Ensaio

PLJ, o novo partido nas paradas de sucesso

Escrito por Gabriel Galo

No começo do ano, em mais um movimento trapalhão e fora do tempo, como condiz com sua biografia de presidente, Dilma nomeou Lula para Ministro da Casa Civil. Era o meio do furacão das gravações liberadas pelo juiz Sergio Moro, anunciadas com pompa e circunstância pelo Jornal Nacional em edição extraordinária até muito além do usual. Você lembra o que houve de efetivo após o estardalhaço patrocinado pela PF? Nada. Absolutamente nada.

Na semana passada, Deltan Dellagnol pediu para que se virassem todos os holofotes para ele. Sua apresentação vinha coroar uma aguardada ação penal contra Lula. Vibrou o país inteiro, pouco importando a baixa qualidade da apresentação (menos pior) e a também baixa qualidade da peça efetiva, este último, sim, gravíssimo. E dada a composição do evento, um motivo para ficarmos de olhos bem abertos.

Sempre fui contra essa história de achincalhar gente em praça pública. Conheço gente que pensa o contrário, cada um com sua visão de mundo. No entanto, vou para a educação, a política e a justiça se encontram com a preservação estado de Direito. E é aí que a porca torce o rabo.

Em vez de Deltan Dellagnol, poderia estar ali fazendo a apresentação Marco Antonio Villa e sua verborragia sem tamanho. Acontece que a Polícia e o Judiciário, em qualquer esfera, têm que ficar acima das motivações emocionais. Não podem se deixar levar por discursos de arquibancada.

Durante horas, Dellagnol desfilou suas convicções.

E o que se viu na peça final?

Foram 3 as acusações contra Lula: a propriedade do apartamento no Guarujá; a mudança de Brasília e os presentes recebidos; e a guarda dos móveis. Tudo sob o olhar benevolente da OAS, sócia em cada uma das empreitadas.

Ué? Sentiu falta de alguma coisa? Cadê a acusação de organização criminosa?

Não, não há.

Percebam: criou-se entre nós a certeza do envolvimento de Lula em esquemas de corrupção. Estamos convictos disso. E provavelmente, estamos certos. Só que nossa posição permite convicções, permite jogo de arquibancada, permite achismo. A PF não.

Explico.

Sim, provas circunstanciais, muitas vezes, são suficientes para condenar alguém. O que se vê no caso Lula é o limite do circunstancial, se não apenas conjectura. Sabemos de cabo a rabo do envolvimento em esquemas de desvio de verbas pública envolvendo a OAS. Inúmeros. Agora, para poder efetivamente condenar alguém, é necessário ligar este alguém diretamente a um exemplo prático.

Cunha recebeu dinheiro. Depositaram na Suíça. Existem documentação comprobatória.

Agora, nem Leo Pinheiro ou qualquer outro atribuíram diretamente fato análogo a Lula.

Entenda, acredito que Lula é muito mais esperto do que isso e não se envolveria diretamente em transferências às margens da lei. Estaria encoberto pela legalidade, como, por exemplo, uma palestra no LILS. A PF sabe que é lá aonde tem que chegar, acontece que ainda não conseguiram êxito.

Duvido veementemente que OAS tenha se imbuído de um espírito de bom samaritano e ajudado Lula. Ora, há muitos interesses em jogo. Eu sei, mas não posso provar, nem cabe a mim provar. E a mim não importa se a PF sabe, porque o que importa é que também possa provar, e, em havendo irregularidade, que seja provado e criminosos exemplarmente condenados.

Agora, é rasa demais a acusação da PF. Dos três itens, dois são arremedos de acusação. O da propriedade do apartamento, em nome da OAS, e facilmente derrubado por qualquer advogado de diploma comprado na feira ao afirmar que o proprietário pode fazer a melhoria que bem entender naquilo que é seu. Se eles imaginavam que Lula seria efetivamente o proprietário algum dia – por contas das cotas de Marisa –, certamente foi “investimento” a fundo perdido.

A segunda gambiarra são os presentes, e o imbróglio está respaldado pela Constituição. Nada a se encontrar ali.

A mudança e armazenagem de Lula se torna o item mais obscuro, mas como será bem instruída a OAS, será tratada como negociações entre duas entidades privadas, lembrando que Lula já não exercia mais cargo público.

O que se vê é um prato cheio para que Lula se safe. Uma vez mais.

Então, porque aquela presepada toda do Dellagnol?

É isso que vim me perguntando nestes últimos dias, e pensei em algumas hipóteses, não necessariamente excludentes.

Uma primeira hipótese é a de que Deltan Dellagnol resolveu vestir a máscara de justiceiro, falar “a verdade que precisa ser dita”. Passou por cima da correção jurídica para “dar uma mensagem ao povo”, e, claro, brilhar como algoz.

A segunda hipótese é a de que estão escondendo o jogo, tem mais por aí. Seria infame, e os áudios vazados já provaram que nada mais há depois.

A terceira hipótese envolve uma estratégia de intimidação de delatores para que se sintam mais “seguros” em acusar diretamente a Lula.

A quarta hipótese envolve o maior risco: o de envolvimento político na Lava-Jato. Os áudios coroaram a tempestade perfeita que culminou com a queda de Dilma. Estarmos assim tão próximos de uma eleição e ter este tipo de estrutura oca e cambaleante como arcabouço penal preocupa.

A quinta hipótese também tem cunho político indireto. A PF sabe que nada ainda possui de concreto e relevante contra Lula. Cria todo um estratagema argumentativo para “facilitar” a condenação por um crime menor. Tal qual Al Capone por sonegação, embora em Chicago advogados e contadores cúmplices tenham se virado contra o gangster, inundando de provas que levaram o dito à prisão.

A sexta hipótese é a de que o povo precisava de uma dose de energético para manter-se engajado. Não podemos deixar a Lava-Jato morrer.

E em havendo qualquer condenação que seja, por menor que seja, Lula se torna inelegível em 2018.

O que eu acho?

Que apenas a segunda hipótese é falácia.

Daí que tenho medo porque a PF está ultrapassando uma barreira que, no Brasil, é tênue e já gerou muitos estragos: a politização da Polícia. Se lutamos para que não haja interferência em um dos sentidos, por que poderia de haver no outro? Não, não pode. Um Partido da Lava-Jato não deve ser bem recebido. Suas ações investigativas, sim.

E não vamos cair no conto de que “alguém tem que olhar pelo país”. Para isso existe o Direito. Se você espera tanto que o vigilante justiceiro tome conta e resolva a parada de vez, sugiro iniciar um tratamento psiquiátrico para voltar à realidade, porque o Batman não vem.

No final, Lula continuará solto, apesar de com medo. O PT será gigantescamente impactado nestas eleições municipais. Lula não vai poder aparecer em propaganda pedindo voto. Mais um golpe na sua candidatura já declarada para 2018. Saciamo-nos com o Power Point das bolinhas, porque o burburinho é mais importante que o processo penal.

Até então a Lava-Jato tem acertado muito mais do que errado. Acontece que todos os erros envolvem Lula diretamente. Quando deixamos o emocional tomar conta, atrapalha o julgamento racional e o tiro pode sair pela culatra.

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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