Blog Minhas histórias

Meu Caetano

Escrito por Gabriel Galo

Um domingo de manhã qualquer, pode colocar uns 25 anos atrás. Talvez um sol entrando pela janela, aquele sol de manhã, que fazia brilhar a poeira no ar e avisava que o dia começava. Talvez esta imagem não tivesse efetivamente existido. Fato é que todo dia o sol levantava – e ainda insiste em seu ritual – e havíamos de cantar a ele.

Lembrança de cores, aromas, lugares, momentos, muito se esvaiu. Evanesceu. Ficaram os sons.

No toca-discos, dentre outros, ele à frente. Deixo-me raptar e ser levado a uma cama boa, captando uma mensagem à toa. Fino menino que sou, inclinava-me pro lado do sim, e seguia aonde suas palavras, em mim traduzidas, quisessem.

Abria-me a mente de infante. Instigava-me.

Tantas referências. Muhammad Ali. Bruce Lee. Claude Levi-Strauss. Paul Gauguin. Cole Porter. Djavan. Gal. Lessa. Olodum. Ilê Ayê. Ray Charles. Stevie Wonder. Muitos. Tantos.

Tantas referências. A Baía de Guanabara. O Barbalho. Santo Amaro. O Clube Bahiano de Tênis.

Era um desafio intelectual. Por que, entenda bem, desde moleque não aceitava não entender alguma coisa. E no auge de minha imaturidade e parca letra, era um belo de um alvo.

Revólver, sou coqueiro.
Inteligente no jeito de pongar no bonde.
O que parece construção, mas é ruína.
Gargalhadas e lágrimas.

Navegava de oceano a outro com maestria. Com o tempo, fui assimilando sua poesia.

Mais do que cantor, é poeta.

A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria
Tenho mátria
E quero frátria

A lindeza do que simples. Do que pleno de significado. Do que cheio de história.

Devo a ele minha formação do que entendo por música e letra. De um jeito ou de outro, o que veio depois derivou de sua influência.

Manoel de Barros dizia que a poesia é a virtude do inútil. Nele, a virtude deve ter encontrado o auge no encontro com a música. Talvez a utilidade da poesia seja tão somente o belo.

E isto ele é.

É lindo.

Caetano Veloso completou 74 anos no dia 07 de agosto. E ainda foi presentado com a participação na abertura dos Jogos Olímpicos. Uma demonstração para o mundo do significado de sua arte. Me causa um orgulho imenso de ser baiano compartilhar nascedouro com João Gilberto, Gilberto Gil, Dorival Caymmi, ele.

Axé, Caetano!

Meu Caetano foi formado por música e letra. Celebrações como Sampa e Terra ficaram de fora, talvez reflexo do menino que as fez entender desde o nascedouro. Era ambicioso, ora, fazer o quê? No Deezer você pode seguir no link abaixo:

http://www.deezer.com/playlist/2009688766

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça.

Aqui você vai encontrar contos, crônicas, ensaios e análises políticas sobre o Brasil, a Bahia, São Paulo e mais tantos outros lugares e personagens fascinantes.

2 Comentários

Deixe seu comentário