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Itaquera? Eta! Quero!

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Escrito por Gabriel Galo

A duas semanas da Copa do Mundo, o Vitória faz uma mini-turnê em SP. No dia 03, Santos na Vila Belmiro. Dia 09, Corinthians em Itaquera. Dia 12, São Paulo no Morumbi. O Correio me convidou para acompanhar estas partidas com a visão do combalido fanático rubro-negro que perambula pelas terras paulistânicas.

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ITAQUERA? ETA! QUERO!

“Amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito.” Assim cantou Milton, que não era bobo nem nada, sabia das coisas, e tanto sabe que é habitué de Mutá, terra santa do recôncavo que quase toca o dedo proctológico nos cafundós da Ilha de Itaparica, na companhia de Davizinho de Mutá, o mito do Barlavento e do samba de roda baiano.

Porém, mais disperso que André Lima num contra-ataque, volto à tona do que vim aqui alinhavar.

Munido da canção, liguei para mais 798 contatos aqui em São Paulo, terra onde ninguém fala Sampa – um claro desserviço de Caetano (se isso for possível) à megalópole metida a besta do Brasil. Amigos próximos, amigos nem tão próximos, tentei de tudo. Porque é o seguinte: quando o programa é de índio, a gente quer logo botar um amigo no meio (não no meio do amigo, que fique claro) para não passar aborrecimento sozinho.

Estava marcado em relevo lá no calendário que às 21 horas de um sábado aos 16 graus, na longínqua, remota e descampada Itaquera, Zona Lesta paulistana, a briosa equipe do Vitória adentraria o gramado da impressora que abriu a Copa do Mundo de 2014 para enfrentar o Corinthians. Atual campeão brasileiro, bi-campeão paulista, que já nos havia eliminado na Copa do Brasil deste 2018 amarrado na boca do sapo. A esperança de torcedor, no entanto, ultrapassa o limite do bom senso.

Acontece que este mesmo bom senso deixado para trás no peito onde bate um coração rubro-negro, mora de pantufas naqueles que se fizeram convidados para tão glorioso evento. Em verdade vos digo, a resposta mais singela que recebi foi “bebesse, foi?” E olhe que nem sou de comer água. Mas qual o quê! Não satisfeito com as negativas acumuladas, resolvi que era eu e Neilton contra a rapa. Itaquera? Eta! Quero!

Antes, um entendimento prévio com os astros. Numa sessão sincrética, invoquei o espírito de Rodrigo – o zagueiro, aquele – para que as alegrias da derrubada da invencibilidade corintiana em 2017 fossem trazidas num transe de Trellez incorporado em qualquer um. Se podia antes, haveria de poder agora. Como não? Para não correr risco, o procedimento foi realizado com as costas encostadas na parede, e para que maledicências não tomem sua mente de assalto, saímos, o todo e as partes, intactos e intocados.

Cheguei no estádio para encontrar aquela meia dúzia de rubro-negros, orgulhosamente vestidos com o manto do ano passado liquidado em promoção por 79,90 na Netshoes. Oportunidade, minha gente, a ocasião faz o consumidor. Eu e minha retrô de 72, porque somos um.

E o que se viu foi algo inimaginável há apenas duas rodadas. Um Vitória bem postado, duas linhas de 4 (lá ele) hermeticamente seladas. Na frente, Neilton e André Lima puxando contra-ataques – apenas modo de dizer no caso do segundo. Rhayner e Wallyson nas pontas aceleravam o passo e o Vitória levava perigo. Será o impossível? A esperança ganhava contornos de realidade. Mas nada de os zeros se bulirem.

E não se buliram. Na nem tão fria noite em Itaquera, o melhor foi ver de perto um Vitória que se ajustou. Talvez seja o adversário, contra quem repetimos atuação semelhante no Barradão. Ou talvez – e aqui mora a tranquilidade do torcedor – que o grupo comece a se encaixar.

No fim, nem deu para ligar pros amigos apertando a mente de geral por causa da Vitória, tampouco tocou o telefone para que me comediassem. No reverso da balada, em que todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite, bem no fundo todo mundo quer zoar. Salvamo-nos todos. O maior bem foi ter recuperado a expectativa de que pode, sim, ficar tudo bem.

*Gabriel Galo é escritor

Artigo publicado no site do Correio da Bahia em 10 de junho de 2018. Link aqui.

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Créditos da foto: Daniel Vorley/Estadão Conteúdo

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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