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O Natal de 2007

Natal
Escrito por Gabriel Galo

Era março de 1996 quando meus pais seguiram a Oeste, rumo ao Mato Grosso do Sul, deixando Salvador e os três filhos para trás. Apenas no fim do ano, já em dezembro deste mesmo ano, juntou-se a família em Campo Grande. Dali a dois anos, em dezembro de 1998 estabelecemos casa em Santana de Parnaíba, na grande São Paulo. Desde então, morei em muitos lugares e países. Até que em agosto de 2007 meu pai decidiu retornar à Bahia, ficando na casa de minha avó no Santo Antônio, que o recebeu com alegria, embora muitos percalços houvesse no relacionamento dos dois – e com consequências no resto da família.

Parecia, então, motivo suficiente para que eu retomasse contato com a Bahia, cortado pela raiz desde aquele longínquo dezembro de 1996, onze anos antes. Comprei passagens, arrumei carro e não avisei ninguém. Era para ser surpresa.

Pousei no aeroporto 2 de Julho, fui buscar o Uno alugado que seria a condução pela intransponível publicamente velha cidade da Bahia. As maravilhas do mundo moderno ainda não tinham chegado ou sequer surgido. Há poucos dias o iPhone tinha sido lançado nos EUA, a cobertura de dados das empresas de telefonia celular era lastimável, e nenhum aplicativo sem os quais vivemos hoje em dia tinham sido lançados. Waze era coisa que não existia, portanto. Locomover-se confiando nas placas soteropolitanas é coisa que não desejo a meu pior inimigo, se inimigo eu tivesse. Restava, exclusivamente, confiar na minha memória de criança, há onze anos guardada sem ser remexida, ressecada e enferrujada.

Em velocidade reduzida, forçando a mente para reacender os trechos apagados – e contando com uma grandiosa pitada de sorte – eu era a cara da felicidade quando finalmente pude estacionar o carro em frente à Rua Direita de Santo Antônio, 122. A porta era a mesma, pesada e antiga, a cor da casa era a mesma, um tom bege sem ardor, como convém a tudo o que é bege. O que não bege era tocar a campainha insistentemente, ouvir minha avó vir pelo longo corredor, “Quem é?”, e eu em silêncio, tocando a campainha continuamente, “Já vai!”, ela gritava, eu punha o dedo no olho mágico, “Quem é?”, “Sou eu!”, “Eu quem?”, “Eu, ué? Esquece de mim?”, para que ela abrisse a porta desconfiada e cair em sorriso, me abraçando, “Bebel! Ô, meu filho, como você está? Entra.” Vou na frente, ela tranca a porta sacando a chave presa na alça do sutiã. “Quanto tempo, meu filho!”

A gente senta na mesa da sala de jantar, decorada com uma toalha gasta, uma fruteira carregada de bananas e farelos de cupim. Oferece banana, mais tarde saímos para comprar o pão de fim de tarde na padaria que ficava muito mais perto do que parecia ser. Quando criança, tudo é maior. A distância é longa, as pessoas são enormes, as casas e quartos abrigariam gigantes. Mas Voinha talvez nem chegasse ao metro e sessenta, a sala era menor do que supunha e a padaria não exigia mais do que cinquenta metros de caminhada, enquanto me exibia orgulhosa “Meu neto, ó, Gabriel! Lembra dele?” e respondiam “É claro, dona Maria! Ficou grande, hein?” e ela fazia pose. O cheiro da padaria, no entanto, continuava o mesmo, uma mistura de pão fresco com café moído na hora, felizmente sem sentir o aroma dos doces carregados de moscas no vidro gelado do balcão.

“Seu pai não está, deve chegar nestante” disse-me minha vó, insistindo em algo para comer. Aceitei as bananas, os pães ficariam para mais tarde, “quando meu pai chegar.”

Era quase sol se pondo quando o barulho de chave na porta anunciou a chegada de meu pai. “Fique aí.” Disse Voinha, apressando-se em encontrá-lo no corredor para garantir a surpresa. “Paulo, se comporte que a gente tem visita.” ela assim o recebeu. Ele desconfiado daquela cerimônia toda adentrou meio acabrunhado e demorou uns segundos para entender o que estava acontecendo, quem estava ali. Quando deu por si, abraçou-me candidamente. Era o alento de que precisava. Recomeçara do zero – para não dizer negativo -, pela enésima vez. Desta vez acontecia sem perspectiva, no mais fundo poço que era o quarto dos fundos da casa da mãe, sem ter nem para pongar num ônibus.

Passeamos e rodamos a cidade de Salvador inteira, ele recontando e revisitando cada pedaço, imputando memórias no vazio que eram as minhas – embora não tão vazias assim, afinal, tinha chegado sozinho na casa de minha avó.

O NATAL

O dia 24 de dezembro sempre foi motivo de peregrinação. Eram muitas as casas para visitar. Quando pequenos, saíamos primeiro à casa de minha avó, que botava a mesa cedo. Ela montava um presépio elétrico que girava (presente do filho que morava na Alemanha), no ornamento mais natalino que possuía e não deixava ninguém tocar. Com sorte, haveríamos de sair antes da primeira briga (família, ê). De lá partíamos para a casa de meu avô Perez, pai de minha mãe, onde ceiávamos por mais tempo. A depender da amistosidade da relação, talvez uma rápida passada na casa de meu avô Leonan.

O 2007 reservava peregrinação ainda maior, e com carga de sentimentos e lembranças que o fez inesquecível.

Começamos, como de praxe, na casa de minha avó, que preparou a janta ainda mais cedo que o habitual. Estaria sozinha, assim preferiria, muito mais fácil de falar mal de quem não tinha ido vê-la. Nem bem noite caíra e comíamos uma galinha com macarrão. A comida de Voinha sempre foi simples e saborosíssima, com rico gosto de infância.

A segunda parada foi na casa de meu avô Leonan. Meu interação com ele, desde a saída de Salvador, era nula. A ceia era mais farta, embora tivesse que ser adaptada a suas sérias restrições alimentares. Dado quarto da casa era moradia de centenas de bolsas para diálise peritoneal. Sua fragilidade física destoava da eterna acidez de seu humor. Reclamou de meu perfume, fez piadas (disse que meu pai gostava de salpicão, mas sem o “sal”), comentou da grande viagem que faria para o ano, perguntou da minha vida e evitou falar de si. Retirou-se quando o cansaço era demasiado, e aproveitamos a deixa para nos despedirmos. Foi a última vez que conversei com meu avô, que viria a falecer em cerca de 50 dias, fevereiro de 2008. Foi depois, vendo as correspondências de meu pai com meu avô, que vi que eu era sempre tópico de suas conversas e interesses.

De lá fizemos um pit stop na casa da família mais barulhenta e descontraída da Bahia: os Leone. Era gente que não acabava mais, música, festa. Fomos recebidos com tanto carinho que já queria ficar por mais tempo. Revi, naquele Natal inusitado, gente que há muito não via, e quase todos revi no velório de meu pai, ano passado. Os Leone têm como marca registrada uma risada gostosa absolutamente contagiante. E vivem de bem com a vida, o que faz com que ecoem suas gargalhadas a todo o tempo, sem contenção. O ambiente recarregou nossas energias. Saímos comentando do quanto aquela gente era do bem, meu pai externando o tanto de saudade que sentia de todos eles, eu dirigindo à casa de meu avô Perez e Dona Célica.

Seria nossa última parada, mas qual o quê! Voinho estava em casa de vizinha, para onde fui direto vê-lo enquanto Voinha ainda se arrumava para a grande ceia. Na vizinha, TV ligada no SBT assistindo a algum programa de Natal, que ninguém reparava ou prestava atenção. A mesa era farta e repleta de guloseimas apetitosas, queijo Reino já cortado em canapés, nozes, panetone, alguém ofereceu uma cerveja, aceita de muito bom grado. “Será que voinha já está pronta?” perguntei para meu avô, na senha para nos retirarmos repletos de felicitações e bons natais.

Na casa, Voinha já se arrumara e banhara-se de alfazema, vaidosa que era. Ao me ver era só contentamento, “Meu neto!” e tascou a me levar pela rua me mostrando na vizinhança. Mais tarde, mesa posta na casa de um tio que mora na casa em cima, reuniram-se todos – pelo menos aqueles que ainda se falavam – enquanto outros tantos iam e vinham: vizinhos, amigos, parentes, conhecidos, intrusos, sempre havia espaço para mais um.

Comemos, celebramos e nos divertimos. Era o fim de noite ideal para nosso reencontro, meu com meu pai, meu e de meu pai com a Bahia, meu com meu avô, meu com minha família, nosso com os nossos. Um Natal único. O maior de todos.

Como era bom estar em casa.

***

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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