Ensaio

O impacto da presença de Renan na Caravana de Lula

Escrito por Gabriel Galo

Em sua andante caravana pelo Nordeste, Lula ostenta uma companhia que levanta sobrancelhas em dúvida, causando sensação de mal-estar: Renan Calheiros. O ex-presidente do Senado, agora desafeto de Michel Temer, é o braço operacional de Lula pela região. Trata-se de uma aliança que, independentemente do espanto que venha a causar nos puritanos – afinal, o que não falta tanto a Lula quanto a Renan são infindáveis processos dos quais são réus, o segundo montando pilha no STF – não é nova nem inoportuna. E traz potenciais benefícios mútuos.

Um pouco de história.

Renan Calheiros sempre foi um braço fiel dos governos do PT no Senado. Juntamente com Michel Temer, foi o vértice que conduziu as negociações dos trabalhadores (sic) com o PMDB. O apoio vinha seguido com uma lista de exigências. A principal: manter os processos contra Renan arquivados e dormentes. Assim, Renan atuava como moderador no Senado, enquanto a Temer cabia a articulação na Câmara dos Deputados.

Tudo funcionou bem – dentro do possível – até que Dilma assumiu a cadeira da presidência da República. Ali ocorreu uma ruptura agressiva demais para que muitos pudessem lidar. Dentro de casa, a presidente rompeu com Lula, buscando independência na atuação. Ao mesmo tempo, derrubou as pontes existentes com as conexões de Lula que garantiam a governabilidade. Ríspida e inábil negociadora, atraiu testas franzidas e muito descontentamento. A equipe econômica batia cabeça. E, mais importante do que isso, o PMDB farejou fraqueza. Visualizou a oportunidade de deixar de compor o governo para SER o governo. Iniciou-se o processo de impeachment.

Ali o PMDB viu-se numa encruzilhada. De um lado, Temer e sua ala, com Cunha a tiracolo, prontos para tomar a cadeira. De outro, Renan Calheiros e ala menor, que por um breve período de tempo, arriscou melar o impeachment no Senado.

Estava claro, naquele momento, não somente a divisão interna do partido que é sempre governo, mas acontecia, sobretudo, uma briga por poder. Quem quer que saísse vencedor na batalha assumiria as rédeas do partido e, em especial, seria o cérebro por trás do “novo” governo. Ou Temer daria as cartas por conta própria; ou Renan daria as cartas porque o PT deveria demais para ele.

Esta dualidade provocou o afastamento das duas figuras, então, mais relevantes do partido. Mais do que isso, viraram inimigos. Quando o impeachment finalmente se concretizou, Renan se viu sem muitas alternativas. Alternativas que foram reduzidas a somente uma depois da queda e prisão de Eduardo Cunha: Renan Calheiros se viu como o próximo bode expiatório. Seria ele a próxima satisfação a ser dada pelo recém-empossado representante do Palácio do Planalto.

Renan, então, blefou. De fato, possui muitos em Brasília em seu bolso. “Mantenha seus amigos por perto, e seus inimigos ainda mais perto.” Assim diz o ditado. E Renan distribui “eu sei o que vocês fizeram no verão passado” a quem necessário fosse para se manter vivo na estrutura política do país. Mais do que isso, era fundamental bater de frente com Temer. O senador alagoano assumiu ser grande o suficiente para romper a unicidade do partido, causando fogo-amigo cruzado que poderia efetivamente paralisar o governo. Temer conseguiu, uma vez mais, suplantar o rival, fazendo-o expurgado da presidência do Senado em decisão do STF mantida em plenário.

O blefe de Renan, no entanto, continua. E encontrou eco na estratégia política de campanha do PT.

O jogo de 2018 está sendo jogado há tempos, e o PMDB é peça fundamental. Negocia, há tempos, aliança com o PSDB. A dificuldade que todos estão enfrentando neste momento é entender o ponto de equilíbrio nas negociações de poder com o partidão. É uma linha tênue: tem que conceder suficientemente bem para mantê-los satisfeitos, mas não demais que possa fazê-los mais importante que o governo, podendo derrubar mais um presidente da cadeira ou garantir ingovernabilidade.

Ao mesmo tempo, o PMDB possui o maior ativo de campanha para 2018: o tempo de TV. E, no dia-a-dia do Congresso Nacional, possui a maior bancada. Ou seja: para ser governo, é fundamental ter o PMDB ao seu lado.

Acontece que o PT percebeu que não existe a possibilidade de aliança com o PMDB. Seguiu, assim, para a única possível estratégia: quebrar o partido ao meio.

O cálculo é simples: se o PT sabe que o PMDB não estará com ele, então que não esteja TODO com o adversário.

Quebrar o PMDB em diversas frentes significa:

  • Apoio em coligações regionais alinhadas à ala dissidente do partido
  • Migração de deputados e senadores para outras siglas, aumentando o tempo de TV de potenciais aliados (e reduzindo o do PMDB na coligação nacional)
  • Aumentar o poder de barganha dos descontentes dentro da sigla

As apostas de Renan estão não em Lula. Entenda, ele não é inocente o suficiente para rejeitar uma trégua muito bem acordada com o governo atual. A atuação dele como cabo eleitoral faz parte de seu balanço de poder necessário para manter-se forte na briga com Temer. E daí podem surgir 3 cenários possíveis, cujos principais intricamentos ocorrem ANTES das eleições em 2018:

  1. O nome de Lula vai ficando cada vez mais forte e ele é candidato. As pesquisas já o colocam à frente em 2018. Tornar-se governo novamente a partir de 2019 seria uma reviravolta atraente demais para Renan recusar. Mais do que isso, a partir de uma consolidação de Lula como favorito, ele negocia com o PMDB em vantagem, com cartas na manga. Obrigará Temer a acalmar a sanha e garantir imunidade ao desafeto.
  2. O nome de Lula vai ficando cada vez mais forte, mas ele NÃO É candidato. Este cenário adia o poder de barganha Renan, afinal, ainda será testada a capacidade do ex-presidente de transferir votos a um novo candidato. Se sim, há esperança para o Senador; se não, o resultado está mais próximo do cenário 3.
  3. O nome de Lula não consegue retomar relevância, no que seria a derrota final de Renan Calheiros. Sem ter mais cartas para as quais recorrer, uma delação premiada estaria na pauta para atenuar suas condenações certas no STF.

Em qualquer visão que se tenha, Renan foi de all-in na capacidade de reviver o nome de Lula. Ele não quer chegar a 2018. Ele quer apenas crescer com Lula para fazer com que o PMDB seja obrigado a sentar para negociar com ele oferecendo concessões e imunidade.

Trata-se, portanto, de um mutualismo torto este redivivo relacionamento Lula-Renan: ambos com muito a ganhar e com muito a perder.

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Parte 1: abordei o que significa a caravana de Lula.

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Crédito da foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula. Foto pública.

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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