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Desce daí, Brasil

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Escrito por Gabriel Galo

A preparação da Seleção Brasileira até a estreia na Copa foi exemplar. Virou favorita nas bolsas de apostas. Consagrou Tite, que com seu professoral falar invadiu as telas do Brasil, vendendo de um, tudo. A equipe jogava bem, revivia o quadrado mágico, reativava os bons tempos do ludopédio nacional. Elogios se acumulavam. O time era isso, era aquilo e ainda mais aquilo outro.

Do lado de fora, o clima foi construído com cuidado para animar a galera. Ufanistas transmissões ao vivo em cada canto do Brasil, Olodum na Bahia, cavalinho do Fantástico era Boneco de Olinda. Do lado de dentro, os treinamentos da Seleção animados, clima de descontração e harmonia. A família Tite se alinhava e se unia. Ficou-se definido, o hexa tinha data marcada: 15 de julho em Moscou. Até lá, mera formalidade.

Acontece que a Suíça não é time que se pudesse desprezar. Sexta colocada do controverso e contestado ranking da Fifa, os helvéticos dariam trabalho. E deram. Possuídos por um destemido espírito uruguaio em Libertadores, os europeus eram catimba e porrada. Neymar, como de costume, era perseguido em campo. Tudo sob os olhos vesgos e coniventes do árbitro (sic) mexicano.

O golaço de Coutinho mostrava no primeiro tempo uma defesa bem postada, mas um ataque um tanto inerte. Neymar segurando demais a bola. William burocrático, sem ter com quem tabelar no deserto lado direito depois da lesão de Dani Alves. Gabriel Jesus errando muito. Não estava bom. Haveria Tite de corrigir os erros na volta do intervalo.

Pois nem bem a bola rolou na segunda etapa, com chuteiras de cimento chumbadas no gramado, ninguém subiu com o livre, leve e solto atacante suíço, que testou após falta clara em Miranda contra a meta de Alisson. O empate era injusto, mas assim é o futebol. Pois desacostumada a ver-se questionada em sua superioridade, a seleção canarinho se perdeu. Se errava um mais um, quiçá conta de elevar ao quadrado mágico!

Sobe a placa, lá vinham trocas. Primeiro saiu Casemiro, amarelado, para entrada de Fernandinho. Depois, Paulinho deu lugar a Renato Augusto. Relembrando os horrores de 2010, confiar no ‘chinês’ para mudar uma partida é risco incompreensível. Por fim, Firmino substituiu o já há um bom tempo mal Gabriel Jesus. Em parcos doze minutos mais acréscimos, o camisa 20 fez mais que o menino do City em oitenta. Não adiantou. Os ataques canarinho se mantinham inoperantes, sem perigo. Na direita, William estático, solitário. Neymar apanhava e reclamava. Os suíços, satisfeitos com o empate, batiam e enrolavam.

Pode-se questionar os erros do árbitro (sic) durante a partida. O gol faltoso, o interpretativo pênalti sofrido por Jesus. Mas há uma lição maior a se extrair da partida de hoje que deve ser trabalhada por Tite.  Tem-se a impressão de que o Brasil acredita que pode ganhar a hora que quiser. Ou seja: o velho e famoso SALTO ALTO.

Desde 1974 o Brasil não empatava na estreia de uma Copa do Mundo. Quebrou-se uma longa escrita de vitórias em sequência. Neste sentido, talvez o empate sirva como alerta necessário para o despertar de um conjunto que já provou ser forte. Em Copa do Mundo o couro come em tudo quanto é idioma. Vacilos são punidos com a volta para casa. Portanto, desce daí, Brasil. Desce desse salto que não te pertence que fica tudo mais fácil.

* Gabriel Galo é escritor.

Crônica divulgada no site do Correio da Bahia em 17 de junho de 2018. Link AQUI!

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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