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O que significa a caravana de Lula

Escrito por Gabriel Galo

A caravana de Lula está varrendo o Nordeste. No total, serão 28 cidades em 20 dias. Palanques montados para que sua notável retórica seja posta à prova depois de sua biografia ter sido apedrejada. Hábil político que sempre foi, não é de espantar que já esteja em campanha para 2018. Acontece que não é somente a campanha de LULA que está em jogo, mas sim os desdobramentos que vão culminar com as eleições no ano que vem. No que esta caravana serve não somente para o eventual candidato Lula; serve para qualquer candidatura do PT.

Temos que:

  • Existem, desde já, dois cenários possíveis para o Partido dos Trabalhadores em 2018: Lula é candidato; Lula é impedido de ser candidato pela Justiça.
  • Existe, atualmente, uma militância desestimulada, depois de tantos casos de corrupção, em especial com o nome de Lula achincalhado pela justiça, pela imprensa, pela opinião pública.
  • Existe um Norte/Nordeste que não tem aceitado nomes que não sejam os ligados ao PT nas eleições, ainda mais quando os candidatos alternativos não são capazes de dialogar com a região. E, lembremos, a caravana ocorre logo depois de o potencial candidato João Dória Jr. ter caminhado por capitais no Nordeste a receber questionáveis comendas.
  • Existe, também, a mística do nome de Lula, capaz de eleger Dilma à presidência da República.

Assim, a caravana de Lula serve para três propósitos, num jogo de estratégia que denota, uma vez mais, que apenas o PT sabe fazer política profissionalmente no Brasil.

E isso é um perigo.

Antes, uma pequena história sobre esta questão do profissionalismo na condução da política, indo a um dos pontos nevrálgicos da organização partidária: a propaganda eleitoral.

Estava eu envolvido, em 2014, com a candidatura de certa pessoa à presidência. Eu adorava dissecar as pesquisas de opinião pública, procurando identificar pontos fortes e fracos, para dali estimar como cada campanha atuaria em seus fatores e como deveríamos reagir a alguns e ditar as regras em outros.

Listamos, assim, antes mesmo da propaganda começar, os pontos fortes e os fracos de cada candidato. Esta lista era pautada pelas pesquisas prévias, que já indicavam as demografias que favoreciam ou não cada um, análises de perfil de candidatos, gatilhos emocionais, equipe, falhas de currículo e por aí íamos.

Veio o primeiro dia da propaganda na televisão.

De cara surgiu Dilma que, pelas mãos do condenado João Santana, parecia que tinha a nossa lista na mão. Falou para CADA ELO FRACO diretamente, direcionando a mensagem com habilidade. Em seguida veio Aécio, e fiquei perplexo. A mensagem de Aécio parecia direcionada para ninguém. Um tiro n’água, briga de facão no escuro. Não tinha propósito, não tinha público-alvo, e mais para frente, pior ainda, não conseguia falar a mesma língua do Norte/Nordeste, garantindo a reeleição de Dilma.

Profissionalismo. A política é um jogo de tabuleiro em que os jogadores têm de jogar com estratégia. A sorte conta quando o oponente é um inapto.

No que a caravana de Lula é oportuna e não tem nada de espontânea. É uma reação pensada e organizada meticulosamente para manter o jogo a seu favor, apesar dos pesares. São três os motivos principais:

  1. PROTEÇÃO DE TERRITÓRIO: Dória captou algumas importantes alianças e share of mind no Nordeste. Em seguida, Lula aparece e expande a presença a um nível que um prefeito no exercício do mandato não consegue equiparar. “Quem ri por último ri melhor.” É a última mensagem que fica guardada na cabeça das pessoas, no que a dianteira quem assume é ele. Implode qualquer possibilidade de afeiçoamento do público com a imagem de Dória. “Eu sou vocês, meu povo”, é o que se é entendido pela plateia. Dessa maneira, age para que a relevância do tucano na região mantenha-se pequena, embora seja inevitável que cresça por conta de passar a ser mais conhecido. O objetivo é evitar que Dória seja um ladrão de votos significativo. Lula dá uma de macho-alfa, mija no poste na frente de casa, late para a vizinhança de noite: cuidado, cão bravo. Tudo com sua oratória cativante.
  2. MILITÂNCIA ATIVA: o moral da militância tem estado baixo durante muito tempo. Estava complicado reativar a vontade dos partidários da causa a abraçar novamente o paciente terminal. Altamente eficaz, a caravana caminha para a região onde possui maior contingente beligerante, mais facilmente reversível a ir para as ruas vestido de vermelho, bandeira em punho, estrela no peito e cantando Lula-lá. Provoca um efeito dominó nas centrais militantes de cada local: se um está fazendo, animo-me, também, a fazer. E reacende a chama em cada canto. É de se esperar que, em breve, depois de cruzar o Norte/Nordeste, o PT organize uma grande manifestação com Lula em palanque num grande centro do Sudeste. Isto dependerá da medição de estâmina depois da injeção de adrenalina. Se eu tivesse de apostar, reduziria para dois os lugares: o onipresente Vale do Anhangabaú; ou um cenário no Rio de Janeiro com uma grande favela ao fundo. Anote aí: ainda este ano, Lula sobe em palanque para centenas de milhares de pessoas. À sua direita, seu candidato backup (Fernando Haddad, provavelmente).
  3. O NOME LULA: Independentemente de seus envolvimentos em processos judiciais e de seu emaranhado de histórias mal contadas, Lula ainda é um nome forte. Dentro das pesquisas projetando 2018, é o único candidato que consegue concentrar os votos mais à esquerda. Dada a alta rejeição, talvez não seja suficiente para ser eleito, mas garante com folga o segundo turno. Além disso, lembremos, Lula tem o poder de transferir votos como nenhum outro. Afinal, quem conseguiria fazer-nos engolir Dilma eleita, senão ele? Esta caravana tem, assim, a finalidade de manter o nome LULA vivo na mente das pessoas. “Meu povo, eu não estou quieto, estou vivo, lembrem de mim. Eles não vão me derrubar!” Este posicionamento é significativo tanto para Lula candidato, como para Lula puxador de votos. Pode viabilizar uma nova candidatura de um nome com pouca força nacional (Fernando Haddad?) utilizando o atual ÚNICO trunfo do PT: ele mesmo. Condenado ou não; preso ou não. Não duvidemos de sua capacidade de vitimização. Orador perspicaz e carismático, envolve a audiência, num canto de sereia, para muitos, irresistível.

Lula é o maior conhecedor de Realpolitik deste país. Nunca o descarte do tabuleiro de Brasília.

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Parte 2: os porquês da presença de Renan Calheiros como principal cabo operador de Lula.

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Crédito da foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula. Foto pública.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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