Crônicas Minhas histórias

Histórias de vó

Escrito por Gabriel Galo

Quando meus pais se mudaram para Campo Grande, em março de 1996, ficamos morando na casa de minha avó paterna. Dona Maria da Glória. Voinha. Lembrar de vó rende, então senta que lá vem história.

Morava no Santo Antônio Além do Carmo, fundos dando para o pôr-do-sol mais belo da Bahia. Vista linda. Neste quarto dos fundos você era acordado pelas sirenes do quartel do exército logo ali embaixo. Ou então pelas canções da corrida matinal dos soldados, que pelo molhado das roupas, começavam ainda quando noite.

Protetora ao extremo. Se pudesse, aninharia todos os filhos e netos debaixo da asa. Noras, não. Coitadas, estas comeram um dobrado na mão da velhinha. Honrou o significado da palavra sogra. Deveriam se fazer contos de terror baseados nas artimanhas dela.

Voltando, que divagar é fácil.

Protetora. Ao extremo. Em 4 anedotas.

Logo embaixo da casa de minha vó passa o túnel Américo Simas. Inaugurado em 1969, antes mesmo de ir morar lá. Foi fundamental para a época, ligava diretamente a 7 Portas/ Nazaré ao Comércio/ Porto de Salvador, sem ter que passar pelo apertado bairro do Santo Antônio ou então ter que fazer uma volta enorme pela Contorno. É até hoje o túnel mais movimentado da cidade.

Havia uma falha na execução deste tão importante acesso viário da cidade: ele corre o risco de desabar. Isto, claro, segundo Voinha.

– Menino, não vai pular aí no fundo senão este túnel desaba!

O fundo era o quarto dos fundos. Fico imaginando a reunião de engenheiros falando sobre a obra. Depois de entregue, vão se reunir com o prefeito.

– Que sucesso! Gostaria de parabenizar a todos vocês pela obra!
– Senhor Prefeito, com sua licença, é bom ter algo muito importante em mente.
– Aconteceu alguma coisa?
– É que já fizemos e refizemos nossos cálculos dezenas de vezes. A estrutura do túnel é muito boa. Aguenta toda a ribanceira do Santo Antônio, casas podem ser construídas sem problemas, tráfego de veículos foi projetado sem qualquer limitação. Mas há um detalhe que pode fazer tudo desabar.

Silêncio.

– O pulo de uma criança no quarto dos fundos daquela casa ali, ó, e apontava com um pedaço de madeira para a fotografia ampliada na sala.

E o Prefeito, desesperado:

– Tenho que avisar Dona Maria urgentemente!

***

Não era uma vez ou outra. Eram todas as vezes. Dado que eram quase sempre dois banhos por dia, mas outras inúmeras idas ao banheiro, o aviso vinha, infalível.

– Não vai ficar de pé no vaso, menino, você vai se machucar.

Eu não fazia ideia do que levaria uma criatura a subir de pé num vaso sanitário. Estado máximo de demência, talvez? Nunca pensei em fazer. De tanto alertar, juro, me bateu uma curiosidade. Mas nunca fiz, lá sou menino amarelo por acaso?

***

– É dor de garganta.
– Mas minha vó, eu torci o pé!

Existe apenas e tão somente uma causa para todos os problemas da humanidade: a dor de garganta. Dava uma volta, negócio rocambolesco, para cair no colo de alguma tosse ou incômodo a causa de qualquer enfermidade. E tome remédios, xaropes. Cebion era Fanta nessa época.

***

Nada, no entanto, se comparava ao que se segue abaixo.

Éramos terminantemente proibidos de sair à rua sozinhos. Eu e meus irmãos. Nunca. Nem pensar.

– Calado, que calado você já está errado. Não vai sair.
– Por quê?

Ah, o porquê… Que haveria de ser se não apenas um “porque não tenho como cuidar”? Criança não entende, é no tentar se fazer entendido que o bolo desanda.

Pense agora num motivo. Qualquer um. Feche os olhos. O que sua avó diria para justificar?

A minha criou uma história que durante anos deve ter causado traumas nas nossas vidas.

– Porque o viado vai passar a mão no seu pinto.

PORRA! Como assim? Ninguém vai passar a mão em mim não!

Ficava imaginando viado andando na rua, na boa, cuidando da sua vida. De repente, uma criança. Começa a suar frio. As mãos tremem. Fecha os olhos como a dizer a si mesmo “não faça isso”… Mas, num ímpeto mais forte que seu saber-se errado, corria e dava aquela patolada de mão cheia. E seguia correndo, satisfeito e envergonhado, pelos becos sujos do bairro.

Fui ficando mais velho, e claro, aquilo não fazia o menor sentido. Virou chacota. Meu irmão ouvia a mesma coisa. Minha irmã, quando mais velha, ganhou sua versão adaptada.

***

Amava-nos imensamente, a velhinha, e ainda ama, quando a cabeça lhe deixa lembrar-se. Ficou num sofrimento que só ela quando nos viu partir no fim daquele ano. As asas dela não tinham cobertura interestadual. Apenas telefônica, e olhe lá.

***

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça.

Aqui você vai encontrar contos, crônicas, ensaios e análises políticas sobre o Brasil, a Bahia, São Paulo e mais tantos outros lugares e personagens fascinantes.

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