Crônicas

Quando o “u” vem antes do “o”

dicionário, boceta, buceta
Escrito por Gabriel Galo

Antes de começar a conversa, nesta prosa que se promete eriçada e despudorada, alerto. Se você é daqueles que tem nojinho de um belo palavrão no pé do ouvido, se se preocupa com o sexo depois do banho porque vai se sujar, se é adepto da versão noturna + luz apagada para não olhar o pecado nos olhos, ou então, injúria!, dobra a roupa antes de bagunçar (mas nem tanto) os lençóis, nem prossigam. Ah, mas nem adianta. Acredite em mim, confie. Tô lhe dizendo. Vai ser uma indignação da gota, um aperreio desnecessário, numa monta que nem uma sequência de orações e pregações e penitências será capaz de remediar.

Bondoso, vou até esperar umas duas linhas para que dê tempo de vossa senhoria fechar a aba, rolar a tela, virar a página, ou então tirar as crianças da sala.

Pronto? Vai! Foi?

Oxe, o quê? Você ainda por aqui? Então tá… Depois não diga que não avisei.

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Escreveu o amigo Franciel Cruz sobre o desfalque mais sentido nestas Eleições 2018: o portentoso bigode tinturado de Levy Fidélix, ao que chamou de “espanador de buceta”. Pra quê! Foi na velocidade do raio da silibrina repreendido. E, vejam o impropério, nem levantaram a impossibilidade de que tal bigode, em qualquer momento da vida, tenha sido empregado em tão cálida serventia – pelo menos não com a casta e impoluta sra Fidélix, que não é mulher de fazer essas coisas nem de dar ousadia. Não e nécaras. Compareceram à tribuna do Bispo para reclamar que o dicionário informa, conforme dita a empoeirada falta de calamengau e de empolgação dos bibliotecários e afins, que o correto era boceta, com “o”, não com “u”.

Desconjuro! É muita falta de esculhambação. E como diriam os filosóficos baianos, pegando ar num momento de tamanho desmantelo, retados COMUQUÊ, “é a porra um negócio desse?” Assinto que é, minha cumadre.

O quê? Ah, sim! Cumadre, com “u”, claro!, como não? Com “u” mesmo, que nem cumpadre. E não aperte minha mente que até escondi o osso da versão consagrada: cumádi e cumpádi, que nem o Uóston.

A lição é dada nas esquinas e escritórios e salas e quartos deste Brasilzão. Se você está em dúvida se tal palavra se escreve com “u” ou com “o”, deixe de mininice e tasque na pedra: é “u” e pronto. No dicionário (olha ele de novo…) vai estar com “o”. Ou seja: vai estar errado. Porque este tipo de será-que-é não deixa rastro para interpretação: o certo tá errado, e vice-versa.

Peguemos, como maravilhoso e perfeito exemplo, a buceta. Perceba como a versão com “o” tem um certo comedimento, uma vergonha contida, um não-querer, um não-poder, um não-me-toque, um “ai, não, mela”. É a versão academicamente aceita, aquela exposta (mas com tapa-sexo, claro) em eventos com desenhos de órgãos internos (ou maquetes de plástico) e explicações fisiológicas. Já a buceta, não. A gente fala e, pá!, ela aparece na nossa frente, do jeito que a gente quiser ver. Buceta é palavra para ser gritada em certo torpor, sussurro só passa ao ponto se vier acompanhado de um festival de sacanagens e arrepios de cima a baixo. Seis letras que enchem a boca, faz a gente salivar e escorrem no êxtase e ápice da anatomia humana.

E não está sozinha. Acontece o mesmo com suvaco. Sovaco é de uma formalidade que não cabe nessa região tão insalubre do corpo. Somente um suvaco pode dar a descrição imaginária do que realmente é um suvaco. Possui, ainda, variações mais populescas, desembocando na subaca, que quando falado assim, eu sinto o cheiro daqui do outro lado do mundo. Sovaco é com “o”? Não, claro que não é. É com “u”, ora, pois.

Mas, voltando ao teor picante (lá ele), o caso primeiro é irmão do “foder” e do “fuder”. Foder é só para reprodução ou em datas comemorativas. Foder somente se faz em lugar com assepsia perfeita, aprovado pela vigilância sanitária e pela divina, com a bênça e permissão do altivo. Foder é aprovado na Igreja, aceita sinal da cruz e uma reza, tudo em nome do senhor. Já o fuder é coisa do DEMÔNHO, do tinhoso lascado organizador de surubas e orgias. A hora de fuder é aquela mágica em que tudo pode e tudo se aceita. Uma fudelança bem dada é libertadora. Uma fodelança, versão com “o”, sequer deve existir.

Assim, assanhado leitor, atrevida senhora, pegue essa lição pela mão e leve pra vida. Apareceu a interrogação, “o” ou “u”?, é “u”. E se alguém vier com gramatiquismos pra cima de sua pessoa (ou pior, com a versão passivo-agressiva de “ain, você não acha melhor falar ‘vagina/ axila/ fazer sexo?’), mande logo a vossa insolência tomar na rima, para que o ciclo se feche com o despudor consistente que a ocasião pede.

Palavras da salvação.

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Acompanhe este canal para mais lições importante do emprego correto do português. Na aula que vem, falaremos de quando o “r” vem antes do “l”. E usaremos como caso o pobrema do prástico no mundo. Imperdível.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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