Crônicas

Direito de defesa

Escrito por Gabriel Galo

Assaltante chega para roubar uma velhinha que andava distraída pela rua. Ela mesmo assim sorriu, afinal, haviam aprovado que os ditos cidadãos de bem comprassem e portassem armas. O que ela não contava era com o fator surpresa. O assaltante chegou chegando, arma em punho direto nas costelas da senhorinha.

– Passa a bolsa, senhora!
– Meu filho, calma!
– Vai passando tudo, vai!
– Mas meu filho… Você me dá só um segundinho?
– Que segundinho o quê, madame!
– É que eu comprei uma arma, sabe. Ela está na minha bolsa. Mas eu não esperava que você fosse chegar assim de surpresa, achei que pelo menos poderia avisar com uma antecedência…
– Avisar?
– É, avisar. É que falaram por aí que liberar o uso de arma colocaria a gente em pé de igualdade e eu poderia me proteger de você!
– Ah, é? — o assaltante coça a cabeça com o cano do revólver.
– É. Mas se você chega assim, de última hora, “passa a bolsa pra cá!”, como é que vou me defender?
– Bem, isso é verdade…
– Veja bem, essa lei também beneficiou o senhor, não? Afinal, está com arma na mão.
– Mas que nada. Essa aqui eu ganhei na facção. Tem até número riscado pra não aparecer no sistema.
– Entendi. Mas a minha não. É novinha! — ela faz menção de abrir a bolsa para ser interrompida brutalmente pelo bandido.
– Pó pará! Pó pará! Fique quietinha senão eu te passo!
– Ah, meu filho! Pra que tanta agressividade? A gente aqui é civilizado.
– Desculpa, madame. É que eu achei que a senhora ia pegar a arma na bolsa, aí pode dar ruim pra mim, né?
– Mas, meu filho, vamos voltar do começo. Você quer me assaltar, certo?
– Certo.
– Eu tenho aqui o dinheiro da minha aposentadoria, seria uma boa grana para você, certo?
– Ô!
– Mas eu também tenho uma arma e o direito de me defender, certo?
– Tá… — o assaltante hesitou um segundo antes de responder.
– Mas você chegando assim, todo afobado, como eu vou me defender?
– Aí não tem como…
– Não mesmo!
– Faz assim. Você volta uns passos pra trás, ali na esquina. Vem vindo e dá um sinal, faz cara de mau, sei lá. Mas me dá uns 10 segundos, porque velho é lento…
– Tá doida, véia?
– Você ao menos poderia ser uma pessoa boa e me deixar tentar, certo?
– Tentar o quê?
– Pegar a minha arma.
– Agora?
– É.
– A que tá na bolsa.
– Isso.
– Carregada?
– O que você acha?
– Eu acho é que a senhora tem que ir passando logo as coisas pra cá e deixar de papo furado!

Ele arranca a bolsa de uma vez do braço da senhora e sai correndo. Ela pouco consegue reagir, tenta gritar.

– Ei! Volta aqui! Pé de igualdade! Seu, seu… Seu GROSSO!

Ela dá as costas e sai resmungando pela rua.

– Que coisa! As pessoas nem respeitam mais os idosos. E o meu direito de defesa? E O MEU DIREITO DE DEFESA?

***

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

Deixe seu comentário