Carnaval Contos

Olodum no Pelô

Escrito por Gabriel Galo

Marcival não consegue dormir direito. Passou a noite em claro. O calor ajudou, mas a ansiedade explica e se justifica. Levantou reclamando por ter despertado cedo. O sono ajuda a correr o dia no ápice da expectativa.

Vestia um short de bater baba, e com ele ficava até chegar a hora. Além do short, vestia seus longos cabelos negros com já alguns fios brancos arrumados num dread do qual cuidava com carinho, os magros músculos definidos e a pele escura que brilha com vivacidade.

O casarão no pé da Ladeira do Carmo, que foi transformado em pensão, palavra chique que quer dizer cortiço dentro da pobreza gritante do Pelourinho, tinha sinais de desgaste que aguardam a tinta e a reforma do governo. Mora sozinho, no segundo andar, janela com vista, onde mais gente na dezena divide o piso da porta para fora. Trabalha na Baixa dos Sapateiros por um salário que mal dá para pagar o ônibus que não precisa pegar.

Vive pelos muitos amores que compartilham de sua cama quase diariamente, pela água que merece ser comida nos fins de semana e pelo seu dia, onde tudo se rearranja e a energia se renova.

Nada conseguia atrair sua atenção. A roupa da noite da sexta de carnaval já estava separada há dias, como fazia todos os anos desde 1993. A camiseta pendurada num cabide, já desgastada, com a letra de Madagascar Olodum, presente que ganhou das mãos de Neguinho do Samba, quando ainda era menino recém-saído dos projetos sociais da banda, e que não tem planos de aposentadoria, apesar do puído, do descolorido, e até de uns buracos de traça.

Qualquer short servia, qualquer chinelo servia, até descalço já se viu.

Ainda cedo, pouco depois do almoço, segue para a frente da Fundação Casa de Jorge Amado. Ali senta no batente da escada, e fica batendo seus pés freneticamente. Levanta, dá uns passos de lado a lado. Cumprimenta a todos que passam e que lhe reconhecem.

Uma pomba voa da torre da Igreja do Rosário dos Pretos para o casarão de frente. Dali baixa até o chão a catar migalhas, e sai voando espantada pelos passos apressados de turistas. Vai dar de junto de Marcival, que continua a observando. Ela olha por um segundo para ele, e voa novamente para não mais poder ser vista.

As horas passam lentamente.

De segundo em segundo, a hora se aproxima.

A hora em que, desde a concentração, o Olodum invade o Pelourinho com seu batuque, amplificando seu som nos corações de quem se atrever a estar em seu caminho.

Ele hora no relógio apreensivo.

Galera começa a formar. Ele sorri.

Os primeiros tambores chegam. Todos se cumprimentam. Os primeiros batuques, de aquecimento se ouvem. Cada vem mais gente. O carro de som chega. Vai começar.

Os instrumentos, agora muitos, tocam em harmonia por um bom tempo. Vão aumentando o volume. Marcival vai sendo incorporado. Abre seus braços de frente para o grupo, como se em oração, absorvendo cada partícula de axé que emana dos repiques, atabaques, do tambor levantado sobre a cabeça para a foto para o jornal e para a filmagem para a TV. Tudo é transe e transa.

O bloco vem subindo a ladeira, magnífico, poderoso, irresistível.

Para Marcival, é como se ninguém estivesse do seu lado.

Posta-se na frente do trajeto, sorrindo largamente.

Os tambores vão se aproximando, numa procissão de exaltação às raízes, do orgulho negro, da veneração à sua cultura e sua história. A história de tantos Marcivais.

Ele se ajoelha nos paralelepípedos, braços sempre abertos.

De olhos fechados, pode sentir o povo chegando, a música aumentando o estampido. Sente o vento dos movimentos dos toques, cada batida soprando e ressoando em seu peito.

Aceita ser engolido pela massa, pisoteado e transformado em material do cortejo, para fundir-se em outros tantos como ele, iguais em vida, em luta, em fé, em consciência. Para acordar no dia seguinte com sua crença renovada de que a vida vale a pena ser vivida.

***

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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