Crônicas Crônicas da Copa 2018 Minhas histórias

Cada uma das minhas Copas

minhas Copas, Brasil, Alemanha, 7 a 1
Escrito por Gabriel Galo

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Eu nem nascido era. Segundo meu pai, a derrota no Sarriá para a Itália de um endiabrado Paolo Rossi foi uma das maiores tristezas de sua vida. Não é de se duvidar. Aquela capa histórica do Jornal da Tarde, com o garoto chorando, representava a alma de cada brasileiro. O encanto perdeu. Uma das melhores seleções brasileiras da história perdeu.

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Eu me aproximava dos 4 anos, e de nada lembro. Nem boa história há do círculo familiar mais próximo.

[Brasil 0 x 1 Argentina, oitavas-de-final – Itália 1990]

Quando Argentina e Brasil jogaram no dia 24 de junho, era um domingo de muita chuva. Estávamos em Mutá, paradisíaca vila de pescadores apontando para os fundos da Ilha de Itaparica. Artigo de muito luxo era televisão. Para acompanhar as coisas do mundo restava o rádio. Nas ondas das AM/FM que alcançavam o longe, deve ter chegado a notícia, que veio até mim de maneira muito peculiar.

Meu pai nunca foi de saber administrar bem seus sentimentos. Explodia por pouco. Era uma constante bomba-relógio. A Argentina vencia com gol de Caniggia, passe de Maradona. A chuva apertava e insistia, levando consigo um vento frio de gelar os desavisados baianos. Com o apito final, a bomba explodiu.

Meu pai mandou todo mundo pra fora de casa. Não tinha discussão. Tinha que sair. Sem essa de “mas está chovendo”, de “mas está frio”. Nada. Queria ele o tempo livre para ficar em casa com minha mãe sem filhos enchendo o saco. Nem consigo imaginar a dor que ela sentiu naquele momento. Sei apenas da minha dor.

Na época, a ponte dos pescadores era de madeira. Havia grandes espaços entre as ripas, coisa de construção precária. Era, no entanto, o único abrigo que consegui encontrar. Encolhi-me sob a ponte, os pingos gélidos descaindo sobre meu corpo, espalhando calafrios e tremedeiras.

Não entendia nada daquilo, porque eu estava sendo punido tão violentamente por nada. Perguntava-me o tempo inteiro se eu já podia ir pra casa. Foi com o sol se pondo e o dia se esvaindo que voltei. Um dia tenebroso.

[Brasil 0 (3) x 0 (2) Itália, final – EUA 1994]

(Acabou! É tetra!)

Ah, a Copa dos EUA! Que barato! Os horários dos jogos eram excelentes, sempre no meio da tarde, começo da noite. Eu, maior e mais atento às coisas da vida, sabia quem era quem, quais as seleções favoritas, quem estava bem no Brasil. A final assistimos numa grande festa na casa de algum amigo de meus pais em Salvador. A área comum do prédio foi preenchida com mesas e cadeiras. Juntou gente como o quê! No fim, a disputa de pênaltis nem foi assim tão sofrida, mesmo depois do perdido pelo Márcio Santos. O lendário Baresi mandou na lua, Massaro nas mãos de Taffarel, Baggio imitou Baresi, e o tetra chegou. O povo pulando, comemorando, e eu vendo o Galvão e o Pelé, abraçados, Galvão semi-tonando, rouco, Pelé em êxtase, usando uma gravata de gosto mais do que duvidoso. Aquela imagem ficou marcada em mim pra sempre. Além da imagem de Romário acenando com a bandeira do Brasil na janela do avião da muamba voltando ao Brasil. Épico.

[França 3 x 0 Brasil, final – França 1998]

(Quem é que sobe…)

Estávamos em Campo Grande, no MS. Em poucos meses depois dali aportaríamos em São Paulo, para retomar a vida, tal qual rotina já se tornara. Os jogos, pela manhã ou à tarde, aconteciam em horário de escola, o que me afastou de boa parte dos confrontos. Mas na final estávamos todos a postos! E vimos o massacre. No 2 a 0 já interesse mais não havia. Das lembranças marcantes, um Galvão inconformado na transmissão.

A primeira escalação confirmada para a final trazia Edmundo como titular no lugar de Ronaldo. Sim, o episódio da mais misteriosa convulsão da história do desporto. O Galvão falava nos microfones da Globo que aquilo não poderia acontecer. Que Ronaldo jogaria, SIM, a final. E de última hora ele jogou. Mal, como toda a seleção, dominada por um Zidane mal marcado nos escanteios pelo Leonardo. Seria aquela a Copa da camisa mais bonita da Seleção que eu já vi em uma Copa do Mundo.

[Brasil 2 x 0 Alemanha, final – Coréia/Japão 2002]

(Como é bom gritar gol numa final de Copa do Mundo!)

Que horariozinho esta Copa no oriente. Que preparação esdrúxula. Tudo indicava o pior – lembremos, fomos eliminados por Honduras um ano antes pela Copa América. Mas a gente tinha Ronaldo, mesmo descreditado depois de uma cirurgia complicadíssima no joelho, após contusão dois antes quando estava em ação pela Inter de Milão numa final de Copa da Itália. Tinha Rivaldo. Tinha Ronaldinho Gaúcho. Deveria ser suficiente… E foi.

Por conta das complicações de fuso, os jogos foram sempre assistidos em casa mesmo. Menos a final. Como era de sábado para domingo, dava para reunir a galera, garantir o churrasco, tirar uma soneca rápida e estar acordado na hora do jogo.

Dito e feito. Brasil campeão, 2 de Ronaldo e o seu ridículo penteado Cascão.

[França 1 x 0 Brasil, quartas-de-final – Alemanha 2006]

(Olha a categoria desse cidadão…)

Olha, era difícil não segurar a empolgação. A seleção de Parreira tinha ganhado tudo o que disputou. Na final da Copa das Confederações de 2005, 4 a 1 na Argentina com requintes de crueldade. Formamos o quadrado mágico, com Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e Adriano, estrela da Inter de Milão que tomou o lugar de Ronaldo, transferido ao Real Madri depois da Copa anterior. Cafu numa lateral, Roberto Carlos na outra, Dida no gol… Nem precisaria de muito esforço que o hexa viria.

Foi a primeira Copa do mundo das TVs de plasma! E nós, tendo garantido uma sobreprecificada TV pouco antes do pontapé inicial na Alemanha, fizemos do apartamento o ponto de encontro dos amigos. Em todo o jogo, lotava. Pessoal chegava com carregamento de bebidas e quitutes. Juntava na sala e ficava vendo.

E gerava situações inusitadas. Começou espaçado e virou regra. Ficávamos nós ali, 15 a 20 pessoas, sentados na sala, imóveis. Alguém haveria de levantar. Fosse de sede, fosse pra ir ao banheiro, fosse pelo que fosse. E quando o coitado levantava… Virava o garçom de geral. Ia e voltava seguidas vezes da cozinha abastecendo as gargantas secas de quem não levantaria nem por decreto.

Nesta levada, vimos o episódio da meia do Roberto Carlos, a elegância sutil de Zidane (beijo, Caetano), e a eliminação absolutamente surpreendente. Mesmo com a bagunça, a taça era nossa. Não foi.

[Holanda 2 x 1 Brasil, quartas-de-final – África do Sul 2010]

(Cagão de merda…)

Em retrospecto, agora, fica realmente fácil ver que o Brasil não chegaria longe. O time titular tinha Michel Bastos, Felipe Melo, um envelhecido Gilberto Silva, Elano e Luís Fabiano. No banco, Grafite, Nilmar, Kleberson… Complicado. Um 11 no mínimo instável, comandado por um bipolar técnico que, num desafio às regras de probabilidade, fazia um excelente trabalho até então: Dunga. Se não fosse pela bola, aquela seleção levaria no grito.

A gente até esquece que no primeiro tempo contra a Holanda, pelas quartas-de-final, se o placar tivesse virado 3 a 0 pro Brasil, não seria exagero. A seleção jogou demais. Sufocou, dominou a Holanda. Mas aí virou o segundo tempo… E o enredo todos conhecem. Julio Cesar tromba com Felipe Melo, gol. Felipe Melo, destemperado, dá um pisão em Robben, expulso. A Holanda vira. Na casa onde morávamos na Granja Vianna, galera mais uma vez reunida. Que lamento.

[Brasil 1 x 7 Alemanha, semifinal – Brasil 2014]

(Lá vem eles de novo… Virou passeio! Gol da Alemanha)

Felipão, Felipão… Ah, Felipão!

Tínhamos mudado para Alphaville. E, uma vez mais, bora juntar todo mundo! Desta vez, foi muita gente do trabalho, cujo escritório era próximo de casa e ninguém queria pegar trânsito de 4 horas para não ver o jogo do Brasil por estar no meio de um congestionamento.

Fomos assistir à abertura do Copa no até hoje inacabado Itaquerão. Antes, em 2013, vimos a final contra a Espanha pela Copa das Confederações no Maracanã, num jogo memorável da seleção. Ainda pelo torneio, voei a Salvador para ver Brasil 4 x 2 Itália na Fonte Nova, a arena das goleadas do Vitória sobre o rival de Itinga, para ver o maior clássico das Copas com meu pai. O mundo veio para o Brasil. O clima era maravilhoso. A atmosfera de #NãoVaiTerCopa foi substituída por uma euforia de contentamento porque esse negócio de Copa é bom demais, meu povo.

Então o pessoal foi chegando. Semifinal, Brasil e Alemanha, Mineirão. Rumo ao équiça!

Amigos, com Bernard e sem Neymar a gente não conquista nem a várzea aqui de São Paulo. Daí foi 1… 2… 5… (enquanto você falava o dois saiu o terceiro e o quarto e você nem viu). Um foi ali fumar um cigarro, saiu 1 a 0, voltou 5, achava que era pegadinha. O abatimento era geral. Ninguém falava, ninguém conversava. Sequer havia força para gesticular. Ficamos todos embasbacados, queixos no tornozelo, imóveis. Duvida? Tome um gol da Alemanha na fuça para deixar de ser cético.

Pessoal ainda resistiu até o fim. Ficou até ver o Oscar fazer o gol que nada teve de honroso. Daí contra a Holanda ficou cada um no seu canto, viu outra sapecada e adeus alegria nas pernas, para todo o sempre.

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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