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O que é sucesso?

Escrito por Gabriel Galo
Em 2014 fui convidado para dar uma palestra sobre carreira para jovens entre 15 e 18 anos, pobres, em sua maioria negros, que faziam parte de uma ação social profissionalizante em Santana de Parnaíba, cidade da região metropolitana de São Paulo. Um sábado inteiro, dia de muito sol, ideal para uma piscina, um parque, um churrasco. Eles lá, ouvindo o que alguns tinham para falar. Percebia-se que se tratava de uma galera diferente, a começar pela postura.
 
Eu falaria num horário da tarde, mas resolvi ir desde o primeiro horário e acompanhar o que cada um dos convidados teria a dizer. Ora, se aqueles garotos estavam destinados a dedicar seu sábado todo ao evento, por que não estaria eu?
 
Questão de probabilidade: a maior parte daqueles jovens, apesar das chances obtidas em parceria com o projeto do qual faziam parte – cursos, estágios, empregos – teria, quando muito, empregos com salários medíocres. Ainda seria mais que os seus mais próximos, fadados ao desemprego, à gravidez precoce, a uma vida perdida.
 
Me dói a alma quando alguém vem falar que “se aproveitar as oportunidades que a vida dá, você chegará lá”. Por incapacidade de pensar estatisticamente. Este projeto do qual estes tantos jovens fazem parte tem fila de espera. Assim como outros dos quais tive orgulho de participar. A maior meritocracia existente para este público é a sorte.
 
Perguntei, então, para eles o que seria, na opinião deles, o sucesso.
 
Um deles disse que era ser diretor de logística da empresa onde começou trabalhando no CD, Centro de Distribuição. Para outra, ter uma casa própria. Um deles, mais simples, queria um carro do ano. A maioria não fazia ideia do que era esse tal de sucesso, calados e pensativos ficaram. Os poucos que participaram atribuíam valores materiais: uma casa; um carro; status.
 
Faz sentido, numa análise mais superficial. Significa a materialização do esforço.
 
O meu papel ali era outro, no entanto. Quem já esteve na frente de um público com audiência cativa tem que entender a importância do que fala. Aqueles que escutam acreditam piamente no que está sendo dito pelo alguém com o microfone.
 
Ouvi absurdos de outros palestrantes. Um deles fez uma analogia com a estátua do “Pensador de Godã”. Godã. Não Rodin, o escultor, para ele era Godã mesmo. Se os que seriam, em teoria, referência para aqueles jovens são capazes de tamanha estupidez, imagine ao que são expostos cotidianamente.
 
É necessário, portanto, ultrapassar a barreira que restringe sucesso ao material. Na minha cabeça, a frustração potencial que poderiam sentir não deveria ser fortalecida por mensagens de “tenha mais”. Para quem é bombardeado com o “ter mais é o que importa”, o como vira segundo plano.
 
Lembrei-me de alguns casos. Do meu avô, que apesar de uma vida miserável, vive sempre com um sorriso no rosto e alma de garoto. De uma senhora que achava que a maior decepção era o bolo ter dado errado.
 
Foi uma percepção construída com o tempo.
 
Sucesso é você ter orgulho de quem que você é.
 
***
 
À tarde, um casal chega, um pouco atrasado, para falar.
 
Platitudes, “se esforce que você consegue”, “a vida vai retribuir”.
 
Garoto sentado na cadeira ouvindo aquilo lembra da mãe, que se mata de trabalhar há anos mas vive uma vida sofrida, e vem camarada falar de retribuição da vida, de meritocracia. Como acreditar?
 
Daí que a esposa pega o microfone e conta de quando era jovem. Estudava, e as amigas tiravam sarro porque ela não curtia a vida. Depois de uns anos, encontrou com estas ditas amigas. E elas espantadas. “Nossa, esse carro é seu?” e ela “sim, é meu”.
 
Aqui vai ser impossível explicar a cara da mulher contando esta história. Era uma mistura de superioridade com desprezo com saciedade. Tentava colocar o “consegui” como vértice, mas não era bem esse o caso.
 
Pense bem: na cabeça dela, ela venceu na vida porque tinha um carro, coisa que suas antes amigas não tinham.
 
Superficial ao extremo.
 
Eu me contorcia para não interromper e falar novamente com os jovens. Para esquecerem o que acabaram de ouvir. De que a vida não se resume a ter um carro e esfregar na cara da sociedade, não pode ser ressentimento acompanhado de um #chupamundo.
 
***

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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