10 dias de vai ter Crônicas

Dia 0: A aproximação

Escrito por Gabriel Galo

Salvador, 24 de janeiro de 2017

Tem dois aeroportos que me encantam no Brasil. Um primeiro, óbvio, é o Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Descer no meio da Baía de Guanabara, com o Pão de Açúcar de um lado, a cidade em C a engolir a aeronave, com navios estacionados esperando vaga no porto é uma experiência única. Em termos naturais, difícil bater. Outro é o aeroporto de Salvador.

Pensando melhor, pouco se tem a ver com o aeroporto, mas com a aproximação.

Quem sobe de São Paulo, em dado momento, tem que quebrar à esquerda, para também ser engolido pela outra baía, agora a de Todos os Santos, a partir do Farol da Barra, que lhe dá as boas-vindas. Corta-se a cidade ao meio. Para quem viaja na janela à direita, a visão da Fonte Nova. Para quem vai na esquerda, algo sublimemente superior, pois se fosse possível esticar a mão para baixo, talvez as pontas dos dedos encostassem no Barradão.

O Rio representa o surreal.

Salvador representa o absurdamente real.

Entenda: o sorriso nos olhos continua sempre que o bico aponta para Oeste, o Farol dando o rumo. É que a ativação de sentimentos acontece abruptamente, sem nem preparo, por mais que se acostume. Cada volta é o retorno ao mundo escondido da memória, que vai sendo exposto por outras tantas novas lembranças.

Ajuda a balancear o que se fez de doloroso. Dá para entender?

O Rio é um tapa na cara do que é belo. Nem se pode respirar. Pá! O outro lado, o contraditório, vê-se lá embaixo, deixemos para depois o que deve ser deixado para depois. Especialmente porque a percepção da cidade está para sempre alterada. Precisa de muito para desmistificar a imagem da Baía de Guanabara vista do alto.

Salvador, por outro lado, é uma constante dualidade do belo e singular com o feio e bloco aparente, no quando se cruza de ponta a ponta. Uma gangorra histórica disponível a olho nu.

Vocês podem dizer, argumentar e espernear que há um tanto de viés no que direi. Errado, amigo. Há TUDO de viés, não me venha com fatia quando se pode tratar apenas do inteiro.

Talvez os aeroportos que valem a pena sejam apenas aqueles que recepcionam em baía.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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