Contos

Megalomania

Escrito por Gabriel Galo

Mãe faz tudo pelo bem de seus filhos. Quer vê-los felizes, bem-sucedidos. Assim era Dona Isaldina, que levava sozinha a criação dos dois filhos, na rédea curta. A cria era sua vida e seu tudo, e tinha planos para eles. Não aceitava menos que o melhor.

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– Como é, senhora?

A atendente do CAT, grande rede de amparo e apoio ao trabalhador, fez uma cara de dúvida e de incompreensão quando ouviu a voz da mulher que se sentava à sua frente. Baixinha, troncuda, forte e de pele bem morena, usava uma saia jeans comprida, blusa preta com todos os botões fechados até o pescoço, apesar do calor que fazia, cabelos compridos presos por um rabo de cavalo, bolsa preta no colo, uma sapatilha simples, bege, sem salto. O único mimo, que dada a platitude de todo o resto chegava a quase uma extravagância, era um pingente em ouro, de Jesus crucificado.

Do seu lado direito, um menino, já beirando os vinte anos. Do seu lado esquerdo, outro menino, um pouco mais novo, maioridade recém-completada.

Sem pestanejar, ela retoma:

– Vim aqui para arrumar emprego pros meus meninos. De qualquer coisa. Quer dizer, qualquer coisa, não. Tem que ser coisa boa. Sabe como é, eles são meninos bons, trabalhadores. Falaram que está escrito que eles vão ser o que quiserem na vida, abençoaram a carteira de trabalho dos dois, tá até cheirando alfazema.

A mãe estica as mãos com as carteiras de trabalho para a recrutadora, que afirma não precisar, olha para a tela de seu computador e digita no seu teclado procurando vagas disponíveis.

– Eles têm alguma qualificação?

– Evangélicos.

– Qualificação profissional, digo. Quero saber se têm curso técnico, experiência, treinamentos, se fazem faculdade…

– Ah, tá. O meu mais velho já fez uns treinamentos lá no templo do lado de casa. Tem um vozeirão que a senhora não acredita. Nem precisa de microfone. E quando fala, o povo todo grita amém, aleluia, uma loucura. Na hora da coleta, ele arrecada bem mais do que os outros. Pastor elogia que dá gosto. E vai ser bom ator, esse menino, pode anotar. Quando ele encenou um exorcismo, semana passada, teve gente que nem queria ir embora de medo.

– Algo mais?

– Tem carreira feita no templo, mas quer sair, diz que quer seguir o que o seu coração manda. Menino novo tem dessas coisas.

– A gente tem algumas opções de vagas aqui, dona Isaldina. Garçom, atendente de telemarketing…

– Não, não minha filha. Esse menino aqui vai longe. Não pode ficar preso nessas coisas, não. Vê aí se tem vaga de ator. Na Globo, que ele não gosta da Record.

– Senhora, me desculpe, mas a gente não trabalha com esse tipo de vaga.

A mãe olha para o menino, que sinaliza com a cabeça no modo não-tem-jeito, e ela retoma.

– Tá bom, tá bom. Record, então.

– Não, a senhora não entendeu. Nós não temos vagas de atores aqui.

– E apresentador de TV? Esse ia ser um sucesso apresentando um Cidade Alerta da vida. O Marcelo Resende já tá meio acabadinho, coitado, Deus me perdoe! – ela fala levantando as mãos e dando um sorrisinho maroto.

– Senhora…

– Locutor de rádio?

– Deixa eu ver o que eu posso fazer pelo seu filho.

Percebendo a inutilidade do argumento, a atendente volta para o computador, e finge teclar um monte, sem parar, por uns 3 minutos. Enquanto digita, vai fazendo caras e bocas.

– Olha, dona Isaldina, eu procurei tudo aqui e, realmente, não tem vaga nesse perfil.

– Ah, que pena.

– Vamos fazer o seguinte, vamos falar do seu outro filho.

– Ah, sim. Ih, minha filha. Já esse aqui é um inútil. Quer saber de nada. Formou no colegial e vive na academia. E nem saber de ir pro culto. A senhora acredita que domingo ele inventou de ir sem gravata? Eu peço a Deus todo dia para que ele fique que nem o irmão, mas ainda não fui abençoada.

Olha para o mais novo com uma cara de desprezo, que o faz se encolher e evitar contato visual.

– Bem, se ele estiver bem de saúde, forte, tem algo como segurança, que…

– Mas já tá bom demais pra ele.

– Sério? Ainda bem.

A pergunta deve ter ligado o alerta da mulher. Como assim, “ainda bem”?

– Ainda bem? Ainda bem? Olhe, a senhora tome muito cuidado pra falar do meu filho. Este é um menino de ouro! Nunca mexeu com droga, nada disso. É menino forte, sim, carrega um saco de cimento que nem sua. Mostra o muque, aí, menino, mostra!

O menino levanta, orgulhoso, o braço esquerdo, forte mesmo.

– Viu só?

– Vi! Olha, com esse porte físico, talvez a posição de segurança seja mesmo uma boa para ele, no momento.

– Não! Não minha filha! Não, não, não! – retrucou a mãe, impaciente, virando a cabeça de lado a lado, olhos fechados e pernas chacoalhando apressadas sob a mesa.

– Não?

– Não. Ele passa a madrugada vendo vídeo de luta, sabe? É doido por esse negócio de MMA, Anderson Silva, tal. Procura aí algo melhor. Tipo lutador do UFC.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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