Crônicas

Leituras comentadas de janeiro/2018

livro, janeiro 2018, leituras comentadas
Escrito por Gabriel Galo

Leituras comentadas de janeiro de 2018:

1. Estorvo (Chico Buarque)
2. A glória e seu cortejo de horrores (Fernanda Torres)
3. Budapeste (Chico Buarque)
4. Que país é este? (Millôr Fernandes)
5. Trinta e poucos (Antonio Prata)
6. A casa dos budas ditosos (João Ubaldo Ribeiro)
7. Tempo e contratempo (Millôr Fernandes)
8. Xadrez, truco e outras guerras (José Roberto Torero)
9. A mulher do vizinho (Fernando Sabino)
10. Quase memória (Carlos Heitor Cony)

livro, Estorvo, Chico Buarque, Companhia das Letras

“Estorvo”, primeiro romance de Chico Buarque, lançado em 1991 pela editora Companhia das Letras, vencedor do Prêmio Jabuti de 1992.

1. Estorvo (Chico Buarque) (1991)

A estréia de Chico Buarque na literatura tradicional se deu valendo até Prêmio Jabuti, em 1992. Assim como será visto em Budapeste, Chico trouxe em seu começo de carreira personagens principais que são homens fracos, similar ao que fez Ernest Hemingway na mesma fase (as semelhanças entre ambos acabam aí). A história truncada de Estorvo torna o pequeno livro mais complicado de ler do que deveria ser. As passagens de tempo são irregulares, situar-se leva tempo. Incomoda também a construção do personagem principal, embora eu entenda que faz parte da intenção do autor, afinal, o próprio livro se chama Estorvo. História de alguém que sequer pode ser taxado de anti-herói, ele apenas existe, sem vontades, sem propósito, sem relevância, nem para si mesmo. O que eleva o livro a um patamar interessantíssimo é a capacidade descritiva de Chico Buarque. Algumas cenas relatadas são quadros perfeitos. Impressiona a simplicidade das palavras e a complexidade da cena descrita. Essa dualidade entre fotografias reais e filme um tanto desconexo, entre personagem principal obscuro e secundários mais nítidos, inverte a lógica do que nos acostumamos a ler, aquela em que o todo é maior do que as partes. Está nos detalhes a importância de Estorvo.

livro, Fernanda Torres, A glória e seu cortejo de horrores

“A glória e seu cortejo de horrores”, segundo romance de Fernanda Torres, lançado em 2017 pela Companhia das Letras.

2. A glória e seu cortejo de horrores (Fernanda Torres) (2017)

É o segundo romance de Fernanda Torres, depois de “Fim”, que foi muito bem recebido pela crítica. Este conseguiu superar o antecessor em loas. Percebe-se uma narrativa mais madura da autora. O cenário, no entanto, pareceu-me um tanto específico demais, um tanto nicho demasiado. Para quem viveu o teatro de maneira intensa, a associação de personagens e histórias reais clica em sinapses que prendem. Para quem não conhece deste mundo, parece um desfile de nomes, de casas, de locais, de passagens que não empolgam. O final, no entanto, é um tanto quanto divino. A sutileza da mensagem, da redenção, da realização é de tirar o chapéu, de aplaudir com gosto. Compensa e explode.

livro, Budapeste, Chico Buarque, Companha das Letras

Budapeste, terceiro romance de Chico Buarque, lançado em 2003 pela Companhia das Letras.

3. Budapeste (Chico Buarque) (2003)

Confesso: como escritor, gostei demais de Budapeste. Este meu sentimento com relação ao livro explica a aclamação obtida pela crítica especializada, que nada mais é que outros escritores falando sobre o livro. Desperta algo guardado em cada um daqueles que se atrevem a escrever: vivemos para contar histórias dos outros. Esta rotina faz com que nos dissociemos de nós, perdemos importância, o eu não interessa na escrita. O personagem principal, José Costa, já de cara larga com nome comum, que não se destaca. Ele vive a vida escrevendo, criando, mas ele não é senhor de sua própria vida. Ele segue, a esmo, fazendo tal qual vai aparecendo. Tal qual Estorvo, é um personagem que é levado pela história, não é fio condutor. Um homem fraco, por assim dizer. Os raros desafios aos quais se impõem são mais por um afã tolo (como são quase todos os afãs), dos quais não consegue se livrar, nem tomar rédea. A fineza descritiva de Chico mais uma vez aparece, embora com menos intensidade que em Estorvo. Uma cena, no entanto, foi para mim emblemática: a que ele descreve o processo de criação ao escrever palavras no corpo de uma mulher e tê-la em sexo. (aqui segue mais uma confissão. No filme baseado no livro, a mulher é a Paolla Oliveira. Não deve haver mulher mais linda nesse mundo, e reproduzir esta cena com ela me sensibiliza ao infinito.) O fim do livro é a materialização de como uma vida dedicada ao alheio, mesmo como o eu entra no holofote, causa estranheza e a sensação de não pertencimento, de não merecimento.

Que país é este?, Millôr Fernandes, livro, Círculo do Livro

“Que país é este?”, livro de Millôr Fernandes, lançado em 1978 pela Círculo do Livro.

4. Que país é este? (Millôr Fernandes) (1978)

Millôr Fernandes é dessas obras divinas destinadas a fazer o mundo um lugar melhor. Que país é este foi lançado em 1978, durante a ditadura militar, o que não o arrefeceu a criticá-la. A capacidade de frasista de Millôr beira o surreal. Boa parte de suas críticas vão para a companhia telefônica, os Correios, o trânsito e a violência no Rio de Janeiro (se bem que, no caso dos três últimos, nada de novo no front…) O livro, claro, deve ser contextualizado no tempo, mas Millôr parece se manter atualizado, não tem data. Ademais, seu humor extremamente refinado, carregado de uma ironia sublime, é um oásis. Como era costumeiro nos de sua época, despeja estrangeirismos em sua escrita, francês, inglês, italiano, espanhol, até um latim eventual. Trata-se, enfim, de um desafio prazerosíssimo ler Millôr. E que cria um embaraço meu comigo mesmo: será possível chegar, como escritor, como cronista, neste nível?

livro, Trinta e poucos, Antônio Prata, Companhia das Letras

“Trinta e poucos”, livro de crônicas de Antônio Prata, lançado em 2016 pela Companhia das Letras.

5. Trinta e poucos (Antônio Prata) (2016)

Hei de admitir ter cometido um pecado ao pular para o Prata. Saltei do Millôr sem intermediários, direto a ele. Não teve escada, não teve preparação, não teve vá com calma. O que me causou um amargor na leitura de seu livro. O seu estilo não poderia ser mais diferente. De um humor absurdamente refinado e sarcástico, por vezes um tanto difícil, Prata é raso, simples, mais palatável. Não que isto seja uma qualidade ruim, é uma questão de gosto. Prefiro o anterior a ele. Algumas crônicas do livro são bonitas, outras são engraçadinhas, mas nada que provoque reações mais exacerbadas. Não há a gargalhada, não há a raiva, não há o pensamento. O tom é muito constante, mais suave. Suas crônicas possuem, em sua maioria, a mesma construção narrativa, o que faz com que, depois de ler algumas, já se saiba no primeiro parágrafo como vai terminar a história. Compactuo com aqueles que entendem boa literatura como aquela capaz de criar finais surpreendentes. Antonio Prata é brisa suave num dia ameno. Tranquilidade, serenidade, calma, opa!, cochilei. Onde eu estava?

livro, A casa dos budas ditosos, João Ubaldo Ribeiro, plenos pecados, Editora Objetiva

“A casa dos budas ditosos”, livro da série “Plenos pecados” da Editora Objetiva, lançado em 1998.

6. A casa dos budas ditosos (João Ubaldo Ribeiro) (1998)

Ah, João… Comento com os amigos que João Ubaldo Ribeiro, além de suas características literárias que muito me agradam (Viva o povo brasileiro é obra de arte, Prêmio Jabuti em 1985), tem a característica sublime, maior, pujante!, de ter sido torcedor do Vitória. Em “A casa dos budas ditosos” foi escrito para a série “Plenos pecados” da Editora Objetiva, com o tema luxúria. O livro procura causar uma dúvida no leitor importante para que ele se sinta mais próximo da personagem: seria ela uma pessoal real, viva, de carne e osso, que entregou fita cassete com o livro ditado para ser transcrito ipsis literis ou o autor em ação? A artimanha faz pensar, mas no inconsciente está criada a ponte que liga até a depravada senhorinha, que narra suas aventuras sexuais de uma vida, desde muito nova até muito velha, com amigos, parentes, cônjuges de amigos, homens, mulheres, tudo junto e misturado. Como se faz crer se tratar de uma transcrição, o texto é facilmente transformado em voz na nossa cabeça, mas possui a oscilação de algo gravado de acordo com a memória. Aqui reside um dos mais sutis ardis do autor: apesar de literariamente mais fraco, com narrativa mais irregular, não seria exatamente assim que aconteceria caso uma senhorinha estivesse narrando sua vida, cabendo a ele apenas transcrever? Ah, mas que maravilha! O livro foi transformado em peça, ainda em cartaz, liderada por Fernanda Torres. Pudicos, recalcados e julgadores da moral: passem longe.

livro, Tempo e Contratempo, Vão Gogo, Millôr, Editora Beca

“Tempo e Contratempo: Millôr revisita Vão Gogo”, livro de Millôr Fernandes lançado em 1954, revisitado em 1998 em edição da Editora Beca.

7. Tempo e contratempo: Millôr revisita Vão Gogo (Millôr Fernandes) (escrito em 1949, lançado em 1954, revisitado em 1998)

É difícil para mim não falar com entusiasmo exagerado de Millôr Fernandes. Tempo e contratempo é um apanhado de crônicas, tiras, charges, frases e mais o que viesse em sua privilegiada cabeça. Na edição de 1998 pela Editora Beca, Millôr comenta passagens do livro, recria diversas destas passagens. É um maduro artista vendo-se no começo da carreira, olhando de cima para baixo. Critica seus traços, frequentemente chamando seus desenhos de “fraco” ou de “sem profundidade”. Tem mais carinho pelos seus textos. O texto “Kant”, deste livro, é gargalhar de cabo a rabo. Mais uma vez, como assim foi em toda sua carreira, o sarcasmo, a ironia, são pilares fundamentais do que produz. Um livro para ser apreciado sempre, parar, voltar, reler, brincar. É um brinquedo que anima os corações de adultos saudosos do guru do Méier.

Xadrez, ira, José Roberto Torero, Plenos pecados, Editora Objetiva, livro

“Xadrez, truco e outras guerras”, livro de José Roberto Torero, da série “Plenos pecados” da Editora Objetiva, lançado em 1998.

8. Xadrez, truco e outras guerras (José Roberto Torero) (1998)

Assim como “A casa dos budas ditosos”, “Xadrez, truco e outras guerras” foi escrito para a série “Plenos pecados” da Editora Objetiva. Torero, escritor vencedor de Prêmio Jabuti em 1995 por “O chalaça”, foi convidado para falar sobre a “ira”. O que ele produziu com este livro ligou diretamente a premissa da ira a uma comédia inacreditavelmente saborosa. Recheado de sarcasmos do começo ao fim, o livro é primoroso. É um livro rápido, de passagens de tempo um tanto simplórias, de personagens sem muita complexidade – pelo contrário, eles são facil e simplesmente descritos no começo do livro. Nada disso importa, porque os diálogos, os comentários do narrador-observador, a narrativa são algo fora do comum. A qualidade de Torero é indiscutível. Eu, que o acompanhava desde seus tempos de blog no UOL para falar sobre futebol, reconheço ser fã do autor. Prepare-se para boas risadas.

livro, Fernando Sabino, A mulher do vizinho, Editora Record

“A mulher do vizinho”, livro de Fernando Sabino, lançado em 1989, em sua 18° edição de 2008 pela Editora Record.

9. A mulher do vizinho (Fernando Sabino) (lançado em 1989, 18° edição de 2008)

Percebo, claramente, em mim uma tendência ao ler crônicas. Prefiro, com larga margem, aquelas que provocam reações mais fortes. As água-com-açúcar me soam como tempo perdido. “A mulher do vizinho”, de Fernando Sabino (profícuo escritor com muitas obras e vencedor de diversos prêmios, dentre os quais o Jabuti de 1980 por “O grande mentecapto” e o de 2002 na categoria contos e crônicas por “Livro aberto”) me causou estranheza. Tenho de reconhecer a capacidade literária de Sabino. Sua escrita é suave, sem sobressaltos. Tenho a impressão, no entanto, de ter pegado o livro errado de Sabino para ler. As crônicas são simplórias. As situações não causam tanta comoção. Suas tentativas de ser engraçado soam um tanto quanto fora de órbita, lembrando aquele tio que quer fazer piada mão não sabe como, deixando um sorrisinho meio envergonhado na plateia. Outras de suas obras estão no caminho para serem lidas. “A mulher do vizinho” não foi o melhor primeiro passo.

livro, Carlos Heitor Cony, Companhia das Letras, Quase memória

“Quase memória”, de Carlos Heitor Cony, lançado em 1995 pela Companhia das Letras, vencedor do Prêmio Jabuti de 1996.

10. Quase memória (Carlos Heitor Cony) (1995)

Que primor! QUE PRIMOR! Tem livro que quando acaba a gente quer começar de novo, esquecer que leu e experimentar as mesmas sensações uma vez mais e assim por diante. Tive certo receio de ler “Quase memória” (Prêmio Jabuti de 1996) no momento em que me dispus. Estava “devolvendo” meus filhos ao longínquo lar. Desta maneira, ler um livro que é uma homenagem ao pai seria tocante em demasia. Ao mesmo tempo, a partida de meu pai ocorreu a não muito. Esta junção de lé com cré carregava alto risco de nervous breakdown. O que li, no entanto, me levou mais à história de meu avô (com personalidade mais parecida com a do pai do livro) que a meu pai ou a meus filhos. O que há de se convir, com um certo furor que em vão tento conter, é que se trata de uma obra-prima. O que Cony escreveu em “Quase memória” e uma viagem no tempo, na memória, na reconstrução de relações. É engraçado, é emocionante, é… O livro ‘é’, assim como todos ‘somos’. Passa ao panteão de livros obrigatórios. Leia “Quase memória”. Leia Cony.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça.

Aqui você vai encontrar contos, crônicas, ensaios e análises políticas sobre o Brasil, a Bahia, São Paulo e mais tantos outros lugares e personagens fascinantes.

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