10 dias de vai ter Crônicas Esportes Resenha rubro-negra

Dia 9: Santuário Ecológico da Brocação

Escrito por Gabriel Galo

Salvador, 2 de fevereiro de 2017

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Brocação: da qualidade daquele que faz ver pau-lascar-ni-banda, sem pena e mizerávi.

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Já era noite e subimos a pirambeira rumo ao Santuário Ecológico da Brocação, o Manoel Brocadas, estreia em casa no Bocãozão 2017. Era a primeira vez que ia ao Brocação sem meu pai, desde 1995! Na chegada, me emociono, porque se eu ali estava era unicamente por causa dele. Não tinha filas para comprar ingressos, e o fato de ter chegado quase uma hora antes ajudou, também. Torcedor do Vitória iniciado, mas teimoso, chega em cima da hora, pega fila da bilheteria, entra com bola rolando xingando até a oitava geração, já gritando a plenos pulmões depois de passar pela revista policial e pela catraca:

– Bora Vitória, minha porra!

Paramos na loja do estádio, estoque de camisa 7, resquícios de Marinho. A peleja estava armada contra o brioso Vitória da Conquista, ou Esporte Clube Primeiro Passo, o bode que vez ou outra aprontava contra os da capital, seja em Soterópolis ou no Lomanto Júnior.

No embalo da TUI e do rebolado das xilíder o Vitória começou o jogo com posse de bola e com Uillian Correa já tomando seu amarelo de costume, mas sem levar perigo ao gol do verde e branco do Sul. Paulinho, aquele do caso de amor com a Stella, errava mais que economista brasileiro, Kieza trombava e cotovelava e esquecia da pelota, enquanto David, o bipolar, entregava o que podia, porque o 2 de fevereiro tinha sido carregado no reggae. Cleiton Xavier fez companhia ao ponta.

DAVID, O BIPOLAR

Eis que o sacripanta de manto 27 resolve, num lapso de lucidez, enfiar a bica na redonda no fim do primeiro tempo, estufando as redes e calando uma caralhada de gente.

Puta que pariu a eficácia!

No intervalo, “ão, ão, ão, David é seleção” e as porra. “Esse moleque vai longe”.

Na volta do recesso, já começa perdendo uma bola na lateral, errando passes de meio metro e, vi claramente, juro!, tirando uma soneca no distintivo da beira do gramado, usando um pompom de travesseiro.

Paulinho fazia a gente lembrar com carinho de Zé Love, chorar por Marinho e Cleiton Xavier, apesar de mal, não fazia ninguém lembrar de Leandro Domingues, porque tudo tem limite.

Num outro lance, David desperta da sua sesta reparadora, pega a bola, grita para quem puder ouvir “dá essa porra aqui pra mim, vá, que eu resolvo”, e deixa Kieza com açúcar e com afeto na cara do goleiro, e o K9 não perdoa.

Caindo pela esquerda, resolve pagar uma visita à linha de fundo, enfrentando seu medo (e apenas posso imaginar que morra de medo da linha de fundo, porque sempre corta para o meio e entrega no passe de lado – ai, que preguiça…), e dizendo “faz, Kieza”, e no perdão do centroavante, decide que era hora de voltar ao seu leito, porque já tinha feito sua parte.

A zaga ainda se esforçou para tomar seu gol de estimação, mas Fernando Miguel e a inoperância técnica dos de verde evitaram.

Quem diria, na saída de Marinho, a posição de O CARA seria assumida pelo David. E pelo Kieza, o ataque KD: achou!

– Mais um jogo se destacando, hein David? O que tem a dizer?

– Mingula!

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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