Ensaio

Novo?

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Escrito por Gabriel Galo
O Partido NOVO 30, dito baluarte da nova política nacional, está em campanha ferrenha e necessária para selecionar candidatos para as próximas eleições. Sua engrenagem, no entanto, esconde uma pegadinha que seleciona apenas aqueles que representam exatamente o que de mais antigo existe na política brasileira.
 
Por definição estatutária, o Novo não recebe dinheiro público para financiar suas campanhas. Depende, portanto, da benfeitoria de pessoas e de seus afiliados para que exista. Por mais que tentemos, nunca estaremos, na política, livres de dinheiro. Assim, cada pré-candidato, para se fazer efetivamente candidato nas eleições que se aproximam, tem meta a bater. A saber, duas metas: quantidade de novos afiliados que ele capaz de inscrever e montante de dinheiro que ele é capaz de arrecadar.
 
A “lógica” utilizada pelo partido é a de que se alguém não é capaz de conseguir afiliações e dinheiro agora em janeiro não será capaz de atrair votos em outubro. Não pode haver nada mais absurdo em pensar desta maneira, ao criar pretenso elo entre as pontas.
 
A comparação a que se propõe é esdrúxula. A dificuldade de um voto é incomparavelmente menor do que a de se afiliar a um partido político ou – e aqui cabe somente o adjetivo de infame – doar dinheiro a um partido politico. São medidas incomparáveis e dizer que uma possui relação causal com a outra é infantil.
 
Em paralelo, algumas das maiores críticas que se faz ao mundo politico nacional são que os politicos são em sua esmagadora maioria homens brancos e ricos, estrutura que dizima minorias e cria um debate unilateral (o estardalhaço provocado por figuras defensoras das minorias é premissa obrigatória, caso contrário suas pautas sequer seriam consideradas), e que a decisão das políticas públicas vai para onde o dinheiro diz que tem que ir.
 
Reflita sobre estas questões dentro da estrutura básica do Novo e responda a estas simples perguntas: dada esta etapa do processo de seleção, qual o perfil de candidato você acha que será escolhido? O eleitor de periferia que precisa ser incluído na política mas que não tem dinheiro para doar muito menos pretensão de afiliar a um partido politico, ou o branco zona sul que tem dinheiro e amigos-com-dinheiro e precisa pensar “no bem do povo”? Consequentemente, como assegurar que a de atuação legislativo (não é momento ainda de pensar no Novo como candidato viável em nível executivo) independerá dos interesses destes grupos de doadores?
 
A resposta à primeira pergunta mata a pretensão do Novo de realmente ser diferente, porque, no limite, não muda o estereótipo dos políticos, sequer arranha a imagem. Trata-se, no partido, de endinheirados que sempre deram as cartas nesta terra, agora com discurso um tanto poliana que combina com o que muita gente acredita, mas que em efeito prático é raso.
 
A mudança política virá não acreditando em déspotas esclarecidos, ou Novistas bem-intencionados. Virá quando toda uma população marginalizada estiver interessada pela política, quando participar ativamente dos quadros e pautas de governo, e, principalmente, ver-se representada por gente como eles. O Novo segue caminho diametralmente oposto.
 
Estas eleições em 2018 colocarão à prova o próximo passo do partido. Enfrentará o mundo real da política em sua frente. Eleições não são para amadores. Se a alternativa é eleger mais do mesmo – gente igual mas com uma roupagem diferente – um populista come com farinha os bonitinhos quando visitam as Zonas Nortes da vida. Ou o exemplo de Crivella não foi forte e significativo o suficiente? Independentemente de plataformas políticas distintas, há menos distância na postura de, por exemplo, Freixo e do Novo do que o partido gostaria de supor.
 
Considero louvável a postura e a atitude do Novo de querer mudar o cenário politico nacional. Agir é o único caminho para a mudança, isso não deve ser questionado. No entanto, quando a premissa está errada, toda argumentação é nula. O Novo, com seu distanciamento superior – nós sabemos melhor, confie na gente, a garantia sou eu – contribui para reforçar a mesmíssima estrutura arcaica que diz querer remontar. Deveria expandir sua seleção e acolher gente que não tem como bater suas metas mas oferece um pensamento renovado em rincões onde não entrará tão cedo. Deve abrir o debate para que outra vozes sejam ouvidas e incluídas em seus programas. Do jeito que está, comete um erro estratégico grave, dentre os muitos outros que tem cometido recentemente.
 
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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

9 Comentários

  • Nada ver! Sou pré candidato aprovado no processo seletivo do Novo! sou negro, não sou rico e moro na periferia do DF. E também não filiei ninguém no partido.

    • Jefferson, seja bem-vindo!
      Sim, este é o processo do Novo, conforme descreveu Ricardo Rangel, pré-candidato no Rio e alguns amigos meus que embarcaram na vida política.
      Eu acho fundamental que o Novo abra espaço para justamente gente como você. Da forma como estavam fazendo, isolavam este perfil. Que excelente que o Novo esteja receptivo a você, que ainda é uma exceção não somente no partido, mas em quase todos.
      Torço de verdade para que o Novo seja um sopro de renovação na política. Não concordo com a premissa fundamental do partido (o estado mínimo), mas vejo o debate como fundamental.
      Estou e estarei sempre à disposição para conversarmos quando quiser.
      Um grande abraço, Gabriel Galo

    • Marco Tulio,
      Eu estudo sempre, o tempo inteiro. Não me disponho nunca a parar. Sou daqueles que acreditam no conhecimento e na civilidade. Qual ponto você acredita que merece mais aprofundamento de minha parte? Faço essa pergunta mesmo estando quase certo de que não há fundamentação qualquer além de uma tentativa de agressão. Além do mais, aparentemente, quem está precisando de um pouquinho mais de estudo aqui é você, não eu…

  • Gabriel, você está 100% equivocado.

    Começo com Exemplos: Nossos 4 vereadores eleitos em 2016: aqui no Rio um engenheiro recém formado, jovem, Leandro Lyra, nascido em Belém, com campanha super modesta. Em São Paulo foi eleita vereadora pelo NOVO uma jovem Janaína Lima, nascida no Capão Redondo, periferia de São Paulo. Como diz o Jefferson em comentário aqui o NOVO tem candidatos de diversos perfis socio-econômicos.
    Vejam aqui detalhes de cada um: http://www.novo.org.br/representantes/

    O processo seletivo garante o alinhamento de ideias dos candidatos do NOVO: seu conhecimento do estatuto e dos valores do NOVO. Todos candidatos contarão, igualmente, com suporte para candidatura (advogados, contadores).

    Diferentemente de outros partidos, incluindo todos de esquerda, não existem candidatos de caciques, tudo feito por processo seletivo aberto. Vê-se pelo texto que você carregou a mão no texto por preconceitos ideológicos. Infelizmente mais um texto com argumento espantalho (“endinheirados que sempre deram as cartas nesta terra”?!?!?!) . Pesquise mais sobre o novo, visite o site, leia sobre os eleitos e volte ao assunto. Abraços

    • Lelo, obrigado pela interação. É sempre importante ter outras pessoas interagindo.

      Você, no entanto, é que indica exceção e atribui como regra. O caso do RJ nem deveria ser citado, afinal, filho de ex-diretor de estatal privatizada não configura um novo tipo político. Inclusive, eleito em BH, tem um FUNCIONÁRIO PÚBLICO, o que foge absolutamente da filosofia do Novo. Seus exemplos, exceção talvez pela Janaína, confirmam o que eu coloquei.

      Você também se equívoca quando diz que não se escolhe candidatos assim no Partido. RICARDO RANGEL, pré-candidato a Deputado Federal pelo RJ deixou explícito como funciona o processo seletivo. Um amigo, também filiado ao Novo, mas no ES, sabia que não sairia candidato por saber não ser capaz de atingir as “cotas” de aprovação. Além do mais, conheço e interagi com inúmeros dos figurões do partido, que sempre se mostraram totalmentr fechados a debater ideias.

      Nesta seara, quem se equivoca não sou eu. É quem quer colocar exceção como regra.

      • Gabriel, agradeço seu comentário que confirma o que eu disse: Além da Janaína, nem o Leandro nem o vereador do NOVO de BH são com voce disse, de forma bastante preconceituosa, “endinheirados que sempre deram as cartas nesta terra”. Demonstra ignorância mais uma vez quando afirma que o fato de um vereador do NOVO ser funcionário público (suas palavras) “foge absolutamente da filosofia do Novo.” Por acaso vc acha que o novo é anarquista (ou anarcocapitalista)? Está errado! O NOVO defendo o FOCO no essencial, segurança, saúde e educação (além de outros como controle da moeda, etc.).

        Além do mais isto é um adhominem: discutir qual a profissão/origem das pessoas ao invés de suas ideias. Mas aceitando estas premissas veja o quanto voce está errado. Isto por falarmos nos eleitos pelo NOVO, e não em quem se candidatou pelo NOVO, que aumentaria seu equívoco. Lamento suas premissas erradas.

        O fato de ser rico, pobre, classe média, funcionário público, empresário, funcionário humilde, etc. NÃO significa que como políticos vão agir de forma ética, ou defender ideias pensando no bem comum, ou que não serão corruptos, ou que serão honestos.

        Você reproduz aqui o “monopolio da virtude” clássico em grupos radicais políticos e religiosos. Se alguém defende algo que não concorda — no caso ideias liberais, de foco do estado em setores fundamentais — é porque são “endinheirados que sempre deram as cartas nesta terra”.

        Eu falei sobre o processo seletivo, um diferencial do NOVO, único partido que faz escolha de candidatos assim, envolve DIVERSOS critérios, sendo o principal alinhamento com os valores e engajamento através de criação de eventos públicos, etc.

        Encerro por aqui. Entendo que você rema em outro barco e está torcendo contra. Normal. Abraços.

        • Lelo, obrigado pela réplica.

          O que você lê como “ad hominem” eu usei como exemplo para explicar porque o perfil de quem faz o novo é o MESMO de quem já está aí há mais tempo. Filho rico de empresário; advogado funcionário público -ora, assim como nosso “presidente”! A diferença que eu vejo – a menor utilização do dinheiro público é louvável – mas daí ao Novo se colocar como paladinos da virtude existe um abismo de diferença. Já vi INÚMERAS vezes gente graúda do Novo ignorar e rejeitar a voz de quem QUER participar porque “já sabe como tem que ser. Obrigado.”

          Onde estão os empreendedores sociais no Novo? Cadê o debate de ideias?

          O liberalismo é uma linha interessantíssima de se abordar e deve ser balanceada com a realidade. O que não faz sentido, ao meu ver, é um partido dizer como deve atuar o estado (o mínimo, tudo em favor do Deus-mercado-todo-poderoso, bom e justo) quando os seus nunca pisaram pés em favelas ou viveram de perto as angústias de quem precisa… DO ESTADO!

          E não é questão de lugar de fala. Se o Novo OUVISSE essas vozes, seria fantástico. Mas escolhe ignorar, e assume uma arrogância típica de donos da verdade.

          E veja só: quando eu trago estes pontos para o foco, torço IMENSAMENTE para que o Novo inclua mais. Que ouça mais. Que abrace mais gente diferente. Porque isto ENGRANDECE o partido. Não torço contra, pelo contrário. Gosto de muitos valores do Novo, ao mesmo tempo em que enxergo que outros são rasos e não aplicáveis.

          A simplificação de “se isto, então aquilo” foi você que trouxe. Posso enumerar milhões de situações em que os valores do Novo além de impraticáveis, são perigosos. Eu falei do perfil de gente que faz o partido, igual aos outros, com a mesma postura de “somos melhores, confiem na gente, sabemos mais”.

          Não remo em outra direção. Queremos, no fim, a mesma coisa: um Brasil melhor.

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