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Nas escrituras do maior de todos

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Escrito por Gabriel Galo

Agora, o ano começou; quer dizer, depois do Carnaval é que pega de verdade.

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O ano começa sempre capenga. Equipes em formação, contratados se enturmando, alguns tropeços contra os desvalidos. O fato é que assim como o ano útil no Brasil só começa depois do Carnaval, o futebol mundial só começa pra valer no calendário depois do primeiro Ba-Vi. Dirão que se trata de claro exagero, que não é bem assim, que veja bem e assunte mais, homem. Aos incautos desprovidos da maior paixão deste universo e de todos os outros, resta a empáfia. “Pffffff” pra vocês. Algo maior que o Ba-Vi, meus caros, estão para inventar.

Veremos no tempo, este senhor que a tudo transforma em rugas, ruínas e dores nas articulações, o clássico da origem da vida sendo contado pela altiva exaltação ao superior. Não gastemos, pois, letra, tinta e papel para falar de quem não se sabe, nem se quer saber e se tem raiva de quem sabe. Tratemos do que será levado aos livros sagrados da história dos Ba-Vis.

Pulemos, pois, os gols perdidos – ah, Rogério! –, as prensas contra as cordas nas subidas de Moisés, as defesas de Ronaldo. Pulemos o treino de luxo do primeiro tempo e a falta de fôlego do segundo. Pulemos as bragas da volância do Vitória e a inoperância ofensiva dos Leões da Barra. Pulemos até a inexistência inútil e incontestável de Yago e Andrigo. Porque o merecimento da escrita na pedra terá assim gravado:

Bahia, capítulo 1, versículo 18: “Trabalhados na organização tática e sufoco incessante ao adversário, o regimento tricolor encontrou o caminho em lance sublime. A fatiada de Gregore, regente-mor da meiuca do Bahia, beijando a bochecha da bola, lançou com açúcar e com afeto para a testada de Artur. A redonda, mansa, quica para pôr-se à meia altura nas costas de Gilberto. O nove-nove, inapelável, leonidou, pedalando bela bicicleta que fez a esférica repousar placidamente nas redes rubro-negras.”

Gilberto, de bicicleta, abre o placar para o Bahia.
Foto: Marcelo Malaquias / Estadão Conteúdo

Avança a fita, passa a página.

Vitória, capítulo 2, versículo 19: “O abalado e desorganizado bando rubro-negro, liderado por cedo contestado distribuidor de camisas, lutava na medida de sua incapacidade. Um milagre era necessário. E ele veio pelos pés de Matheus Rocha. Estreante de tudo, o lateral-direita, do meio da rua, depois de bate-rebate, pegou na veia. O tirambaço saiu cortando o ar tal qual o cajado de Moisés – não o lateral do Bahia, mas aquele de antanho – ao Mar Vermelho. Zuniu em contraste ao silêncio da expectativa da calada torcida única e à respiração ofegante dos seus, que explodiram em êxtase frente ao tamanho improvável feito, mas afirmando que nada é impossível perante os desígnios dos deuses da bola.”

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Matheus Rocha comemora o gol de empate do Vitória no Ba-Vi.
Crédito da foto: Maurícia da Matta / Divulgação / EC Vitória

A cada passagem, um referido link no Youtube, porque, afinal, a modernidade tem lá suas vantagens.

Ficarão, assim, lançados à eternidade os lances mágicos de um Ba-Vi que cercado de pouca expectativa, ajuda a criar seus meios de elevação ao divino. Agora, sim, o ano começou. Quer dizer, depois do Carnaval é que pega de verdade. Até porque lá teremos o Ba-Vi pelo Baiano, que é quando veremos de que é feito cada grupo. Enquanto isso, dá replay nos lances aí, editor, que coisa linda é para ser vista e revista e ajudar a fingir que ambos evoluem, futebolisticamente falando.

 Gabriel Galo é escritor.

Artigo publicado na página 2 e do site do Correio da Bahia em 04 de fevereiro de 2019. Link AQUI!

Crédito da foto: Maurícia da Matta / Divulgação / EC Vitória

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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