Crônicas

O opala do meu avô

Escrito por Gabriel Galo

Foi no ano de 1970 que meus avós compraram a casa de Mutá. Casebre, não pense que tinha nada de luxo, porque em vila de pescadores luxo é ter piso na sala. Não havia interruptores, tudo se ligava na base do fio desencapado. O chão era de cimento queimado, via-se chumbinhos misturados na massa, como há de ser em qualquer lugar por lá. O que variava era ter, ou não, cimento. As camas eram de madeira, colchão fino de sentir o estrado, e mosqueteiras que garantiam a sobrevivência durante a noite contra o ataque das muriçocas.

Dessas coisas que a gente desconhece, minha ex-mulher adorava camas que tinham os tecidos leves e finos por cima. No meu explicar da função, todo o encanto se esvaiu. É, seria melhor, mesmo, continuar achando que aquele tecido era específico de camas de princesas para acolher e repousar. Mais romântico assim.

Meu avô trabalhava na Chevrolet, ou Chevolé, como o chamava Mamede Paes Mendonça. Tinha para si, à disposição, os carros mais novos e as versões mais luxuosas. Em 1969 pegou ele um Opala bege, com estofamento de mesma cor, lindo. Tinha sido o 240° a ser fabricado no Brasil, e era apenas o quinto a entrar na Bahia!

Acostumado a chegar na vila a bordo do Nuvem Azul, decidiu fazer o caminho por terra, e colocou o Opala para desbravar a estrada.

Mas onde passa burro, não necessariamente passa carro.

Mutá é abrigo de mangues, ou melhor, o mangue abriga Mutá. A estrada era enlameada, e, apesar de já estarmos na década de 70, nunca que veículo tinha aparecido por lá.

Até o senhor Leonan Mantero Toscano de Britto.

Como o trajeto demanda, saiu a direita na BA rumo a Mutá e… atolou.

Os primeiros locais, ao avistarem o grande bicho de olhos redondos e gradil a tomar-lhe as ventas, saíram em disparada a avisar a todo mundo. Tinha gente que nem sabia o que era esse tal de automóvel, não somente na vila, mas na vida.

A horda saiu em disparada para ver o que acontecia.

Iam chegando e vendo o grande Opala parado na lama, com meu avô de pé do lado da porta, esperando auxílio.

O progresso havia chegado, mas ia precisar da boa e velha força manual para fazer-se presente de vez.

Os mais fortes se colocaram nas laterais, e onde o Opala atolava, içavam o grande bicho no muque, como andor ou como liteira, tal qual uma divindade ou rei carregado no ombro pelos súditos, para não lhe cansarem as pernas nem lhe sujarem seus preciosos pés. Neste caso, no entanto, o Opala já se havia lambuzado inteiro na lama.

Mulheres, crianças e mais quem não tivesse ou força ou vontade, iam atrás, acompanhando o cortejo armado para o deus automóvel, carregado nos braços do povo!, admirando a adoração que se fazia.

Quando o carro finalmente despontou na vila, até foguetório teve!

Viva ao progresso!

E alguns olhavam de canto de olho, ressabiados, com cara de diabéisso?, aquela aberração cor de jegue claro que chegava para, em definitivo, alterar a rotina da cidade.

***

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

2 Comentários

Deixe seu comentário