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No me deje sola

criança, areia, praia, Barra do Una, São Paulo
Escrito por Gabriel Galo

Deitados estamos, eu e minha filha. Ambos de lado, um de frente para o outro. Meu filho já dorme desde a segunda canção de ninar. Ela resiste um pouco mais. Cruza com medo da noite a fase dos pesadelos, que fazem com que desperte com certa frequência, em meios a choros e gritos de papai ou mamãe. Quais seriam os bichos a visitá-la? Ou ainda quais cenas indefiníveis como fantasia teriam-na assustado causando necessidade de mundo real?

Ali, quase de rostinhos colados, sua respiração soprando meu nariz e olhos, ela reúne suas últimas forças consciente. Segura-me o rosto num quase afago de carinho, mãos em meu queixo, como que garantindo que eu estivesse olhando para ela em meio à escuridão, suplica em sussurro: “no me deje sola.”

Não deixo, Bela.

Não deixarei quando brigarmos, e vai acontecer em algum momento, você gritando que me odeia. Vou tentar entender suas frustrações e agir melhor dos meus esforços para que você entenda que meu amor por você é maior que o mundo.

Não deixarei quando resolver seguir sua intuição de menina feita, quebrando a cuca em aprendizados que somente a vida poderá ensinar. Algumas coisas só se aprendem na pele. Estarei pronto para te acudir num estalar de dedos.

Não deixarei quando a vir partir de casa, deixando seu quarto vazio, meu coração idem. Sempre haverá uma cama na casa do pai pra você.

Na batalha dos sonhos feios, queria poder estar dentro de sua cabeça, vestido de armadura e força em punho e lutar contra seus monstros. Lutaríamos juntos, ela a guerreira líder, eu seguindo obediente suas instruções e, heróis, afugentaríamos bichos de várias cabeças e de feições amedrontadoras.

“No me deje sola.”

Não deixarei, filha, não importa o quê.

Ainda mais agora, com você pituca e disposta a distribuir sorrisos e encher minha alma de alegria. Ainda mais agora que basta ouvir sua vozinha rouca pra eu ir correndo. Papai sempre estará do seu lado. Literalmente, o meu quarto está na porta em frente. Minha cama sempre vai caber seu mundo.

Não a deixo nem se eu quisesse, filha. Nem se você pedir. Estou impossibilitado para sempre de deixar você sozinha. Caminharemos sempre juntos, Bela.

Chama o pai e ele vai correndo. E se pedir assim, de mãozinha e rostinho colado, “te quiero mucho” e que tais, só me dá uns minutinhos pro pai parar de chorar, recuperar o fôlego e poderemos, enfim, avançar sobre as linhas inimigas e mandar todos os vilões de seus sonhos para as cucuias, lugar de onde nunca deveriam ter saído.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça.

Aqui você vai encontrar contos, crônicas, ensaios e análises políticas sobre o Brasil, a Bahia, São Paulo e mais tantos outros lugares e personagens fascinantes.

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