Crônicas Esportes Resenha rubro-negra

Esse jogo não pode ser um a um

Jackson do Pandeiro e seu violão com o escudo do Flamengo não poderia prever que seu 1 a 1 seria a tônica do Domingo de futebol de Bahia e Vitória.
Escrito por Gabriel Galo

Na capa de seu LP póstumo “O melhor de Jackson do Pandeiro”, lançado em 1989, o músico paraibano ostenta em seu violão o escudo do Flamengo, seu time do coração. Quando em 1954 ele gravou ” 1 a 1 “, música de Edgar Ferreira, jamais poderia imaginar, porque impossível, que sessenta e três anos depois, no então-futuro-agora-ontem domingo de 2017, fosse ser trilha sonora de uma rodada do Brasileirão.

Sua participação nos autofalantes das mentes da torcida não envolvem, no entanto, o seu Flamengo. Muito menos as briosas equipes pernambucanas retratadas na paleta de cores da letra. Nas ondas do rádio, com chiado de vinil, seu ritmo veio fazer vez na Bahia.

O tricolor baiano, se aproximando da zona em que não corre mais risco nem almeja grandes feitos, viajou para o Rio de Janeiro. Adentrou o gramado sagrado do Maracanã, palco de seu primeiro título Brasileiro. Contra o Fluminense, adversário semifinalista em 1988. Abriu o placar logo aos dois minutos, com Edigar Junio. Jackson vibrava, “eu confio nos craques da pelota e o meu clube só joga é pra vencer.” Mas veio a primeira decepção.

O Fluminense empata o jogo e ambas as equipes pareciam estarem satisfeitas com o 1 a 1. Num duelo de equipes que já foram ameaçadas pelo rebaixamento em algum ponto do campeonato, o acordo amistoso para o empate que mantinha uma distância quase confortável para a zona maldita. A resignação tomou conta, afrontando o ícone nordestino, nenhum clube jogando pra vencer.

Já no Barradão, a situação era a ideal para destruir o bozô que atazanava o encarnado e preto baiano. O Vitória abriria os portões de seu uma vez aclamado “maior centroavante da história do clube” para receber o último colocado e virtualmente rebaixado parceiro de cores do Goiás. Jogando contra o retrospecto de um ano de 2017 que começou esperançoso e termina em aflição.

Num contra-ataque, mesmo com a mãozinha da arbitragem, o visitante abre o placar. A torcida, que não compareceu com tanto afinco, indicativo de que se você caminhar pelas ruas de Salvador encontrará toalhas jogadas por tantos, parecia não acreditar. Nem era possível dizer que era contra o prognóstico, porque na estatística, essa danada que a gente espreme, abusa e no fim não diz nada, estava sacramentado: no Barradão, a gente recebe as visitas com café e biscoito.

No segundo tempo, depois de seis meses, o brioso e zicado Zé Welison apertou o botão vermelho da revolta para disparar o petardo, o míssil guiado que morreu nos fundos das redes atleticanas. O 1 a 1 se fez, alimentando as esperanças de que “hoje vai”. Ainda mais quando o assoprador de apitou apontou a marca da cal, pavimentando a virada.

Hoje vai!

Mas era dia de contrariar Jackson do Pandeiro. A batida do center-forward foi identificada no radar do inimigo, que pulou sem muita dificuldade para evitar a virada, para desespero daqueles que correram para puxar de volta a toalha que tinham jogado logo antes. Na balada dos jogos que restam, em teoria, este era o mais fácil. A zona do rebaixamento fez cama para que o atabalhoado escrete encarnado e preto se sinta confortável. Este jogo não poderia ser um a um. E saíram todos do Barradão com o gosto acre na boca de que um empate era derrota.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça.

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