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(Bônus) Dia 9: Hamilton Reis

Hamilton Reis em sua varanda. Salvador/BA. Foto: GABRIEL GALO
Escrito por Gabriel Galo

Quando a música emitiu seu chamado, Hamilton Reis largou a carreira de bancário para se dedicar à sua arte. O tempo o fez cruzar com o samba de roda.

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Salvador, 2 de fevereiro de 2017

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“O melhor que tenho para dar é minha arte”

Hamilton Reis

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Encontro Hamilton no Largo da Mariquita, em plena festa de Iemanjá. Acompanhado de Isabel, sua esposa, já fizeram o ritual de entregar o regalo à Mãe das águas, como havia de ser. Alto, grisalho de cabelo e de barba, os 63 anos recém-completados em 28 de janeiro não aparenta. Sentamos num bar ali mesmo, já buscando cerveja gelada para soltar o papo.

– Não sei nem mais o que posso falar, afinal, você já conversou tanto com Davizinho! Começa ele, interrompido por uma risada Isabel.

– Esse aí gosta de falar…

– É, sou um pouco prolixo.

Isabel procura ficar de lado, mas é impossível manter a conversa sem o suporte da companheira de uma vida. Desde o primeiro momento, percebe-se o imenso carinho, respeito, admiração e amor de Hamilton por duas pessoas em sua vida: Isabel e Davizinho de Mutá. Sua esposa se derrete, sorri envergonhada, mas, ao mesmo tempo, cheia de si.

Ao sentarmos, Isabel sugere que sigamos para o apartamento deles.

– Em vez desse barulho, tomamos uma cerveja na varanda, de frente para o mar, ouvindo Ella Fitzgerald.

Era tentador.

Ainda assim, iniciamos os trabalhos por ali, para sermos em breve interrompidos por um cantor de rua, o Andresson Costa, que vinha com caixa de som presa que nem mochila nas costas, chapéu com chifre e liberando arrochas e sertanejos para os nossos alcoolizados vizinhos. Poucos minutos depois, o próprio bar liga suas caixas de som.

Não mais tentador. Era questão de sanidade mental e sobrevivência.

Assim chegamos ao belíssimo e acolhedor apartamento do casal. Eles se esforçam para que me sinta bem-vindo, no que foram bem-sucedidos, embora de muito menos precisasse.

De sorriso fácil, cheio de histórias e orgulhoso de seu caminho como músico, ele me conta sua trajetória, com muitas pausas para risadas, conversas paralelas, e o que mais surgisse.

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Hamilton nasceu em Valença, interior baiano, em 1954, e migrou para a capital em 1964.

– Uma das primeiras lembranças que eu tenho era do Carnaval de rua, quando os blocos saíam, e eu pedia a meu pai me levar para ver. Lembro, em especial, d’Os Africanos, que tocavam percussão e cantos negros, típicos do recôncavo e ficava maravilhado.

Aprendeu a tocar violão com amigos.

Na faculdade, conheceu Isabel. Ele fazia Música, ela Assistência Social. Aproximaram-se de vez por causa do Projeto Rondon. O projeto era uma das bandeiras do Governo Militar, e levava estudantes universitários para praticar seus estudos em cidades desprovidas de profissionais no interior. Um grande acaso os uniu.

– Eu ia para uma cidade e Isabel para outra. Mas aí a coordenadora que cuidava do grupo que ia para a cidade que eu tinha escolhido não gostava de música, achava desnecessário. O coordenador do grupo de Santa Cruz da Vitória, para onde Isabel estava indo, topou trocar com um outro estudante para me acomodar.

O relacionamento não demorou para se fazer e a paixão foi arrebatadora. Na vida pacata do interior, frequentemente fugiam para namorar, e numa dessas escapulidas perderam a auditoria que faziam do Projeto Rondon. Sem saber, ficaram até o final, mas como não puderam ser encontrados, sem diploma ficaram, mas na paixão ganharam muito mais.

Certa feita, o Circo de Dandai chegou na cidade. O dono, Dandai, passeando pela cidade, vendo-o tocar violão e cantando com Isabel, os convida para participar como atrações especiais.

– O circo era mambembe, bem simples, bem precário. Nos apresentaram e cantamos. Foi um sucesso. No dia seguinte, fomos chamados como convidados VIP, sentamos bem perto do picadeiro, e ali mesmo vimos, na subida do trapezista, o mastro pender e cair em círculo derrubando a lona inteira. Acontece que cada um no circo tinha várias funções. Tinha um índio grande, forte, que era também segurança, e vez ou outra barrava alguém na entrada, se não fosse com a cara. Tinha anunciado que ele conseguia puxar um carro sozinho! E mesmo depois da lona caída, o povo reclamou revoltado que tinha pagado e que queria ver o cara puxando o carro! E, mesmo sem luz, sem picadeiro nem cadeiras, no escuro mesmo, todo mundo viu o índio realizar seu ato.

A volta a Salvador necessitou ajustes. O namoro juvenil e sem compromissos do interior sofreu com a rotina da cidade grande. Superado o baque inicial, o namoro engrenou, e Isabel levou Hamilton para conhecer Davizinho, em 1976.

Davizinho é casado com Regina, irmã de Isabel. Quase 14 anos mais velho que Hamilton, já tinha ouvido falar do namorado de sua cunhada, e sabia o mais importante: que ele tocava violão. As irmãs, e até mesmo outros de parentesco próximo, moravam com o recém-casado casal, que lhes davam teto, comida e o que mais fosse necessário, no Politeama. Diz Isabel, rindo muito:

– Imagine a situação. Eles recém-casados sem poder aproveitar a vida juntos porque tinha mais um monte de gente morando com eles. Davizinho tinha um bom emprego na UFBA, e vivia arrumando trabalho para a gente. Acho que nem era por bondade, mas porque queria ver todo mundo ganhando dinheiro para poder ir embora!

Quando Hamilton chegou, Davizinho já veio de violão na mão, e pediu para ele tocar alguma coisa. Educado que é, disse que a prioridade era do dono da casa, e Davizinho cantou “Miserere Nobis”, de Gilberto Gil. Nascia ali uma grande amizade.

– Nessa época eu trabalhava em banco. Tinha feito concurso e passei, e fiquei 10 anos, dos 21 aos 31. Mas de vez em quando eu tocava em aniversário, barzinho. Davizinho ia me ver tocar, e eu o convidava para dar uma canja. A gente cantava muito bem junto! Até então não tinha nada de samba de roda. Eu tocava música que fazia sucesso, Roberto Carlos, Beatles, MPB. E quando a minha banda saía para tocar, a “Caminhos Livres”, eu também chamava Davizinho para ir comigo.

Infeliz com a vida de bancário, tem uma conversa que mudou o rumo do casal.

– Com 31 anos, eu estava muito infeliz. Não sabia exatamente o que era. Sabia que eu gostava demais de música. Com ajuda de Isabel, entendi que era o que me fazia feliz, que o melhor que tenho para dar é minha arte. E ela foi muito importante, porque mesmo sabendo da incerteza da vida de músico, me apoiou e me apoia incondicionalmente, segurou as pontas nos momentos de dificuldade, e nunca questionou nada.

Neste momento, ele, com olhos cheios de paixão e gratidão, levanta e beija sua esposa.

– Eu ganhava dinheiro tocando em barzinho e dando aula de violão. Não era muito, mas ajudava um pouco. E nessa de tocar e sempre chamar Davizinho, em 1990 fomos chamados os 2 para tocar na Fazenda Recanto (nota: a Fazenda Recanto fica exatamente na entrada de Mutá) como dupla. Os contatos vinham sempre por mim, porque eu era o que tocava em barzinho, mas neste caso, veio por Davizinho. Fomos tocar, e o irmão de Davizinho, Zé Raimundo foi assistir, mas levou o violão dele. E não teve outro jeito, chamamos Zé para tocar, e deu certo de primeira! As nossas vozes encaixavam, Zé fazia violão-base e eu podia solar.

Zé Raimundo é o terceiro elemento da criação do Barravento, em 1993.

– Eu estava um pouco cansado de tocar em barzinho, e como vivia de música queria crescer com material próprio. Achar lugar era complicado, mas conseguimos espaço para tocar nos 3 shoppings de Salvador na época: Barra, Itaigara e Iguatemi. Era um dia em cada. Foi Davizinho que incentivou a gente a colocar samba de roda, e deu muito certo. O público respondia muito bem. Nem sei exatamente como ele ficou sabendo da gente, deve ter visto a gente tocar, José Augusto Berbert de Castro escreveu uma crônica no A Tarde, falando de Mutá!, com foto da gente tocando no shopping, e até foto da casa de Davizinho na vila. Aquilo deu uma repercussão danada. A gente nem sabia que tinha saído no jornal! A gente estava tocando no Shopping Barra, e veio muito mais gente que o normal! Mostraram o jornal, e foi a primeira vez que a gente deu autógrafo, imagine! Mas o Shopping não estava muito feliz com aquilo, cada vez que a gente tocava era um bafafá danado. Com o argumento que lá não era lugar de show, fomos demitidos.

O que era complicado, virou oportunidade.

– Gravamos umas músicas e começamos a mandar para um monte de gente e para tudo quanto é lugar que pudesse dar o espaço para tocarmos. Em 1993 demos o nome de Barravento, depois de 3 anos já cantando e tocando juntos, e definimos que nosso negócio era tocar samba de roda, mesmo com a relutância de Zé.

Percebe-se que o tema é doloroso, e foi o que, em 2007, culminou com o término da banda, renascida como Barlavento.

– Zé tinha vergonha de falar de Mutá, dos sambadores de Mutá. E mesmo assim, queria que ele escrevesse todas as músicas do grupo, o que não aceitamos. Ele não tinha uma boa visão de grupo, era complicado. Como eu vivia de música e queria que o grupo ficasse cada vez maior, comecei a ter discussões com Zé, que queria algo menor, tocar em aniversários e festas. Mas hoje estamos bem, somos amigos, até o convidei para meu aniversário.

– Ele foi?

– Não.

Voltamos para a história da banda.

– Muita gente recebeu nossas fitas e gostou da nossa música. Até Perfilino Neto, da Rádio Educadora, que até hoje tem o seu programa, o “Memória do Rádio”. Já fomos lá duas vezes, inclusive Isabel, que é uma grande cantora, já foi lá também duas vezes.

Isabel, então, me presenteia um CD onde canta músicas românticas. Deixam escapar que tem mais um disco a caminho, mas me pedem para que não dê muitos detalhes. Acredita no mistério como fator determinante de sucesso.

– Conseguimos entrar no Pelourinho Dia e Noite e mais alguns outros lugares. Tudo sempre na cara-de-pau, nunca tivemos empresário, nada disso. E conhecemos mais muita gente boa, como Roberto Santana. Roberto é músico e produziu o nosso Vatapá da Véia, em 2000. Ele é primo de Tom Zé e foi ele quem apresentou Gil a Caetano! Quando falamos de gravar um disco, ele disse que tinha que ser ao vivo “é mais verdadeiro, samba de roda precisa ser ao vivo”.

O orgulho que ele tem do Vatapá da Véia, o primeiro disco da banda, é evidente.

– Vai ser difícil algo fazermos algo tão bom quanto. Gosto de todos, mas este é especial.

Se por ser o primeiro, se por ter tanto samba de roda que tocaram por muitos anos, se por realmente ter captado a alma do grupo, ou se por tudo isso junto e mais alguns motivos, apenas posso concordar, por ser eu, também, fã incondicional do Vatapá da Véia. Os sambas de roda do grupo são um convite irrecusável para a dança.

No segundo disco os sambas de roda ficaram em segundo plano, e o forró tomou conta. Disco do qual ele menos gosta, nem está disponível nos aplicativos de música on-line, como Deezer ou Spotify.

– Na volta de uma viagem para a Europa, em que eu e Davizinho queríamos fortalecer o samba de roda, e Zé discordando, o grupo acabou. Eu e Davizinho, junto com Henrique, percussionista do grupo, saímos e seguimos tocando, criando o Barlavento. Mas ainda faltava músicos.

– Tive que chamar meu filho Bruno para tocar comigo. Ele é músico também, e veio tocar baixo e violão com a gente. Eu precisava, e ele veio.

Desde 2007, o Barlavento já lançou 2 discos: O Buraco de Maroca (2009) e Mariscada na Roda (2012).

Tem mais um, que está prestes a ser lançado.

Festa de Rua, Roque Ferreira

“Para Hamilton e Davizinho, dois mestres do samba de roda, com os quais muito aprendi” Roque / 2016-06

– Já estamos gravando, vai se chamar Quebra-mar. A música que dá nome ao disco é de Roque Ferreira. Quem trouxe Roque para o grupo foi Zé Raimundo.

Roque mostra ser um admirador inveterado do Barlavento. E de Isabel, no que Hamilton brinca “ainda bem que não tenho ciúmes”.

– A gente nem sabia que ele gostava tanto assim da gente. A gente foi no lançamento de um livro dele. Aquela fila enorme, danada, e ele levanta para cumprimentar a gente. Foi de um carinho enorme. E prometeu fazer uma música para a gente. E ele fez 3 para este disco.

Ele cantarola trechos das músicas de Roque enquanto fala sobre elas.

– A primeira é Quebra-mar. Gostamos tanto da música que decidimos chamar o disco assim. E falamos que ele tinha que cantar com a gente, gravar conosco. Já está gravado! A segunda se chama “Sereno Molhado”.

Conversamos sobre o significado de um verso que diz “põe o capote porque o sereno está molhado”. Rimos das nossas visões diferentes.

– A terceira música é uma joia, uma maravilha. Um presente maravilhoso de Roque para a gente. É um ijexá, e ele um dia brigou com a gente quando a gente mostrou uma música para ele falando que era um ijexá, e ele deu uma aula para a gente, mostrando porque não era. Essa música me deixa emocionado, toda vez. Eu lembro d’Os Africanos, do carnaval de rua de Valença, me transporta.

Ele me chama para ouvir a gravação. Vejo o manuscrito da música, batida na máquina de escrever. No conceito de Roque Ferreira, são mestres do samba de roda. Não é para menos, nem parece exagerado, uma vez que se tem a oportunidade de ouvir suas músicas e estar ali com eles, frente a frente.

O som invade o quarto, e é magnífico.

– No coro estão cantando Brisa, minha filha, Isabel, Regina…

A música se chama Festa de Rua. Para um dia 2 de fevereiro, não poderia haver sincronia melhor.

Na nossa quase despedida, ele canta no violão “Festa de rua”, mas pede para não publicar. Promete que quando for lançar o disco, saberei de antemão. E também saberei antes dos projetos de Isabel, dos quais já sei, mas finjo não saber para fazer-lhe graça e manter a palavra.

E só falo que já sei porque Ella Fitzgerald não tocaram, viu, Isabel?

Muitas das histórias ficam guardadas. Chimoca e seu cavalo, as serenatas com Milton Nascimento, incluindo o vizinho cobrando alô e vendo o Bituca ali, saindo quietinho com o rabo entre as pernas, Jane e o senhor com Alzheimer, os amigos que decidiram ser mais do que isso por uma noite… Histórias e folclore de Mutá, lugar que agora quase lhe sai como se seu fosse.

Na despedida, já me convidam para voltar, com família e tudo, e ficar com eles, inclusive.

Nasce uma amizade, destas que devem ser nutridas com carinho e cuidado.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

2 Comentários

  • Caro Gabriel! O papo realmente foi muito informal e prazeroso tendo ao nosso lado a companhia do poeta/músico Celso Velame. Só faltou a presença do Davizinho de Mutá para complementar mais ainda as incríveis histórias de Mutá e adjacências! Ele ainda não contou todas!
    Um grande abraço!
    Parabéns pela seriedade com a temática e foi muito importante divulgar o samba-de-roda da Bahia no seu Blog.

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