Carnaval Contos

Retiro de Carnaval

Escrito por Gabriel Galo
Carlos estava ansiosa por causa a oportunidade que tinha pintado para ele. Sua namorada, a Juliana, atenciosa e pensando no seu bem, comprou para eles um pacote para um retiro de Carnaval no interior de Minas Gerais. Lugar afastado, no meio das montanhas, com muito verde, natureza, temperaturas amenas, e muita luz.
 
Ele tinha começado nesse mundo por ela, já experiente no tema.
 
– Você vai adorar, amor. Olha aqui, ó – e entrega o panfleto com as atividades do centro – vai ter cardápio 100% vegano, horas de meditação, yoga na montanha, momentos de silêncio, atividades de contemplação, você mesmo arruma seu quarto, limpa e lava seus pratos, cuida da cozinha e dos banheiros…
 
– Que lindo!
 
Não estava lá muito empolgado, mas seu ânimo foi melhorando com a excitação de sua parceira, que distribuía amor pelo seu companheirismo.
 
Contaram para todos os amigos.
 
– E vocês? Onde vão passar o Carnaval?
– Vamos para um retiro mara no interior de Minas. Ficar quieto, sabe, cuidando da alma.
– Ah… Diziam os amigos, já mudando de assunto. Estavam escaldados, não se dá assunto para incutido.
 
Chegaram cedo na quinta-feira de Carnaval. Foram recebidos por um senhor de meia idade, de manto cobrindo o corpo, careca de cabelos compridos sobre um rosto magro, barba grisalha, e sorriso contagiante.
 
– Babu Sram Papa?
 
O senhor apenas sorriu em afirmação, apontando para a plaquinha com seu nome grudada em seu roupão.
 
– Ele está em seu momento de silêncio, disse chegando a Mônica, assistente do guru, e que, aparentemente, comandava a parte administrativa da coisa. E continuou:
– Deixe-me levá-los ao seu quarto. Às 17:34 alguém vai aparecer na sua porta para que vocês conheçam nossas acomodações.
 
O quarto era bem simples, sem luxos, nem regalias, nem mesmo um lençol que não coçasse. Tinha um beliche, uma mesinha com cadeira simples de madeira, uma janela basculante e um ventilador. Nada mais havia. Nem sequer banheiro, que era compartilhado, no fim do corredor, à direita.
 
– O guru acredita que interações carnais prejudicam a evolução espiritual. Falou, exigindo os celulares, tabletes e computadores, e já fechando a porta enquanto o casal acomodava suas pequenas maletas.
 
Às 17:34 em ponto ouviram alguém bater na porta.
 
Abriram e era um funcionário do retiro, também em seu momento de silêncio, que apenas sorriu e os convidou para o hall, onde encontraram mais de 80 pessoas, todas em silêncio, plaquinhas com seus nomes. Por cerca de uma hora andaram por todos os aposentos do lugar, conhecendo as regras. Cada sala tinha seu próprio papel com suas regras, liam com cuidado, devolviam, e seguiam para o próximo ambiente.
 
No aposento, anestesiados pelo clima bucólico e tranquilo do local, continuaram o pacto de silêncio e dormiram uma das melhores noites de suas vidas.
 
Às 04:45h despertaram naturalmente para cumprir as atividades do dia. E as fizeram com grande alegria. Era sexta-feira de Carnaval, e já não tinham noção de que dia era.
 
Contemplaram a alvorada, cozinharam, limparam, meditaram, fizeram yoga, exercícios de respiração, pilates, cozinharam de novo, descansaram nas redes sob as árvores do pomar, comeram umas frutas, jogaram restos orgânicos na composteira, praticaram uma atividade de fortalecimento da empatia, prepararam o café, fizeram seu momento de silêncio, mais meditação, mensagem para o universo, e estavam prontos para dormir. Exaustos.
 
Primeiro, Juliana usou o banheiro no horário reservado às mulheres; depois Carlos. Na saída do banheiro, um sujeito baixinho o chamou de canto. Estava escuro, pouco podia ver, mas percebeu que se tratava do porteiro/ caseiro do lugar, que sempre observava os grupos atentamente onde quer que fossem.
 
– Posso melhorar isso aqui. Encontre a antessala do auditório, indo pela mata lateral, às 21:15h em ponto.
 
Ele não entendeu e não deu muita bola.
 
No dia seguinte, achou estranho o clima mais descontraído de algumas pessoas. Um deles comentou do Carnaval de Salvador; outro estava visivelmente com sono, como se tivesse ido dormir tarde demais; ainda um outro casal trocava carícias e chamegos apaixonados.
 
Estava almoçando, quando uma criança veio lhe entregar um bilhete durante o almoço, no único instante em que sua namorada havia levantado para repor sua salada de legumes colhidos ainda aquela mesma manhã.
 
“21:15h, você sabe onde.”
 
Fechou o papel, no que a criança o puxou para si e saiu caminhando como se nada tivesse acontecido.
 
Passou o resto do dia tentando entender o que estava acontecendo. Era sábado de Carnaval.
 
No que sua namorada pegou no sono, seguiu para a antessala no horário combinado. Quando passava pela porta já aberta, viu pequenas luzes no chão iluminando apenas o suficiente para que pudesse orientar-se sobre que direção seguir. Havia uma espécie de porão com escadas de paredes acolchoadas, e depois de alguns degraus, ouvia um barulho vindo de uma portinhola ao fundo.
 
Quando passou por ela, não poderia acreditar no que estava acontecendo!
 
Televisões ligadas mostrando os jogos da rodada; uma outra com os desfiles das escolas de samba; mais ao fundo, computadores conectados com o mundo; no bar, onde também funcionava o caixa, estava o baixinho, e era realmente o porteiro, o seu Gervásio.
 
– Seja bem-vindo, Carlos! Uma bebida? A primeira é por conta da casa.
 
Pediu uma caipirinha tradicional, limão, açúcar e cachaça.
 
– O que é isso aqui?
– Você acha que o povo aguenta? É Carnaval, meu amigo! Para fora, pode ser o pudico que exigirem. Aqui dentro é onde a verdade aparece. O que acontece aqui no porão, fica aqui no porão.
– E aquela portinha ali no fundo?
– Quarto para visita íntima.
– Eita!
– Mas tudo tem um preço!
 
E não era barato, não.
 
– Cada noite aqui custa 150 reais de entrada. Quarto? 200 reais por uma hora. Aqui está o cardápio de comidas e bebidas. Ah! E se quiser, amanhã vai começar um torneio de pôquer, 2500 reais de entrada.
– E o Mengão hoje?
– 4 a 1. Guerrero meteu 3.
 
Do quartinho dos fundos sai o casal que percebeu estar mais leve durante o dia. Passaram por ele, deram uma piscadinha.
 
– Internet?
– 50 reais meia hora.
– É boa?
– De fibra.
 
Pegou sua caipirinha, sentou-se numa das baias com o computador, e foi direto para o Facebook. Perdeu noção da hora, foi-se embora.
O dia seguinte, Domingo de carnaval, passou demorado. Tinha o vasquinho jogando, desfile no Rio, e, porra, aquela caipirinha estava demais… Decidiu ir.
 
Assim que sua mulher dormiu, ele pulou para fora da cama e seguiu rumo. Mas sua consciência pesava, resolveu caminhar pelo bosque anexo à propriedade para clarear a cabeça. Não conseguia parar de pensar em quanto tinha sido o jogo da rodada, o que rolou no campeonato inglês, em como iam a Mangueira e a Portela. Percebeu que só a dúvida já era suficiente para perceber que não haveria outra forma: tinha que ir.
 
Desceu as escadas resoluto.
 
Quando entrou, deu de cara com o porão ainda mais lotado, com quase todo mundo que ali estava para o retiro. Já lhe trouxeram uma caipirinha de limão, “vasquinho tomou 3 do Ameriquinha hoje!” acompanhado de uma gargalhada, Portela entraria dali 45 minutos.
 
– Na mesa do pôquer só falta um. Vai jogar?
– Bora! Respondeu, não escondendo a felicidade.
– Me acompanhe!
 
Logo ali do lado, numa sala fechada, enfumaçada e fedendo a charuto, ele entrou para encontrar outros 5 jogadores já sentados e comentando amenidades com alegria. Para sua surpresa e espanto total, uma delas era a Juliana, de uísque numa mão e charuto na outra.
 
– Até que enfim! Gritou ela. Bora que já estamos atrasados e quero terminar antes de a Mangueira entrar, na avenida e no quartinho dos fundos!
 
Falou ela, piscando para ele, no que todos caíram numa sonora gargalhada.
 
Todas as noites beberam, brindaram, brincaram, gastaram, jogaram, gargalharam.
 
Estava certo que nunca mais amaria alguém tanto quanto a Juliana.
 
A conta ficou salgada na terça-feira.
 
– Valeu cada centavo, disse ele abraçando-a.
 
De volta à cidade, os amigos perguntavam:
 
– E aí, como foi o retiro?
– Ah, lindo. É ótimo estar em contato com a natureza e com o espírito, sabe? A gente percebe o que realmente importa na vida.
 
E todos olhavam admirados a abnegação do casal.
 
***

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça.

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