Crônicas Minhas histórias

Minha primeira lembrança

Minha primeira lembrança vívida, a custo, foi extraído de uma tarde em Salvador ao som de Marisa Monte.
Escrito por Gabriel Galo

Na lógica que buscamos para não nos pormos loucos, é a possibilidade de descarregamento que aguento, nas limitações de minhas forças. Veio, intrépida, a minha primeira lembrança.

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No quebra-cabeças da minha memória as peças demoram a se encaixar. Pouco faz sentido, sequer flashes são corriqueiros, quando não inexistentes. Chafurdar no caos das reminiscências escondidas é dar-se de cara com portas trancadas, baús encadeados e caixas com segredo. Ainda assim, munido de forte desapareço pelo aprendizado induzido, vou por ali onde o mato alto tomou a estrada e as pedras do caminho se tornaram muros de contenção proibindo passagem. Se nordestino é antes de tudo um forte, hei de honrar a baianidade e o regionalismo, sacando da caixa de ferramentas, estocada no contra-senso de minha rede neural, a picareta, a marreta, a talhadeira, a chave-inglesa, a britadeira e a escavadeira, manuseando-as sem equipamento de proteção e na escuridão do ontem. PERIGO! Piscam luzes vermelhas a cada passo.

Uma caixa se interpõe no caminho e eu esbarro em tropeço e topadas. Sua mera presença já é dor. PERIGO! Se eu fechar os olhos bem fechados ouço uma voz questionando minha resolução. Ela sussurra cuidado e certeza em questionamento, assoprada na espreita do vento que sopra por entre os olhos mágicos das pedras irregulares da grande muralha, que aceita transposição apenas do que não é materia, apenas do que aceita molde.

A caixa ostenta um forte cadeado com um segredo em quatro algoritmos. O enferrujado do lacre orna com as correntes pesadas em aço fundido que envolvem sua estrutura de madeira antiga e enfarpada. Apelo para a brutalidade que penso exigir o objetivo. Acerto com força a talhadeira em marreta, que parece nem encostar, apesar estrondo tilintado do contra metais. Aumento a força. Na insuficiência, apelo a outras ferramentas. A britadeira é corroída, chave-inglesa se esfarela em minúsculos grãos a ceifar-me os olhos, a escavadeira tomba – é peso que não pode carregar. Minhas mãos sangram e pulsam pedindo trégua. Minhas costas arcadas, corcundas, suplicam descanso. Meus olhos aguados em sal querem água do tipo corrente e fechamento para balanço. Desistir é imperativo.

Mas quem somos nós senão figuras de contradição? Ninguém manda em mim, nem eu mesmo. Raciocínio é truque do acaso, acaso que somos de nascença, vivença e morrença.

Ajoelho-me, e dou de cara com o cadeado. Quatro dígitos numa rosca áspera e pesada. Toco-a sutilmente com o polegar para vê-la espinhar-me a pele até quase a unha, num anti-êxtase lancinante. “Decifra-me ou te devoro as mãos”, este tanto está claro.

Iniciamos um monólogo estranho, em que eu buscava fazer lógica enquanto a caixa respondia oscilando desaspereza e rudez gradativas. Se mais próximo me fazia, sua tez se amaciava mansa; se mais distante, franzia-se em descontento, pronta para furar-me a vista. Tentativa e erro.

Se eram, pois, guardadoras da memória, assim seria de estarem ligados os quatro números.

Fiz-me, por fim, água e vento.

1989.

Sentado na mesa de jantar na sala da velha casa do Santo Antônio, estava eu cumprindo meu dever de estudante. Lição de casa. O porto de Salvador repousava plácido à minha direita, navios vistos ao longe pelo corredor que levava aos fundos da casa. Atrás de mim, minha avó pintada austera em quadro pregado na parede sobre o móvel teto de cupins. Do outro lado, a Nordeste do norte de meu centro, a velha porta de salões de faroeste, ligando à cozinha. Noutro móvel condomínio de roedores de madeira, precisamente à minha frente, um rádio qualquer cantarolava.

Bem que se quis, doce Marisa Monte. Paro a lição para ouvir a melodia.

Está vívido, está claro.

Balbucio “1989”.

Claques de engranagens em movimento se ouvem. O lacre se rompe e vira fumaça. As correntes, uma vez sólidas e intocáveis, serpenteiam e se juntam ao humo. A caixa se abre, para revelar-se vazia e evaporar-se. Vento que sou, inspiro profundamente absorvendo a névoa branca que era deixou de ser segredo, mas parte ativa de mim.

Na lógica que buscamos para não nos pormos loucos, é a possibilidade de descarregamento que aguento, nas limitações de minhas forças. Veio, intrépida, a minha primeira lembrança.

O que é que vida fez com a nossa vida?

Seguimos trombando e tropeçando, fingindo objetivo maior. Descartamos peças de um quebra-cabeças eternamente em construção, sem darmos conta que sem estas, completude não se instala. Mesmo nos tombos, trombadas e tropeços. Num domingo qualquer, numa terça-feira monótona. Nos altos e baixos, dentros e foras.

Queremos, depois de tudo, ainda sermos felizes.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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