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Dória, ovo e estupidez

Escrito por Gabriel Galo

Depois do fatídico evento de ontem, quando Dória foi recebido por uma chuva de ovos na sua chegada para receber o título de cidadão de Salvador. Um dos ovos atingiu em cheio o prefeito paulistano. Na rede, há duas vertentes: a de que foi pouco; e a de que os que merecem ovos e – acreditem – fezes.

Onde fomos parar com nossa estupidez? Quanto retrocedemos, involuímos? Voltamos ao período em que espetáculos artísticos eram rechaçados com tomates, folhas e comestíveis de outras espécies? Voltamos ao tempo em que a única forma de demonstrar insatisfação era fazer-se forte na humilhação alheia?

Há alguns anos me afastei de “amigos” que achavam bom – e pouco – que atacassem gente do PT ou de qualquer linha de pensamento diferente. Até o Chico Buarque foi engolido pelo ódio. Vejo estas notícias de agora e sinto EXATAMENTE o mesmo incômodo.

Primeiro por uma questão de burrice estratégica. Depois por uma questão de respeito ao ser humano.

Não, eu não gosto da gestão de João Dória à frente da maior cidade do Brasil. Ao mesmo tempo, entendo que ele é mestre do Marketing, afinal, consegue apoio sobre nada. Imagine com motivo?

Foi o que fizeram os intolerantes insatisfeitos. Criaram motivo para que a figura de Dória cresça. Ele capitalizou bem em seu discurso. Lembrou de seu sangue baiano – seu pai era –, reiterou querer o bem do Brasil e que não vai se intimidar com os ataques de “petistas e comunistas”.

O efeito é simples: em vez de fazê-lo se afastar da corrida presidencial – e o discurso proferido no plenário da Câmara foi de um candidato atacado – cria empatia e faz com que os moderados tendam a alinhar com ele. E mais: criam desprezo pela mensagem que querem passar.

Erro estratégico do nível mental de quem acredita que atirar ovos é eficaz.

Não, eu não acredito que Dória seja alguém reconhecido por estender a mão ao outro. Pelo contrário. É um valentão bufão que faz do poder de sua imagem e de seu dinheiro para intimidar. Eu, no entanto, entendo que devemos SEMPRE procurar estabelecer o diálogo. Por mais valente que você seja com a sua causa, a militância agressiva não produz qualquer benefício.

É uma falta de respeito inaceitável. Quem o faz se rebaixa ao nível de quem autoriza roubar pertences de moradores de rua. Vira guerra de porcos: um lutando para mostrar que é menos imundo que o outro.

É compreensível não concordar com a homenagem da cidade de Salvador ao paulistano. É compreensível não estar satisfeito com a prefeitura tanto de ACM Neto quanto de João Dória. É compreensível haver divergências de pensamento, em qualquer esfera. O que não é compreensível é o ataque com ovos. Há, embutida, uma questão de jurisprudência, de precedente: quer dizer que eles mesmos podem ser atacados, com ovos ou cacetetes, por conta de outro grupo divergente?

Às armas, pontanto? Tô fora. Quero poder demonstrar meu pensamento livremente, sem a vigilância autoritária e ditatorial dos intolerantes.

Reforço o que sempre digo: em guerra de grito, no fim, estão todos roucos.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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