10 dias de vai ter Crônicas

Dia 8: Ilha de Maré

Escrito por Gabriel Galo

(ou o arrocha, a culhudice e a retação)
(ou pelo direito ao silêncio nas praias de Salvador)

***

Salvador, 01 de fevereiro de 2017

Já aviso logo para depois não vir dizer que não avisei: tô retado!

Nunca tinha ido à Ilha de Maré. Comadre cantava que chegava de lá à Lavagem do Bonfim para fazer samba, e era tudo que eu sabia sobre o local. Estava empolgado para saber o que viria.

Mas, porra, véi!, vá matar o demônho!

Vou respirar fundo aqui para não me exceder. Vou na base d’o senhor se acalme.

No caminho de Paripe, pegamos a BA-528, que acaba na Base Naval de Aratu, onde presidentes se deliciam nas águas tranquilas do quase-mangue da Baía de Todos os Santos, na praia de Inema. Rodovia de tantas más lembranças, o Hospital do Subúrbio fica por ali. Prenúncio? Olhe que eu não acredito nessas coisas, mas quando se concretiza este tipo de inferência besta, a título de perfumação da prosa, afirmo: era prenúncio, mas quá!

Pegamos um barquinho rumo à Ilha de Maré, 5 reais pela travessia. Justo. Até então, tudo bucólico, natural, ó!, que lindo.

Chegamos à Ilha de Maré, na praia das Neves. Maré vazante deixava a areia ao longe, e o prolongado do banco de areia indicava a tranquilidade das águas. Baixamos do barco e seguimos com água nem bem batendo no meio da canela (acima dos joelhos para Angélica).

No caminho, sujeira na praia. Paro quando um vejo um caco de vidro de cerca de 15 centímetros de comprimento por cerca de 5 de largura, cheio de pontas, daqueles verdes grossos de garrafa de refrigerante, e levo para a mesa. Tampinha de garrafa, um copo perdido, até um garfo descartável a gente aceita. Vidro é outro nível de nigrinhagem.

Vamos chegando mais perto e o som começa a bombardear os meus ouvidos. A única barraca da ilha grita arrocha para quem chega.

Já falei que essa mizéra atrapalha o que já é memória, imagine naquilo que se faz novo?

Sentamos, e vamos para a água. Nela, sujeira e substâncias marrons diluídas. Não sei o que é, mas não gosto. A dúvida é que mata, sabe? Poderia ser… Poderia. Não chequei, e quem haveria de? Saio de perto.

Volto.

O arrocha está cada vez mais alto. Um atentado.

É cada letra carregada de ressentimento, vingança, cornudez. Tome rimas pobres de emoção com coração, deste naipe. Uma música diz que o amado pode ir embora, que ela até leva para a rodoviária. Em outra, um herói do relacionamento moderno, prega uma peça na namorada, que, diz ele, caiu na rotina. Diz que vai embora, e no choro doído da amada, diz que a mala é falsa, mas que ela aprenda aquela valorosa lição de vida que ele lhe impôs, e volte a ser o que era.

Sangro pelo ouvido com tanta morbidez. Povo agora quer é vingança, que poder dizer “bem feito!” quando aparecer a oportunidade.

Na mesa ao lado, um baiano está com sua namorada e amigos de São Paulo.

Na saída à água do casal soteropolitano, os amigos, um homem e uma mulher, jovens provavelmente ainda em faculdade, conversam.

Ela, abusando do “tipo”. Ele, cheio de “assim”. Houvesse um terceiro amigo, paulista com eles, provavelmente mandaria “tipo assim” que nem preposição, e viveriam, tipo assim, felizes para sempre.

O baiano, voltando da água, se mostra um entusiasta do arrocha. Acha lindo, poético, musicalmente superior. Gosto cada um tem o seu, mas, peraí, sinhá sacana, que tudo tem limite.

Começa a contar a história do arrocha. Que nasceu em Candeias, em 2001, como evolução da seresta. Conhecimento de Wikipedia, é exatamente o que está lá. Diz que acompanhou tudo desde o começo! Ora, faça-me um favor… O entusiasmo dele não é dividido por mais ninguém. Fica doído da galhofa que todos fazem do arrocha.

– Não me mexam no meu arrocha!

– Ui, menina!

Ele insinua “tem muita praia em Salvador”, como quem diz, se não está gostando, vai embora.

Porra, estava ali excelente ideia, que tínhamos tido há muito tempo. Na única barraca, tudo caro como cerveja artesanal na Vila Madalena. Nem um diabo de um queijo coalho. Nem um danado de um picolé Capelinha passando. Nem uma bendita baiana de acarajé!

Aí, quer saber?, me tire dessa desgraça é agora!

E cadê que tinha barco voltando?

– Só quando encher, ouve Angélica, que volta desnorteada, e já também se perguntando que diabos estava fazendo ali.

Já se fazia presente uma dor de cabeça daquela sofrência lazarenta, uma fome lascada, mau humor nas alturas.

Aqui, meu grito!

Ops, melhor alinhar o tom da pedida ao que proponho:

Aqui, meu chamado comedido e em volume natural, numa campanha que deveria ser abraçada por qualquer pessoa de bem e sã na velha cidade da Bahia, nesta lambuzância toda de dendê e putaria: QUERO MEU SILÊNCIO DE VOLTA!

Mas, antes da missiva em prol do silêncio, quero um barquinho de volta… Primeiro o que vem primeiro.

Ô, sofrência!

Um grupo se achega, vão pra cidade!

– Bora!, Corre, Angélica!

Dali a pouco, no barco voltando, longe do som terrível que aterrorizou a minha manhã, a maré bate no barco me molhando inteiro, em todo o curto, porém profético, trajeto.

Percebo que a comadre que foi para a Lavagem do Bonfim nada disse de Ilha de Maré porque ela, além de não ter dela o que falar, estava era fugindo do arrocha!

Volto é nunca mais a pôr os pés naquela lasquêra.

***

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça.

Aqui você vai encontrar contos, crônicas, ensaios e análises políticas sobre o Brasil, a Bahia, São Paulo e mais tantos outros lugares e personagens fascinantes.

Deixe seu comentário