Crônicas

Escatologia ecológica

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Escrito por Gabriel Galo

Vinha eu pela Avenida Paulista, lépido e fagueiro, após ter alimentado meu lado sarcástico com quase duas de imersão nos desenhos de Millôr Fernandes. E quem anda na mais emblemática avenida paulistana sabe da gincana que significa atravessá-la escapando de seres especialistas em perturbar o seu sossegado ir-e-vir: os ativistas de colete.

Você vai na calçada e vê ao longe o serzinho engajado, não consegue evitar pensar “baita povo chato…”, vê o moço de amarelo se aproximando. Precavido, atravessa a rua para ver brotar na sua frente outro de colete azul. Ágil, Você desvia, diz que não, para os de vermelho pularem chamando sua atenção. E mais outro, e mais um, e mais aquele lá, ali ó, vestido de palhaço. Um martírio.

Nestes dias, a Avenida Paulista é um quadro do Domingo Legal. É como se estivesse tocando umba-umba-ê, o Liminha tirando um sarro com a sua cara, a Luisa Ambiel aparecendo do nada, você chama um táxi, “me tire daqui!” Nem há tempo de respirar aliviado, porra, é o Gugu de motorista e o mundo se acaba em sabonete.

Mas, sim, os ativistas de colete. Tem de tudo, pra todos os gostos. Médicos Sem Fronteira, os caras do teatro, criança carente, o sofrimento da África, a Amazônia… Até os coitados do Ibope de frente pro Trianon entram na conta. Sabe como é, o colete estraga, sou muito visual.

Não que eu tenha nada contra a luta de ninguém. Eu também tô aí, fazendo meus corres pra pagar boleto do mesmo jeito que quase todo mundo, sonhando com o dia de ter para gastar. Entendo sua batalha, fera, mas, ó, sem tempo, irmão.

E mesmo que eu simpatize pela causa – como não simpatizar com a ameaça de extinção dos pandas ou não se sentir coagido pelo argumento de culpa da degradação do meio-ambiente que vai destruir as nossas vidas se eu, euzinho, este magnânimo eu!, não fizer a minha parte – dou de ombros.

Falta conexão, entende? Algo naquele ar juvenil DCE-Vila-Madalena-de-gente-que-vai-mudar-o-mundo-mas-não-paga-nem-o-próprio-rolê me afasta. Os anos chegam e a gente começa a achar a impetuosidade ingênua dos xófens apenas uma grande encheção de saco.

Você na rua, no celular, conversando com alguém, falando sozinho, viajando nas paradas mais sinistras, não importa. Eles tentam sempre o contato. São brasileiros, não desistem nunca. Correm atrás, “tem um minutinho?”, e gente dispara na fuga em busca da negação, onde o mundo é perfeito e as tartarugas não comem plástico.

Mas tem vezes que exageram. E hoje foi o caso.

Lá veio ela, serelepe. Feição determinada típica dos que dormem sem culpa e se sabem superiores pela nobreza da causa que abraça. Vestia o uniforme, o colete do Greenpeace. Barriga de quem estava indubitavelmente grávida, o que dava mais humanidade à sua figura. (Quer algo mais humano que uma mãe? Desconheço.)

A abordagem de geral vai desde o famoso minutinho concedido a algo mais elaborado, às vezes agressivo. O xaveco da tropa depende de cada um. E ela, mãe-to-be veio elaborando.

Segurando a barriga, mãos em volta do ventre, foi se chegando, de frente, decidida, olho no olho-revirando.

“Senhor, você acha que é menino ou menina?” Percebendo meu desinteresse na conversa mole, emendou, “ou um monte de cocô?”

Agora, vejam vocês (perdoem de antemão este homem pecador). Nalgum universo paralelo, esta figura deve achar que a linha de abertura, que a manchete da mendicância pela causa é super engraçada. Talvez volte pro grupelho hispter no happy hour com cerveja artesanal – ela não, porque grávida e consciente – e conte de como é eficaz no approach. “Ganho todo mundo com a piada do cocô!”

Só que, porra, cirandeira, saí do Millôr agora, entendeu? Aquele que fazia piada com milico, mas eles não entendiam. Sarcasmo refinadissimo. Vai mesmo apelar pra escatologia aliada à gravidez pra cima de moá?

Olhe, ME ERRE, viu?

E aí, pensando em hereditariedade, torci praquela criança não cumprir a profecia da terceira via e puxar aos gostos humorísticos da mãe.

Depois o povo não abraça sua causa e você não entende. Diante de tal impropério, dá vontade até de cometer um ato gravíssimo e danoso ao meio-ambiente só de birra. Mas algo pesado mesmo. Tipo usar canudo de plástico. Sou desses.

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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