Crônicas Todos têm uma história

Nicanor, o cantor das multidões

Escrito por Gabriel Galo

Findava os anos 60 na pequena e pacata vila de pescadores de Mutá quando chegou o circo. Notícia se espalhou como rastilho de pólvora, e nem precisava de caminho longo para o rastilho, não, porque a gente acabava logo ali. Expectativa na cidade, tocou todo mundo a ver a atração que tinha invadido a cidade.

Cidade é modo de dizer, mas vamos em frente.

Primeiro, o palhaço entrava e anunciava cada artista circense. E, um a um, eles tomavam conta do centro do picadeiro e performavam sua arte. Eis que entra Maura, a rumbeira.

Podia-se sentir no ar o embasbacado de cada homem ali presente. Maura era linda, faceira, e ainda por cima dançarina? Era encanto demais para pescador não se arriar.

Mas quem arriou mesmo foi Bacurinha.

Casado com Anita, já com primeiro filho nascido. Tal qual sereia cantando, Bacurinha foi sendo levado pelo sacolejo das cadeiras de Maura. Cada para lá era um punhado de batidas aceleradas de coração, cada para cá era a certeza de que com ela tinha que ir-se.

Foi uma choradeira danada na casa de Anita quando Bacurinha anunciou que ia embora com o circo. A senhora prometeu não mais querer vê-lo, “vá e nunca mais volte”, e ele com seu punhado de roupas mandou-se já no dia seguinte, dando as costas a Mutá e oferecendo seu coração a Maura.

Que, digamos, não se empolgou por demais com o fervor de Bacurinha.

Já no dia seguinte chegaram a Cações, outra vila de pescadores poucos quilômetros costa adentro, para sua nova apresentação.

O dono do circo foi ter com o novo integrante da trupe.

– Nicanor, aqui cada um tem uma função. O que você sabe fazer?

Nicanor era o nome de batismo de nosso herói, que assim se apresentou ao dono do circo, porque formosura como Maura não se cai por Bacurinha.

– Eu sei cantar.

E no que o palhaço varreu a contar dos artistas naquela noite, dentre eles estava Nicanor, o cantor das multidões.

Então, uma vez mais, como toda noite de picadeiro armado, cada um invadia o espaço e remexia seu remelexo.

Até que chega a vez de Bacurinha. Quer dizer, Nicanor, o cantor das multidões.

Toma-lhe o centro do palco, silêncio armado para a voz, no que a emposta, inflando o peito, e deixando sair as primeiras palavras.

Na pequena plateia, um homem, companheiro de agora ex-profissão, começa a olhar desconfiado, e nem terminado o primeiro verso, grita:

– Isso aí não é Nicanor, não! Isso aí é Bacurinha, descarado de Mutá!

Remoído na vergonha e reduzido pelas gargalhadas, junta seus trapos e volta correndo para Mutá naquela mesma noite, para ser recebido por uma ressentida Anita, que o teve de volta, mas com ressalvas tantas, que usava a história para fazer realidade seus desejos pela culpa sentida do agora atual, uma vez mais, marido.

E quando saía a ter com amigos, ou na volta da pescada, na galhofa se refestelavam os seus, que o viam descer a rua e se fartavam a gritar:

– Isso aí não é Nicanor, não! Isso aí é Bacurinha!

Que então xingava 7 gerações de cada um, e voltava revoltado para casa.

***

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

1 Comentári0

  • […] Eram muitas as figuras diferentes que habitavam a vila. Dona Dina, a obesa mãe-de-santo que cuidava de todos e olhava pelos seus. Seu Zeca e Dona Mocinha, pais de Davizinho, donos das vendas. Seu Vavá, o médico da cidade. Bacurinha, que já foi retratado aqui e ali. […]

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