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Retrospectiva 2018

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Escrito por Gabriel Galo

Expectativa vs realidade é alvo de fórmulas pretensamente mágicas. E numa retrospectiva alternativa de 2018, vamos avaliar como isso se aplicou no futebol.

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Logo mais, quando em vez do badalar dos sinos ouviremos os fogos de artifício, vamos nos despedir de um 2018 emocionante. Confesso que o emocionante é um eufemismo para tentar trazer uma luz à confusão deste último movimento de translação.

Na hora da noite cortada ao meio, pularemos as sete ondas da reflexão. Talvez avaliaremos a distância entre a expectativa no nascimento da nova era com o sentimento vivido no fechamento, numa espécie de contabilidade entre o desejo e o real. Perguntaremos internamente, estamos avançando ou regredimos?

Fazer-se essa pergunta em 2018 adquiriu significado magnânimo. Talvez nunca tenha sido tão complicado respondê-la com exatidão. Já não se difere para frente ou para trás. A gente se olha e não sabe se vai ou se fica. Sim, são coisas da vida (olá, Rita Lee), mas precisava de tanto sobressalto?

Dirão os matemáticos das fórmulas mágicas – estas feitas para enganarem os que se veem sem as rédeas de suas próprias charretes desgovernadas – que o pior problema é a distância entre a expectativa criada e a realidade indelével. Nesta tabuada, opera-se na euforia apoteótica se a segunda excede a primeira em grande monta, assim como se anda de calundu quando ao contrário.

Até concordaria, não fossem as nuances de cada situação específica. Porque, aiaiai – tantos ais! –, só existem nuances.

Como seria avaliado o trabalho de Tite na Copa caso a bola do Renato Augusto tivesse entrado, empatando o jogo contra a Bélgica? Quão previdente seria o professoral Adenor ao lançar ao estrelato uma substituição que reverteria o placar? Numa competição em que há mais igualdades que disparidades, o acaso determina. Uma bola, um chute, uma defesa, uma substituição.

Ainda no campo da adição/subtração em solo russo, estariam os croatas mais satisfeitos com o vice que a favorita França feita campeã? Parece-me óbvio que não!

Tragamos a calculadora para a terra mãe deste Brasil varonil. Nos números frios – estes que nada dizem – o Bahia está igual entre o antanho e o agora. Mas como negar a boa coisa na postura nas negociações, na marca própria de uniforme, nas ações de marketing precisas? Adicionalmente, não lembro de haver tanta disparidade de tamanho com relação ao rival, estimulando um comportamento afim à histeria coletiva da turma tricolor, abusando initerruptamente o outro lado.

Já do lado rubro-negro, os números gritam um regresso impossível de ser ignorado. Voltou-se uma casa no tabuleiro do ludopédio, despencando no poço do rebaixamento. Perdeu-se, na esteira do encolhimento, a hegemonia estadual, a vergonha de passar vexames, a vaga entre os 20 mais do Brasileirão.

Nesta seara de perder-se e encontrar-se, de pesar o antes e o depois, veja como o embate expectativa x realidade teve papel menor. Trata-se, pois, de baboseira das brabas, que serve para alimentar as mesas redondas carentes de pauta e o quando o noticiário é recheado de boatos de transações e resenhas profetizando o passado.

Ainda assim, torcedores que somos, vamos todos cavucar resquícios de otimismo no apagar das luzes. Faremos as contas se valeu a pena sofrer pela paixão pelo clube do coração, pela bola chutada em gramados aqui e alhures. Seguiremos impávidos imaginando ter controle sobre o imponderável. Esperança, sentimento unicamente humano, é sobretudo ato de resiliência.

Sim, terá valido a pena. Terão valido os dias sem voz, o dinheiro gasto, as dificuldades na arquibancada. Veremos que resta avaliar apenas a intensidade excessiva, nunca o ato em si. E na impossibilidade de reversão de um querer tão profundo, renovaremos o olhar adiante garantindo nossa presença. E quando nos dermos conta, estaremos pulando frenéticos, tretando nas redes sociais, cornetando senhor qualquer um, resenhando sobre o imutável.

A graça do jogar bola é justamente este vai-e-vem de emoções. Tristes aqueles que se fecham ao ineditismo e à beleza do esporte mais fantástico do mundo.

E para não perder o costume… Bora, Bahêa! Umbora, Vitória! Tira o Willian, Tite! Levanta, Neymar!

Um feliz e ludopédico 2019 a todos nós. *

* Gabriel Galo é escritor e já atualizou seu passaporte de torcedor para 2019, apesar dos pesares

Artigo publicado no dia 31 dezembro de 2018 na página 2 e no site do Correio da Bahia. Link AQUI!

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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