Crônicas

Caruru de Cosme e Damião: o milagre da multiplicação do quiabo

O caruru de Cosme e Damião é espelho da alegria e receptividade do povo baiano.
Escrito por Gabriel Galo

As escrituras sagradas do sincretismo religioso baiano comentam do dia em que do talo de um quiabo houve fartura para uma vila inteira. O rito foi perpetuado em cada canto da velha cidade da Bahia, não como dogma, que é coisa feita para ser quebrada, mas como tradição, nascida para ser exaltada. No caruru de Cosme e Damião fez-se o milagre da multiplicação.

Diz o livro que umas das primeiras exibições do milagre aconteceu em casa de Dona Moça que foi preparar a iguaria, mas viu-se em cerco: tinha acabado o quiabo na feira. Com não mais do que um punhado para alimentar tanta boca, preparou a panela e encheu de acompanhamento para saciar vontade. Pôs-se à mesa com vatapá, farofa de dendê, feijão fradinho e até pipoca e bala de mel para agradar o paladar peculiar do rebanho de seus sete meninos.

Dei-me conta de tal obra quando ainda infante. Calhava de no 27 de setembro, coincidentemente ou não, irmos para a casa de meus avós. Logo ao lado do portão tinha Pretinha, vizinha de muro que se fazia notada de existência apenas para que evitássemos chutar a bola para o lado de lá. Do baba da bola à baba do quiabo, quando percebia, estava eu na cozinha de Pretinha, com prato servido generosamente, cercado por um verdadeiro enxame de gente que comia, bebia e falava alto.

Assim foi que o caruru de Cosme e Damião virou espelho e maior símbolo da reconhecida receptividade do povo baiano. Cunhou-se até motivo para tristeza e solidão, causa maior de depressão na Bahia: a falta de convite para um caruru que se preze. Vai se aproximando o fim de setembro e você pode ver os sintomas espalhados por todos os cantos da cidade. Escuta-se o lamento choroso que enternece. Pergunta a alma caridosa e preocupada, “Que cara é essa, pai?” Para ser respondida com olhos que nem força têm para se erguerem “Não me chamaram para caruru nenhum, véi…”

No que se convém pensar que convite que não é feito é aperto demais na mente do indivíduo. Afinal, se o quiabo se multiplica em milagre – onde comem quatro pessoas come o bairro todo com fome e levando as tapaué carregadas embora – o motivo há de ser outro. Além do mais, se convite não há, sujeito há de passar na frente de casa exalando a essência todos os poros. A tentação provoca arrepios e passa a ser questão de autodeterminação, cheia de abuso e ousadia. “Dona da casa me dê licença que esse caruru é cheiroso!”

Se organizar direito, todo mundo transa um caruru retado.

Assim, está sacramentado na pedra dos mandamentos de boca-a-boca do sincretismo religioso baiano que o pecado original é recusar um chamado. Na quantidade, pule de galho em galho. Registre-se também que festa da boa é com caruru completo – exceção aberta a um acarajé vezeiro. E que o caruru de Cosme e Damião carimba em alto relevo que a alma do povo baiano continua livre, leve e solta, numa elevação de espírito que denota o que é que a Bahia tem de melhor.

Enquanto tiver caruru, ainda seremos baianos praticantes.

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O caruru de Cosme e Damião forma a tríade de ouro do sincretismo religioso baiano, junto com a Lavagem do Bomfim e a Festa de Yemanjá.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça.

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