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Meu primeiro Fluminense

Escrito por Gabriel Galo

Hoje, quando o Vitória entrar em campo para confirmar sua condição de líder máximo do Campeonato Baiano contra o brioso segundo colocado Fluminense de Feira, o gatilho emocional será outro, inteiramente. E tem mais a ver com o original do Rio que com o de Feira. E tem mais a ver com nosso rival soteropolitano.

O Baêa (sua porra) fazia campanha memorável no Brasileiro de 1988 (apesar de 1989 já ser) e alcançou as semifinais contra o fogoso tricolor carioca, campeão nacional apenas 4 anos antes. Romerito desfalcava o time das Laranjeiras no jogo da volta na Fonte Nova, depois de empate sem gols no Maracanã. Prenúncio de alegria para os baianos.

Aqui, confesso, uma vez mais de coração doído, que minha mente pode estar a me pregar peças. Se fato ou não, é minha primeira recordação de estar num estádio de futebol. Naquele Bahia 2 x 1 Fluminense que carimbou o passaporte do tricolor de aço para as finais e para o título. Refiro-me àquele jogo das mais de 110 mil pessoas. Gente nas marquises da velha Fonte, gente espremida, gente que não cabia mais, gente que tomou porrada de polícia, gente que foi ultrapassada na bilheteria, gente que foi roubada por cambista. Gente, muita gente.

Na minha memória, estávamos lá eu, meu pai e Aílton, e se mais alguém havia, por favor, levante a mão e se apresente! Ficamos no anel superior, na zona mista, onde as pessoas de bem se misturavam, onde xixi não voava em saco plástico e onde eu, criança, 7 anos, ficava mais besta com o foguetório de recepção do time da casa e com a quantidade de cabeças do que com o jogo em si.

Meu pai e eu, torcedores do Vitória. Sinal de um tempo muito melhor em termos de torcida. Torcíamos pelo baêa e pelos amigos torcedores do baêa, assim como muitos deles nos acompanharam em 1993. Fomos levados pelo sentimento de camaradagem, pela elegância sutil de Bobô e pelo orgulho de ser baiano. Não era o Bahia em campo; era A Bahia. O mesmo amigo foi recentemente ao Barradão ver a estreia de Kieza e de meu filho no Santuário Ecológico da Brocação. Algumas coisas não se vão com o tempo.

Certa feita, Fonte Nova na estreia do rubro-negro baiano contra o de mesmas cores carioca na semifinal do Brasileiro de 1993 – quando Roberto Cavalo fez de pênalti o gol dos baianos – nós ali na zona mista, e um menino com o pai. O moleque era flamenguista roxo. A cada lance dos cariocas, ele levantava, gritava “Meeeeengo!” e girava sua pequenina camisa, para ser quase imediatamente puxado pelo pai para sentar. “Fica quieto, menino…” podia-se ouvir o pai dele entre os dentes. Acostumado que eu era a ver todo mundo junto em BA-VI naquele mesmo local, não entendia a preocupação paterna. Hoje entendo, desses desatinos exportados por São Paulo e a dilapidação do romance em estádios de futebol e suas gangues uniformizadas.

Mais recentemente, em 2010, fomos ao Barradão para comprar ingressos para a final do Baiano, e na fila, rubro-negros e tricolores se misturavam. Nenhuma animosidade, muita galhofa e pirraça. Há esperança, minha gente. No dia do jogo, um torcedor do Bahia entrava junto com a torcida do Vitória. Um bêbado qualquer tentou gritar “tem um torcedor do Bahia ali!”, incitando a revolta, para tomar logo um “cala a boca, porra!” no pé da orelha e seguir o baba.

Esses prolegômenos todos para dizer que sinto falta da época quando era possível ir ao estádio torcer pelo maior rival num campeonato porque sim e precisa de mais? Que sinto falta de quando era possível haver uma torcida mista, afinal, estava todo mundo ali para se divertir.

E também para reforçar a impressão de que quando Fluminense chega a Salvador é pra tomar cacete até ver táuba-lascá-ni-banda o couro de quem se atreve.

Bora, Vitória!

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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