Crônicas

Biscoito x Bolacha: definitivo

Escrito por Gabriel Galo

Você pegou seu lado na briga.

– É biscoito!

– Não! É bolacha!

Lamento informar, mas, no fim, estavam todos errados.

A solução para este impasse, meus amigos, não precisa de infográfico pintando parte do país de uma cor, outra de outra, e assim temos mais gente aqui, mais PIB ali, e a coisa transcendendo a simplicidade da conversa de casa quando cada um de nós era um pingo de gente.

Não entendeu? Explico.

É tudo uma questão de semântica. E dou vários exemplos de sua aplicação, tão vasta em nosso dia-a-dia, que a gente nem percebe quando uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, e uma e outra é tudo igual. Mas em situações distintas, depende da finalidade da mensagem.

Quer um exemplo? Mais de um?

A eles, então.

Em que ocasião você come um bife ou um filé?

Bife já traz a conotação de algo de segunda linha. Bife é de fígado. De coxão duro. De músculo amaciado no martelo e naquele pozinho branco que jurava depois ser possível mastigar sem quebrar um dente. Bife é de contra-filé na padaria que gruda o cotovelo. À milanesa pingando óleo cheio de buraco na casca. Aquele de frango que passou do ponto e esturricou, seco, intragável. Bife é isso. É a qualificação do PF. É o máximo da extravagância da marmita.

Já o filé, não! Filé é pomposo. Filé vale foto no Instagram. Filé tem altos cortes nobres e preparados à perfeição. Filé é coisa fina, ora, pois. Filé tem au poivre, salpica um francês que o bagulho se engrandece. Não importa a linha, a questão é a impostação. Até de frango, por que não? Tem que empratar, ornar, tascar salsinha em cima, aquele rabisco de molho em meia-lua em volta da carne. Um tico que nem chega a ser um tanto, um barquinho perdido num oceano de um prato enorme.

A um, a amargura da pobreza; a outro, a glória e a nobreza.

Outro grande exemplo da superioridade semântica está na diferença entre janta e jantar.

Jantar é aquela coisa romântica. Envolve carinho, afeto, o preocupar-se com o outro. Você sai para jantar. Quando quer agradar, você diz que vai preparar um jantar especial. Você agora lê essas linhas, “opa, jantar!” e pode ouvir no background uma bossa-nova-instrumental-piano-saxofone rolando. E a taça de vinho, está logo ali, ajudando a decorar a mesa posta com chamego e luz de velas. Num jantar tem blazer e echarpe. Tem tilintar. Só existe tilintar no jantar.

Já a janta, coitada, é o alimento da noite. Serve para encher o bucho. Você certamente vai se lembrar de sair do quarto no meio da sua inutilidade adolescêntica, de moletom sem partes de baixo, descabelado e celular na mão, gritando “manhê! Que tem na janta?”, para ouvir de volta “você acha que sou sua empregada, é, inferno?” Dali mais um pouco, a janta está lá, cozida já com gosto de requentada. Janta é impaciente, há um certo desleixo envolvido e uma vontade de sair correndo para fugir com aquele amor da juventude. “Como será que ele está hoje?” a manhê se pergunta, queimando o arroz. Janta é parede sem reboco, tem sujeira debaixo da unha.

É nesse contexto que se insere a guerra biscoito e bolacha.

Esqueça tudo o que você já ouviu desde então sobre isso, absorva as palavras que salvam e aliviam.

Bolacha é aquele troço sem graça. Simples, rústico. Bolacha engrunvinha tudo no céu da boca. Bolacha precisa de, no máximo, dois ingredientes. Água e sal. Maisena. Bolacha é o item mais barato de sua gôndola do supermercado. Bolacha você joga para pombo na rua, junto com pão velho. Bolacha é a cream cracker, que mesmo tendo gergelim – sua versão metida a besta – todo mundo sabe que é apenas bolacha. “Ponha-se no seu lugar!”, pensam suas colegas, e ela volta, encabrunhada, rabo entre as pernas, porque não tem gergelim que a eleve a biscoito.

Porque, meu amigo, minha amiga, biscoito é coisa fina. Aliás, é coisa tão fina, que tem até gravadora que chama Biscoito Fino. Uma redundância, penso. Biscoitos são amanteigados, vão ao forno. Biscoitos têm receita. Biscoito pode ser recheado, doce de leite, morango, chocolate. Biscoito tem sabor! Biscoito tem grife e pedigree. Biscoito é a bolacha que venceu na vida.

É a evolução da espécie.

É o jantar da janta. É o filé do bife. É o mix de folhas da salada.

É a mesma coisa, só que de nariz empinado.

***

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça.

Aqui você vai encontrar contos, crônicas, ensaios e análises políticas sobre o Brasil, a Bahia, São Paulo e mais tantos outros lugares e personagens fascinantes.

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