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Psicologia do Estado Mínimo

Psicologia do Estado Mínimo

Conversávamos todos alegremente. O papo fluía, tranquilo, sem sobressaltos, longa e prazerosamente. Até que a prosa descambou para a política, talvez catalisada por uma reportagem qualquer na TV, ao que se seguiu aquele comentário ruidoso de alguém, e, pronto!, estava feito o carnaval.
 
Um deles, com vida absolutamente resolvida, comentou que era a favor do Estado Mínimo. Às aspas:
 
“Sou a favor do Estado Mínimo. Para mim, Estado somente deveria existir para duas coisas: regulação de mercado em alguns poucos setores e segurança nacional.”
 
Cada um com a sua opinião, veja bem. Por mais superficial que seja, por mais estúpida que seja, temos todos o direito de proferir opiniões, muito embora radicais de tudo quanto é lado tenham certeza de que apenas as deles estão corretas. Um cabo de guerra que acreditam possuir como premissa a norma de que “quem grita mais, ganha.”
 
Perdidos no meio fogo cruzado e sem ter onde se esconderem, aos parcimoniosos são flageladas as máculas das chagas da não posição extrema.
 
No dia seguinte, no entanto, adoecido que está o amante do minimalismo, ele formulava uma petição para fazer com que o remédio que precisa tomar para a vida toda seja bancado pelo SUS.
 
“E o Estado Mínimo?” – perguntei.
 
“Espere você ter que gastar milhares de reais por mês para entender pelo que estou passando.”
 
Então, amigos, a coisa funciona, infelizmente, mais ou menos assim:
 
Em geral, apoia o Estado Mínimo quem NÃO PRECISA do Estado.
 
Claro, afinal, como ver valor naquilo que lhe é tão distante, tão desnecessário?
 
Como apoiar a existência de um mastodonte que parece existir apenas para complicar a sua vida, roubar o dinheiro do seu trabalho, causar grandes dores de cabeça e destruir projetos empreendedores?
 
Acontece que a massa, a grande maioria de nós, brasileiros, precisa.
Uma alternativa a este impasse – uma vez que quem regula e decide sobre o Estado são exatamente aqueles que dele não precisam – seria realizar uma frente nacional de discussão do papel do Estado no Brasil, juntando representantes da sociedade em todas as suas qualificações. Um debate nacional amplo para conduzir a uma nova definição que não seja nem tão mínimo nem tão assistencialista, mas essencialmente EFICIENTE. Sempre se perguntando “o que queremos como nação?”
 
Os gastos excessivos ocorrem da ineficiência do Estado. A corrupção se aproveita fortemente e se alimenta da ineficiência do Estado. A burocracia excessiva é perna que imobiliza e reforça a ineficiência do Estado.
 
Este debate, no entanto, exige esforço, exige tempo, exige dedicação. Exige estar disposto a ouvir opiniões contrárias e a negociar um meio-termo, fazendo concessões de lado a lado.
Muito mais fácil é propagar besteiras que em nada auxiliam a evolução do tema, mas deixam claras suas posições. Às aspas com Abraham Lincoln:
 
“É melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é um idiota do quer falar e acabar com a dúvida.”
 
Devemos sempre lembrar que em guerra de grito, no final, estão todos roucos.
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Charge do cartunista Nani sobre a mão do Estado. http://www.nanihumor.com/2012/01/o-estado.html
Charge do cartunista Nani sobre a mão do Estado.
http://www.nanihumor.com/2012/01/o-estado.html
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