Contos Crônicas da Copa 2018

Pepe, el Mariachi de Berlim

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Escrito por Gabriel Galo

Los Tres Amigos. Este é o nome escolhido por Pepe para o grupo de mariachis que ele e mais dois amigos formaram em Berlim, capital da Alemanha. Ambos arguiram se tratar de nome pouco criativo, mas como nenhum propôs algo melhor, Los Tres Amigos ficou.

Pepe, aos 53 anos de idade, é o mais velho. Toca trompete com maestria. De tão hábil parece ter feito faculdade de música em Guadalajara, onde nasceu. Chegou a Berlim em 2001, depois de um divórcio litigioso que o afastou de suas raízes. Os outros dois amigos, também mexicanos, claro, são os irmãos Blanco. Gêmeos, dizem-se primos de quarto grau do craque mexicano, hoje aposentado. Complementam o grupo tocando guitarrón, violão típico para mariachis, e violão tradicional de 6 cordas. Com 42 anos de idade, botaram pés em Berlim em 2014, quando se mudaram com toda a família para tentar a sorte na Europa. “Disseram para a gente ir para os EUA, temos família por lá, mas sabe como é, seria muito clichê. E ganhar em euro parecia uma boa ideia.”, costumam repetir quando perguntados porque a escolha da Alemanha como nova casa.

Conheceram-se por trabalharem num restaurante típico mexicano na cidade. Revezam-se entre cozinha e salão, no que precisa e o patrão mandasse. Logo descobriram afinidades, como saberem tocar um instrumento e a saudade imensa da terra natal. Não se sabe ao certo nem quando nem por quê Pepe sugeriu que formassem um grupo de mariachis. Certamente havia uma pressão por aumentar a parca renda. No ambiente de restrição em que viviam, qualquer euro a mais contribuía. Ao fim, prova de que nunca podemos escapar tanto assim dos clichês que nos rodeiam, os irmãos Blanco toparam. Buscaram local para fabricar os uniformes típicos e puseram-se a tocar nos fins-de-semana e durante a agitada noite da capital germânica.

ALEXANDER PLATZ

A Alexander Platz é uma das praças mais conhecidas de Berlim. Modernosa, contrasta com o entorno que se preserva como blocos de prédios baixos e monocromáticos. Falta cor em Berlim, seja na pele dos nativos, na lataria dos carros ou nas paredes dos imóveis. Não na Alexander Platz. Vê-se prédios envidraçados, painéis pintados com zelo, cafeterias modernas e quase-arranha-céus com desenhos intrigantes.

Rapidamente se enturmaram no movimento frenético da região. Coloridos como colorida era a praça, escolheram lugar e logo trataram de entoar suas canções típicas. A capa do violão é o receptáculo de doações. Foram estudando e percebendo de que forma a interação com o público faz com que ganhem mais. Perceberam a elasticidade praticamente infinitamente positiva entre os gritos – o ‘aiaiai’ afinado – e as moedas que jorravam, assim como a dança de Pepe, um pouco travada pelos joelhos de cinquentão.

A lida incessante ao longo dos anos, todos os dias durante o verão e nos fins de semana durante outono e primavera, tornaram o Los Tres Amigos um grupo conhecido. Eventualmente são chamados para tocarem em festas, com pocket shows especiais. Já saíram em jornal, em TV, em rádio, e são sucesso nas mídias sociais. Ainda assim, se alimentam melhor por conta das moedinhas e notas pequenas que pingam na capa do violão.

VAI TER JOGO

Era domingo de quase verão e o grupo estava programado para voltar à Alexander Platz. Foram os irmãos Blanco que intervieram. “Pepe, não vamos. Tem jogo. México e Alemanha pela Copa!” Pepe insistiu “Ora! Domingo é um dia bom demais pra gente jogar fora. Além do mais, os alemães vão estar felizes… Vão ganhar, beber e gastar mais pra bater foto com os mexicanos derrotados na estreia da Copa!” “Não sei, não, Pepe…” responderam ao mesmo tempo. Pois não foram.  Pepe, então, vestiu sua indumentária, resoluto. Iria mesmo que sozinho. E sozinho foi.

Chegou na praça para encontrar uma multidão. Grande telão foi instalado para acompanhar o jogo. Os que ali estavam, ao verem a figura típica mexicana logo saudaram o honorável intruso. Bateu fotos, tocou seu trompete, emprestava seu chapéu, que fazia as vezes de depositário de gorjetas. E nunca ganhou tanto dinheiro quanto naquele domingo. Pensava, “Ah, os Blanco… Tolos!”

El Jarabe Tapatío

A realidade de Pepe foi se alterando conforme o jogo evoluía. A Alemanha não encaixava seu jogo, enquanto o México era perigo puro. Os cordiais anfitriões agora o ignoravam. E o esquecimento evolui a quase animosidade quando o México fez 1 a 0 e Pepe tocou El Jarabe Tapatío em alto volume enquanto vibrava com o gol. Alguns alemães, mais exaltados, pediram para que se calasse. Absoluta minoria, obedeceu.

A partida prosseguia, e nada da Alemanha se entender. Os minutos corriam, os germânicos pressionavam sem sucesso. A derrota absurdamente inesperada caiu como uma bomba no meio dos corações alemães.

ALTERCAÇÃO

Foi quando um grupo de quatro jovens alemães se aproximou de Pepe. Visivelmente embriagados, falavam enrolado. O tom alemão, já naturalmente agressivo, estava um degrau além do aceitável. Falavam entre si, rindo. Assim foram empurrando Pepe até um gradil. Encurralado e solitário, deu-se conta de que nada poderia fazer se o grupo resolvesse que o jogo na Rússia seria vingado na mão. Parecia aquela ser a sua fortuna. O povo ao redor fingia não ver o que acontecia. “Ai, minha Nossa Senhora de Guadalupe!”

No zerar de suas esperanças, já de olhos fechados esperando o soco, abraçando o trompete para não perder seu instrumento e sua renda, viu o milagre operar. Da boca do metrô da praça emergiam os irmãos Blanco, que ao se darem conta do que se passava correram. Alcançaram Pepe e num salto se colocaram entre o seu líder a matilha de pastores alemães sedentos por sangue. Gritaram como fazem em suas apresentações: “LOS TRES AMIGOS!”

Como num faroeste em plena Berlim do século XXI, firmaram mirada em intimidação forçada. Pepe, redivivo, alinhou-se entre os irmãos. Disseram entre si, como uma mensagem de antes da guerra, aquela que diziam estarem prontos pro que viesse: “Por México!”

Foi quando ao fundo, em um espanhol macarrônico, um alto e pesado senhor alemão berrou num tenor fora do tom: “De la sierra morena, Cielito Lindo, vienen bajando um par de ojitos negros, Cielito Lindo, de contrabando” Foi secundado por mais alguma vozes que emendaram, timidamente entrando no ritmo, como que lembrando da letra “Ese lunar que tienes, Cielito Lindo, junto a la boca, No se lo des a nadie, Cielito Lindo, que a mi me toca”. A esta altura, um parco violão se ouvia e o guitarrón começou a ser dedilhado. A cada palavra, a população se aproximava e se punha ao lado dos três amigos, que já estavam longe de serem minoria.

No refrão, a catarse se fez. Todos se abraçavam e suas vozes engoliam os instrumentos:

“Ay, ay, ay, ay, canta y no llores,
Porque cantando se alegran,
Cielito Lindo, los corazones.”

Os mexicanos choravam, parte de alívio, parte de alegria.

Não se sabe ao certo em que momento grupelho valentão se dissipou.

Assim terminava o Domingo para Pepe e Los Tres Amigos se lembrarem para sempre. Aquele em que o lucro foi mínimo, o medo foi grande e ser mexicano em Berlim viveu seu auge pela transformação da derrota certa em vitória espetacular.

***

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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