Carnaval Crônicas

Precisamos do Carnaval

carnaval, bloco de rua, SP, São Paulo
Escrito por Gabriel Galo

Estamos, finalmente, na semana do Carnaval. Nunca precisamos tanto do maior evento popular brasileiro como neste 2019 com cara de século passado. A enervada grita política dá uma trégua porque é necessário baixar um pouco o volume, trazer um mínimo de sensação de paz em meio aos descalabros em série que se abateram sobre o país.

E para os que buscam ao menos uma boa notícia, há algo de positivo a ser extraído. Os pautadores identitários ficaram tão focados em rebater – com justiça – os desmandos da alta cúpula que se esqueceram de fazer algo em que se especializaram nos últimos carnavais: encher o saco do folião.

Há 2 anos, os prafrentex de capa – aqueles que nunca passam da página 2 – colocaram um alvo nas antigas marchinhas de Carnaval. Dispuseram-se, pois, a reescrever letras, a alterar significados, mesmo que não fizesse muito sentido, seja pela letra original não ofensiva, seja pela nova letra que tocava na babaquice. O Zezé, será que ele é?, LIVRE!, foi o ápice da redefinição da história.

Como se sentiram livres e pessoas melhores os tais, por causa disso!

Ano passado, aumentaram as armas. Incendiados por um vídeo tolo do Catraca Livre, o alvo, por mais absurdo que possa parecer – não vemos os absurdos quando estamos perto demais do problema, enxergando-o a todo momento, sendo ele oásis ou miragem – passou a ser as fantasias de Carnaval. (Quase) Toda fantasia passou a ser opressora, reflexo de uma sociedade doente, mas que era reflexo somente de uma gente estranha que inventou que o Carnaval virou uma festa que as pessoas saem de casa para ofender e para serem ofendidas, não para se divertir.

Não que não haja erros ou excessos. Tomemos como exemplo as máscaras do Fábio Assunção, na moda para este 2019. Ao contrário das músicas ou das fantasias, esta máscara ataca diretamente uma pessoa. Percebamos, agora, como o assunto tem sido tratado e vejamos a diferença para os outros anos. Neste 2019, há argumentos objetivos, claros, que podem ser facilmente compreendidos. Tem também a questão da pessoalidade. Sair com a máscara do Fábio Assunção é atacar a sua imagem diretamente. Várias pessoas citaram casos pessoais que ajudam a criar conexão. Bem ao contrário do vídeo do Catraca do ano passado, que repete uma série de clichês americanos – sem se importar com tropicalizações ou contexto, ou até mesmo lógica – e que no fim diz “é assim porque eu estou dizendo que é assim. Aceite e pronto.”

A luta esdrúxula, neste 2019, passou a oferecer, por fim, liberdade aos foliões. Como se fosse um alvará de agora pode, uma bandeira branca. Afinal, estamos todos cansados.

Mas como todo bom militante de pequenezes infames, restou um querequexé: o glitter ecológico. Esta cruzada muda absolutamente nada frente à mais do que válida pauta ecológica. As fotos de montanhas de garrafas e latas soltas nas ruas estão aí para provar. Mas cuidar do próprio lixo dá muito trabalho. Bom e fácil mesmo é cuidar da vida dos outros.

Rua da Vila Madalena, em SP, depois de um dia de Carnaval. Mas o problema é o glitter ecológico.

Ainda bem que se alguém perguntar, na ânsia pela demonstração de superioridade moral, “esse seu glitter é ecológico?”, basta apenas dizer que sim e seguir sua vida, dedinho pra cima e pulinhos de alegria. Estará a pessoinha satisfeita, com sua culpa saciada por estar fazendo a sua parte. Você também, claro, estará aliviado por ter se livrado de um fiscalizador de farra alheia.

E se, por acaso, serzinho se invocar, vier com “deixa eu tocar pra ver se é ecológico mesmo?”, segure o sentimento primários de mandar a pessoa praquele lugar e mande um “Não me pegue, não me toque, por favor, não me provoque. Não é não! Meu corpo, minhas regras” e assista a tela azul do sistema dando tilte na cara do fiscal.

Aproveitemos, pois, o fo-ron-ron-fon-fon, a batida, o povo em transe e em transa, os blocos, a cerveja quente, as bebidas misturas, a paquera, tudo com certa dose de responsabilidade. Já é Carnaval, cidade, acorda pra ver! Vivamos! Eu quero é botar meu bloco na rua e ver o povo brincar do jeito que lhe vier à cabeça.

2 TEXTOS SOBRE A FISCALIZAÇÃO DO CARNAVAL

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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