Eleições 2018 Ensaio Política

Com que vice eu vou?

vice, eleições 2018, vice-presidente, política
Escrito por Gabriel Galo

Nestas Eleições 2018 o papel do Vice-Presidente ganha um destaque maior. Os holofotes são tantos, que até debates com os candidatos a Vice, tal qual existe, por exemplo, nos EUA, ganharam vez no Brasil. No cenário do pleito que se aproxima, os vices, além do aspecto participativo mais amplo, significam muito sobre a mensagem que o candidato quer passar. Você presta atenção em qual é o vice de seu candidato?

A auto-estima hiper inflada de Michel Temer dirá que, dentre as suas maiores façanhas, estará a de elevar o status de vice-Presidente de figura decorativa a agente importante do processo político. Claro, um espalhafato. Primeiro porque em nossa recente e desequilibrada histórico republicana, há quase 50% de chances de um presidente eleito não terminar o seu mandato. No que as atribuições dos Vices (quando chegam a assumir, caso o golpe seja de outra monta) sempre foram fundamentais.

Durante muitos anos, o país viveu eleições em que se votava tanto para Presidente quanto para Vice-Presidente. Ou seja: poderia ser eleito um Vice que seria adversário político do ocupante do maior cargo do Executivo Nacional. O que gerou conflitos incessantes, atentados contratados, blefes em renúncias aceitas, parlamentarismo de transição à Ditadura. Já em eras modernas, viu-se a instauração do golpe 2.0 na ordenação do impeachment, lembrando que o primeiro Presidente civil faleceu antes de assumir, tendo seu vice ocupado o posto de reabertura democrática.

Está evidente: o Vice importa. E muito.

Tomando como exemplo as últimas eleições, vimos composições de eleitos que ou se assemelhavam a um acordo fisiológico para assegurar a governabilidade, ou então uma mensagem para suprir uma lacuna de consistência da candidatura. Com isso, as chapas sangue puro naufragaram, incapazes de reforçar a sua narrativa. Afora 1989, eleições que serviram para reconstruir a estrutura de poder em Brasília, a partir de 1994 conhecemos uma nova tendência.

FHC foi eleito para dois mandatos tendo ao seu lado Marco Maciel. Pernambucano, filiado ao PFL (atual DEM), Maciel foi o pedágio cobrado por Antonio Carlos Magalhães (dono do partido e do Senado) para apoiar o tucano. Maciel, por fim, era um Vice decorativo que funcionava como boca e ouvido do coronel baiano.

À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta.

Ditado popular

O PT aprendeu a lição. Entendeu os anseios do mercado e se adaptou. Abandonou a pureza ideológica (que formou com Mercadante em 94 e Brizola em 98). Via Lula, escreveu a famosa “Carta ao povo brasileiro” em junho de 2002. Por fim, como manda o ensinamento da mulher de César, deu o exemplo e indicou José Alencar, do adversário e impensável aliado PL (atual PR) a vice. Apaziguou os ânimos exaltados e venceu o pleito. Em 2006, refez a dobradinha vencedora com o mineiro de Muriaé, desta vez filiado ao PRB.

Em 2010, Dilma Rousseff assumiu o posto de sucessora petista e trouxe Michel Temer a tiracolo. O papel de Temer era definido: dialogar com a vasta base aliada montada pelo predecessor, algo a que sempre demonstrou inaptidão. Assim, venceu em 2010 e em 2014, sendo esta última contra um PSDB puro sangue.

Em 2018, vê-se a volta de algumas chapas que se assemelham ideologicamente, em mais um indicativo da volta a 1989. Está em curso um alinhamento de poderes. Ainda assim, há mensagens gritantes na composição das chapas e das coligações. Vice-presidente é, fundamentalmente, um aviso.

Dessa forma, sabe-se que o MDB não conseguiu quem topasse pagar um preço altíssimo por seu apoio. (embora, lembrando as 10 lições básicas sobre política, não exista governo sem o MDB, que embarcará em qualquer governo). Vê-se a fraca escolha de Geraldo Alckmin, ao selecionar alguém tão sem carisma e relevância quanto ele próprio. Fórmula seguida à risca também por Álvaro Dias. Marina, por sua vez, tem um vice que é igual a ela, sem complementaridade.

Ciro e Haddad, na via mais à esquerda, foram com mulheres aos seus lados. No caso do cearense de Pindamonhangaba, para amaciar a pecha de machista que ele possui, além de acenar amigavelmente a um segmento que sempre busca um subsídio amigo. Já para o paulistano, além da inserção da mulher na chapa, veio uma candidata jovem, tentando vender a ideia de uma nova esquerda, de um novo modelo de se fazer política.

De todos os candidatos, no entanto, nenhum representa tanto perigo quanto Jair Bolsonaro. Ao seu lado, um General da reserva, que ensaia palavras autoritárias e tenta por antecipação dar uma rasteira em seu próprio cabeça de chapa. Trata-se do mais grave aviso nestas eleições. Ressuscitamos o flerte com a ditadura na figura de um vice que é mais do que uma mensagem ao Brasil: é uma ameaça.

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

1 Comentári0

Deixe seu comentário