Crônicas

Leituras comentadas de fevereiro/2018

leituras comentadas
Escrito por Gabriel Galo

Leituras comentadas de fevereiro de 2018:

11. Os espiões (Luís Fernando Veríssimo)
12. O quinze (Rachel de Queiroz)

capa, livro, Os espiões, Alfaguara

Capa do livro “Os espiões”, de Luis Fernando Veríssimo, lançado em 2009 pela editora Objetiva e reimpresso pela Alfaguara.

11. Os espiões (Luis Fernando Veríssimo) (2009)

Vale a pena ler tudo de Luis Fernando Veríssimo? Vale. Mesmo quando ele não está no melhor de sua forma, no que suas crônicas e contos são impagáveis. Este romance lançado em 2009, e constantemente reimpresso foi devorado em pouco mais de duas horas numa Livraria Cultura da vida. Há de se ter referências na histórias para navegar com tranquilidade pelas páginas de Os Espiões. Não que o autor não explique do que se trata, mas conhecer a história completa ajuda a entender as distorções que o autor faz, sempre com maestria. Os Espiões conta a história de um escritor frustrado – retrato de todo escritor na literatura – que trabalha na editora de um amigo selecionando manuscritos. Vive a beber, perde a família, destas desconjunturas que formam o estereótipo mítico do escritor: fracassado, pobre, com algum vício severo, de difícil convivência e cheio de desequilíbrios emocionais. Confesso que esta descrição, mesmo num Veríssimo, recai num lugar comum que incomoda um pouco, senão bastante. Ainda assim, o teto de Veríssimo vai leve, como leve e fluido é tudo aquilo que escreve. O personagem principal se sente atraído por uma escritora que envia escondido, de uma cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul, fascículo a fascículo, seu livro. A rudimentar escrita, com envelope com o pingo do i em forma de coração faz com que ele se envolva na trama que cria em sua mente. No afã de descobrir o que se passa na vida de Ariadne (eis o nome da escritora), ele movimenta amigos de bar e dá início à Operação Teseu de resgate de Ariadne, que segundo imaginam, vive uma vida de sofrimento e prisão num casamento infeliz. O livro fica em segundo plano, é apenas mote para a peregrinação e salvação. O final desconstrói toda a mente dos amigos que encarnaram a necessidade de saber o que, afinal de contas, se passava no interior do Rio Grande. Muitas vezes, o enredo que imaginamos é muito superior àquilo que lemos. O que queremos que seja pode ser constantemente maior que a realidade.

capa, livro, O quinze, Rachel de Queiroz, Siciliano

Capa do livro “O quinze”, de Rachel de Queiroz, lançado em 1930. 63° edição, editora Siciliano.

12. O quinze (Rachel de Queiroz) (1930)

Um clássico da literatura nacional. Um documento que todos devemos ler. Entender o Nordeste, ou uma parte que seja, passa pela leitura de obras como Vidas Secas, como Os Sertões, como O quinze. O livro narra a história de diversos personagens sertanejos. A filha que se forma e vira professora na capital, lindamente chamada de Ceará (nos antigamente, a capital do levava o nome do Estado no vocabulário popular. Assim, Salvador era a cidade da Bahia – veja em Jorge Amado e Dorival Caymmi -, assim como Fortaleza é a cidade do Ceará para Rachel). A mãe que se recusa a arredar pé de seu sertão, e que se arrepende profundamente de fazer casa com a filha na capital, rezando pela chuva para voltar. O sertanejo que apesar das boas condições da família, permanece arando a terra seca e levantando o gado. A família de retirantes que sofre para migrar para uma vida melhor, a humilhação, a mendicância, o emprego qualquer, a cria que falece no caminho. O quinze é uma narrativa de um fluxo migratório absolutamente comum do povo sofrido do Nordeste. O que ele traz de sublime é a alma sertaneja: amar a terra a todo custo, com a fé em Deus e em Nossa Senhora, na esperança que chova e o sertão vire mar, a honra do vaqueiro. Imperdível.

Leia as minhas leituras comentadas de janeiro/2018.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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