Contos

Princípio, meio e fim

planejamento, projeto, Fábio Jr, princípio
Escrito por Gabriel Galo

O senso de organização do Claudionor era conhecido. Gabava-se de seus sempre meticulosos planejamentos, planificações impecáveis, prazos britânicos, execução obediente. Nada atrasava ou se adiantava. Era tal qual no projeto. Marqueteava que seus relatórios de status eram como indicava o cronograma.

– Cronograma não é promessa! É compromisso!

Conheceu a Norma e se apaixonou à primeira vista. Talvez pelo nome mais que pelo pacote, mas isto digo eu, olhando de fora, bisbilhoteiro. Já de cara apresentou ao amor de sua vida o plano perfeito para a vida a dois que desenhara desde tenra idade.

– Está tudo aqui, neste fichário separado por tópicos. Moradia, bens móveis, investimentos, carreira, esposa, filhos.

– Fi… Filhos?

– Sim, filhos, claro. Comigo é jogo aberto, limpo. Serão três, todos homens.

– Ahn? E você acha que pode controlar isso?

– Claro. Não há nada que em minha vida que não seja de acordo com o que tem neste fichário. Veja, Norma, eu nunca o mostrei a ninguém. Você é a mulher de minha vida.

A declaração de amor inesperada acobertava a compulsão de Claudionor, que passou despercebida inconscientemente por Norma. Alheia ao fichário, que anos mais tarde confidenciou-me nunca ter folheado, procurando reter certo mistério em seu viver.

– Quisera eu ter lido! Teria sido tudo tão diferente…

Os anos correram no ritmo do fichário. Claudionor comunicava com fervor os acontecimentos que invariavelmente batiam com seu descritivo de atividades. Era um porto seguro terceirizar o passo-a-passo ao seu marido. Casaram-se num sábado de tempo aberto na capelinha ao pôr-do-sol, cenário do romance ideal.

– Mas Claudionor, será que vale a pena comprar esta casa agora? A gente não ganha pra isso!

– Fique tranquila. Serei promovido em seis meses e pronto.

Era batata. Nunca errava.

Em breve, engravidou. Apesar de nunca confrontar as decisões de seu companheiro, estranhou ele ter saído no dia seguinte ao nascimento do primogênito e retornado, sem o seu consentimento, com o registro indicando Princípio como nome. Princípio Martins Albuquerque.

Foram dois anos para que o segundo filho do casal nascesse. O sinal amarelo na mente da mãe-de-dois se acendeu quando ele regressou de sua andança ao cartório da cidade com o registro de Meio Martins Albuquerque.

As amigas riam de Norma e da inusitada família que se formara.

– Princípio e Meio? Sério?

– Faça logo essa matrícula, por favor…

Como alarme biologicamente programado, em dois anos vinha ao mundo o terceiro e último filho da construção da Família Fibonacci, como ele costumava brincar. E Norma quase teve um treco quando apareceu ele com a certidão estampando Fim Martins Albuquerque.

Procurou consolo com suas confidentes.

– É, amiga… Pelo menos vocês não terão um quarto filho. Ele ia se chamar como? Erro de amostra?

E Norma ria de nervoso.

O fato é que o entusiasmo programático se esvaía em seu coração. Isolava seus por quês em pensamento coberto com camadas de sorrisos amarelos e concordância inerte. No melhor de suas habilidades, procurava não externar seu descontentamento. Repetia para si, “há de passar.”

Foi no dia seguinte à mudança à casa nova, comprada sem sua participação ou anuência, que Claudionor amanheceu sem sua mulher a deitar-se. Estranhou. Procurou aroma de café pela casa, de refeição arrumada no zelo. Nada.

Levantou-se e foi ao quarto de cada um dos filhos, que dormiam largamente.

Desceu as escadas entre cuidadoso para não acordar os meninos e apressado pela expectativa e ansiedade. Nada na sala, nada na cozinha. Viu, enfim, na mesa de canto ao lado da porta de entrada, um pequeno bilhete. Sentiu um calafrio percorrer sua espinha na velocidade da certeza do não-desejado. Pegou o bilhete com a mão um tanto trêmula. Nele, uma única frase:

“O amor não tem que ser uma história com princípio, meio e fim.”

Correu desesperado para o quarto. Puxou o fichário como uma predador a encurralar sua presa. Varreu as páginas de cabo a rabo. Deteve-se na linha evolutiva do relacionamento. Procurava languidamente, perto de arrancar as páginas, sussurrando um “não pode ser” atrás do outro.

Por fim, desistiu. E chorou.

Nem ele, no extremo da perfeição de tarefas, cego da obviedade gritante, fora capaz de prever Fábio Jr.

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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