Ensaio Política

O novo governo nas mãos de Rodrigo Maia

Rodrigo Maia, Papo de Galo, política, Presidência da Câmara
Escrito por Gabriel Galo

Relativizar a eleição para a Presidência da Câmara dos Deputados é não conhecer a engenharia política de Brasília. Mais do que querer Rodrigo Maia, o novo governo de Bolsonaro precisa e depende dele.

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Desde antes da confirmação da eleição de Jair Bolsonaro (PSL) a Presidente, os bastidores de Brasília já tratavam da nova candidatura à Presidência da Câmara dos Deputados. Largou na frente o Deputado Federal Rodrigo Maia (DEM-RJ), atual Presidente e natural candidato à reeleição.

O nome de Maia pareceu consenso, muito por sua postura como condutor das pautas no Congresso. Com bom trânsito em todos os espectros políticos, é também profundo conhecer dos trâmites processuais da Câmara, um emaranhado de regras fluente a poucos. Especialmente porque Rodrigo Maia é, essencialmente, um político de bastidores. Um crupiê do jogo de cartas candango. E serve a muitos fins, em especial o dele próprio.

Era notória a precariedade da base aliada do novo Presidente na Câmara. Somados os partidos apoiadores de Bolsonaro, não havia sequer proximidade de se constituir maioria. Esta fatia pequena implica dificuldades de aprovação de pautas alinhadas aos ideais e promessas de campanha. Emendas Constitucionais então, que necessitam de 2/3 dos votos, pareciam alvos impossíveis. A avaliação óbvia era que este buraco precisava ser preenchido, até porque os nomes eleitos pelo PSL, muitos em primeiro mandato, são inexperientes no trato e em processos internos.

Inicialmente, tentou-se uma negociação com bancadas coletivas, independentemente de partido. A estratégia falhou. O Plano B era ceder à influência de Rodrigo Maia.

Foi uma decisão pragmática e necessária para o governo ter sucesso.

Bônus

Rodrigo Maia leva com ele mais alguns itens que são caros à posição de Bolsonaro. Atua como intermediário com o MDB, PP e outros partidos do Centrão que sempre são governo. Funciona como um fiador das costuras partidárias, o famoso toma lá, dá cá. Ou seja, retira de si a mancha de estar tendo que se dobrar ao establishment, deixando Maia com esta responsabilidade, que nunca foi fardo para ele.

Além disso, Rodrigo Maia pode também atuar para manipular os regulamentos internos, dando velocidade ou travando temas de acordo com o humor do Governo – ou dele próprio.

Ônus

Mas a entrada de Rodrigo Maia pode, também, cobrar um preço alto.

Maia pode ser o termômetro das insatisfações de aliados e opositores. Excelente leitor de cenários, a depender do volume da opinião pública e da pressão interna, pode pular fora e vislumbrar um encaixe de um novo governo, em que ele mudaria de cadeiras presidenciais, direto da Câmara para o Planalto.

Em viagem a Vitória/ES, em 2017, durante as discussões para a eleição que o levou ao posto de Presidente da Câmara, Maia tentou tirar de si e das negociações os holofotes. Disse ele que “eleição da Câmara não é eleição para Presidente.” Só que como terceiro na linha de sucessão de um governo que nasce sob suspeitas e investigações de fraudes eleitorais, esta frase é válida somente da boca pra fora. No limite, pode ser, sim, uma eleição para Presidente.

Eleição da Câmara não é eleição para Presidente.

Rodrigo Maia

Este desenrolar parece – e está – ainda longe de se concretizar. Deve ser analisado sob o ponto de vista de vaga possibilidade. O que deve ser contabilizado, no entanto, é o balanço de poderes que se estabelece e como ele se desenvolve.

O que se sabe é que Maia joga com as cartas com maestria. Especialmente quando levamos em conta como se faz um impeachment – ou como se articula para que a chapa seja ou não cassada via TSE, retórica que salvou Temer e pode derrubar um governo altamente impopular – e como conceitos e lições básicas de política devem ser observados.

No comando

Por fim, relativizar a eleição para a Presidência da Câmara dos Deputados é não conhecer a engenharia política de Brasília. Mais do que querer Rodrigo Maia – não queria -, o novo governo de Bolsonaro precisa e depende dele.

Assim, ao mesmo tempo em que obtém um pouco mais de consistência à estabilidade regimental, precisa ficar de olho na constante ameaça que ele representa. Decerto larga nas mãos de um dos maiores manipuladores das movimentações na Casa do Povo. Não há, no entanto, alternativa. Faz parte do risco de ser governo sem maioria. Mesmo que Maia possa ser para eles o que Cunha foi para a última Presidente eleita.

Crédito da foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

Pode ser, sim.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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