Crônicas

A fórmula do desastre das ceias de fim de ano

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Escrito por Gabriel Galo

O exagero gastronômico do eixo Natal-Anunovo ficou para trás, deixando um rastro de sobras que vai durar, mais ou menos, 4 meses. Alimenta-se de resto pelo menos até o Carnaval. A exuberância é substituída pelo aperto financeiro causado por impostos e presentes – ou “não liga, é só uma lembrancinha”, para nos depararmos com um amassador de alho de 1,99, “mas é de coração, viu?” – , ambos em profusão.

O tio do pavê esteve lá, a tia solteira marcou presença; todas estas personagens estereotípicas maravilhosas visitaram a minha e a sua ceia – por mais que odiemos admitir, talvez tenhamos nos transformado nós no tio das piadas inconvenientes ou aquele ser que proporcionará o vexame a ser comentado pela família até o Natal seguinte.

Estudioso que sou das minúcias da vida – o que quer que isso seja -, cheguei à fórmula matemática que explica o fenômeno da cerimônia em família que descamba para briga generalizada. E do alto de minhas mais aprofundadas pesquisas empíricas, atesto: falta prudência matemática para os anfitriões das temidas reuniões na hora de organizar os preparativos.

Os mais tradicionais, esse raio de gente que anseia preservar em formol e botox uma tradição criada há não muito tempo – nada me faz pensar que o peru de Natal é sobre de estoque do Thanksgiving, que importamos pro Brasil no pacote que incluía o Halloween e o futebol americano – programa a refeição para cada vez mais tarde. Os mais extremistas ficam admirando a comida pronta esfriando à temperatura intragável até que as badaladas do alarme do celular soem meia-noite. Mas não pense você que o peru respeita pontualidade. Fosse, a ave, britânica ou suíça, até vá lá; mas nosso peru é brasileiro, e aqui horário é sugestão, ponto facultativo. Deixa-se para a última hora o preparo, no caso, literalmente, por volta das 23h mesmo, e as quase 4 horas para assamento completo necessárias postergam a ceia para alta madrugada.

O tempo vai passando, todo mundo se embebedando, o cheiro de álcool pelo ar, “não aguento mais amendoim”, “não, não estou namorando”. “Será que vão dar falta se eu for embora?”

É a hora da ceia, portanto, o primeiro elemento da equação. E como você sabe por experiência, quanto mais se demora, mais fome se sente, mais mal humorados todos ficam. Entra em cena, então, a bebida alcoólica.

Família inclui também aquele bando que já não se suporta muito, mas mantém a compostura por uma questão de educação – tradicionalistas raiz já se libertaram disso há tempos e verdades ecoam venenosas pela sala enquanto povo come amendoim. Mas o teor alcoólico altera a química do autocontrole, desinibe a níveis perigosos. E sem um nada no estômago a não ser meia dúzia de nozes – outro item do pacote americano tupiniquinzado, que pessoa recebeu em caixinha bonitinha por 79,90 mensais de uma startup modernosa – o efeito é devastador. Daí materializa-se a Itaipava quente, tradução de “cada um leva o que for beber” para o folgadês, idioma oficial dos sem noção. Alguns servem Sidra, arremedo de bebida nascida para imitar champanhe, que já possui falácia no nascimento. A bebida desce como pedra pelo pescoço desgastado, bate pesado no estômago vazio, sobe como um raio para o cérebro como torpedos atingindo a muralha do bom senso, e, pronto, caos à vista.

Tem-se, assim, a receita da estrada pavimentada, iluminada e bem sinalizada para o desastre: a chance de uma ceia em família acabar em entrevero é fruto de uma relação diretamente proporcional entre a quantidade de bebida disponível e o tarde do horário da ceia.

“Tá, mas como evita isso, homem?” Você me pergunta, coçando a cabeça em apreensão. Ora, simples.

Sirva a ceia logo de uma vez – justifique com o fuso horário de um lugar que solte o rango às 21 horas, confie, ninguém vai reclamar -, aplaque a fome de geral e disponibilize menos álcool. Assim, talvez, quem sabe, dê certo.

Pois recebam esta verdade que dou fé, corroborada por estudos cientificamente rigorosos nada tendenciosos e que a comprovam. Largo o osso enquanto sigo para minha sina de soborô requentado. Agora vou matar uma sobra de peru com churrasco debaixo de um sol pra cada um, coisa que dificulta a digestão, provoca leseira, causa cochilos e reduz a velocidade a nível BAIÂNICO-PRATICANTE.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça.

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