Crônicas

Quatro asterísticos

caixa, senha, asterisco
Escrito por Gabriel Galo

Diz a piada da loira para quem ofereceram uma grana para que ela descobrisse a senha do e-mail do chefe. Uns dias depois ela aparece, a cara do triunfo, orgulhosa, “descobri!” “E qual é?” “Asterisco, asterisco, asterisco, asterisco…”

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O projeto corria sem grandes transtornos ou problemas, quando um arquivo em específico mostrava-se trancado por senha. Abri o arquivo de senhas que mantinha com os possíveis acessos, mas nenhuma funcionava. Foi então que pedi a meu contato dentro do cliente que solicitasse na área de origem a senha daquele único item diferentão.

Ele telefonou para a pessoa, que de primeira, como convém a quem não foi agraciado com o espírito de colaboração, largou um “está no arquivo de senhas.” Malandro e maroto que era este meu contato, conhecedor da postura beligerante da tal pessoa, retruca “então, eu testei também todas as senhas e não está lá.” Muda por uns segundos, pessoa avisa que vai procurar ver o que aconteceu.

Cerca de duas horas depois, meu celular toca. Meu contato afirmava ter voltado bem-sucedido de sua cruzada. “Demorou, mas consegui a senha!” “Tudo bem, o importante é funcionar!” Respondo, nem demora havia. Pelo histórico da dita pessoa, ter uma resposta dela era motivo de comemoração, então, verdadeiramente nos considerávamos no lucro. “Qual a senha?” Perguntei. “Então…” ele hesita por um segundo e retoma, “a senha é quatro asterísticos.”

(Neste momento, você que me lê, você que tem capacidade de construir empatia, há de calçar os meus sapatos e entender a minha situação.)

Engasguei com uma risada presa pelo mais sobrenatural instinto de profissionalismo.

“Tem certeza?”

“Foi o que ela me passou.”

“OK…”

“Por Tutatis”, pensei ao desligar o telefone, “isso não pode estar certo.” Todos os movimentos posteriores levavam sobre suas costas o peso da descrença, da dúvida, da improbabilidade, do escárnio. “Não pode ser isso…” Abro o arquivo protegido. “O que eu estou fazendo, é claro que isso está errado!” eu falava para mim. A caixa de senha pipoca na tela. Meus dedos tremem em relutância, “E você ainda vai tentar?” eles gritam pra mim. “O nordestino é antes de tudo um forte!” respondo. “Temos de crer no homem e no seu intelecto!” Sou um verdadeiro mártir da esperança! “Yes, we can! I believe in you! O povo, unido, jamais será vencido!”

O último asterisco se vê representado por ele mesmo na caixa de senha. Jean Carcagne dizia que “quem advoga em causa própria tem um idiota como cliente.” Neste caso, o asterisco era também um asterisco, ele representando a si mesmo, num balé infame onde tudo aparentemente fazia sentido, a não ser que não fizesse, a não ser que a loira da piada incorporasse na pessoa que sabota informação, a não ser que tudo fosse um grande mal-entendido. Aperto o Enter, esta tecla gordinha e faceira. Um barulho oco e fechado ressoa categórico: “Senha incorreta.”

VÁ MATAR O DEMÔNHO!

Eu me mexia e me remexia na cadeira, indignado. Era eu o retrato do fracasso. “Quatro asteriscos, mas quá! E eu ainda caí! Não era mesmo possível, claro, evidente, como haveria de ser a senha ‘quatro asteriscos’?”

Desesperado, tentei outra vez e mais uma caprichando na pausa para não dar sopa para o azar. Nada. Lembrei das palavras de meu companheiro de labuta, “quatro asterísticos”. Aí estava meu erro, afinal! Eram asterísticos, não asteriscos! Vou para o Google, tolo e ingênuo, vai que!, procurar o símbolo para asterístico. “Você quis dizer ‘asterisco’?” responde o buscador. Foi o golpe de misericórdia. Eu estava liquidado, corria o campo de batalha com o peito ensanguentado, com as pernas bambas pela energia que se esvai. O idiota era eu.

“Cara,” falo no telefone, recomposto no tanto que me foi possível, desejoso de despejar impropérios para que fossem devidamente repassados à infame pessoa da origem, “a senha não é quatro asteriscos.”

“Como não? Foi o que a pessoa me passou.”

“Quer fazer você o teste?”

“Péra.”

Reconheço o barulho ao fundo, o mesmo do meu computador, acompanhado de um “puta que o pariu” distante e abafado.

“Já te ligo.”

De onde menos se espera é que não sai nada mesmo.

***

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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