em torno de seus interesses.

“A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.”

Karl Marx

[Regra importante para entender política em períodos turbulentos: defina claramente um inimigo. E, de preferência, esteja do lado do exército, alto lá!, se não quiser correr riscos. O inimigo de antanho era a monarquia, recém-deposta. Perpetrava-se, numa farsa repetida continuamente em nossa história: a tática do medo. Atacava-se e oprimia-se os pretensos monarquistas com todo o poder das armas! Tome como exemplos Canudos, Contestado, Chibata. Repetimos o comportamento comum de atribuição de causas do povo a uma ameaça inexistente. Primeiro, à monarquia; depois, ao comunismo; agora, aos progressistas em combinação com uma ressurreição nonsense do comunismo. 1964 é aqui e agora.]

Aquelas eleições de 1910 são consideradas até hoje uma das mais polarizadas da história. Ofensas e discursos inflamados pululavam, num circo de horrores aparentemente infinito. Ao fim e ao cabo, Hermes da Fonseca, com a mão de Pinheiro Machado, foi eleito Presidente e os militares voltaram ao poder.

A analogia do meu artigo, portanto, levaria as eleições deste ano para além de 1989, em correlação que já tracei anteriormente. No texto, eu romperia as barreiras limitantes do atraso com o ímpeto vivaz tal qual um militante fervoroso. Avança-se a passos largos rumo ao retrocesso por estas bandas. Ao contrário destes apaixonados de causas bélicas infantis contra bichos-papões e monstros do armário, no entanto, fatos formariam a base da análise. Haveria sutilezas voando imperceptíveis, ironias da história detectadas, frases famosas delineando cada trecho, sarcasmos para causar sorriso e desconforto.

Ruy Barbosa, sobre a primeira-dama Nair de Teffé tocando ao violão o “Corta-Jaca“, como era conhecida o tango “Gaúcho” de Chiquinha Gonzaga:

“Mas o que é o Corta-Jaca, senhor presidente? É a mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã-gêmea do batuque, do catererê e do samba! Mas nas recepções presidenciais, o Corta-Jaca é executado com todas as honras da música de Wagner! E não se quer que a consciência deste país se revolta, que as nossas faces se enrubesçam e que a nossa mocidade se ria.”

[Anedota 2: O baiano Ruy Barbosa, nascido no ano do tricentenário da primeira capital do país, Salvador, foi Ministro de diversos presidentes de sua época, além de ocupar cargos no Legislativo. Uma das maiores cabeças deste país – literal e metaforicamente falando –, Barbosa foi o responsável por uma ideia que contribuiu sobremaneira para devastar as finanças públicas quando Ministro da Fazenda: o malfadado e infame encilhamento. Despejou papel moeda no mercado e a inflação, como sabemos, disparou. (Diversas vezes repetiu-se a mesma estratégia suicida em nossa história, inclusive muito recentemente. Ah, Brasil!) Quando discursou em Haia, na II Conferência da Paz – importante lembrar que todas as tentativas da época de se negociar tréguas e paz falhavam miseravelmente e não se dava muita bola a estes eventos –, Barbosa era um senhor-seu-ninguém, desconhecido fora de nossas fronteiras. Foi dos primeiros a falar, e numa época em que escolas de idiomas não eram assim algo popular, nem havia aplicativos que facilitassem a comunicação, falou por MUITAS horas no plenário. Discorreu em português, francês e inglês impecáveis! Foi admirado por saber tanto e tão bem (principalmente por se tratar de um “selvagem brasileiro”). Envolvido até o pescoço com a política, seu sonho-mor era ser Presidente da República. Depois de perder as eleições em 1910, tratou de atacar não somente a Hermes e a seu governo, mas inclusive a Nair de Teffé, filha do Barão de Teffé, o tal. Nair era uma espécie de Marcela Temer do início do século XX, 30 anos mais jovem que o marido, mas, ao contrário de cá, exibia atitude e inteligência. Ela, progressista, feminista, caricaturista, artista e cheia de ideias, levou o chorinho e a cultura popular aos salões do Catete, para desespero de Ruy Barbosa, que era mais chegado numa música clássica. O jurista, formado pela Faculdade de Direito da USP, concorreu ainda ao topo do executivo em 1914 e em 1919, sendo derrotado em ambas as eleições.]

A esta altura eu entendo que a analogia está clara para você, certo?

Mas aí…

Bem, mas aí Joaquim, advogado da USP e Barbosa como Ruy, que seria a pena rediviva em 2018 (embora longe da finesse démodé do baiano), desiste da candidatura.

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E o texto morre como análise para renascer como sátira.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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