Crônicas

O maior problema de São Paulo é o camarão de acarajé

Escrito por Gabriel Galo

O maior problema de São Paulo foge do senso comum. Trânsito? Poluição? Custo de vida? Segurança? Nada disso, quadrático e cartesiano leitor. O problema é de outra magnitude. Não é questão de vida ou morte, é muito mais do que isso (alô, Bill Shankly).

Problema, aliás, que perdura. Há mais de quinze anos sofro com este mal que assola e desola, que provoca lamentos e lamúrias. Porque tem coisas que a gente aceita por uma saudação ao bem viver, abrindo concessões aqui e ali para não morrer louco. Mas tem outras que ferem na alma, aquelas com as quais a gente não consegue entrar em termos pacíficos.

Então, assim, retado como o quê, descrevo aquele que na minha visão é o suprassumo da chibança inaceitável na megalópole paulistana: a total ausência de um camarão defumado decente. Ou em outras palavras, NÃO MEXAM NO MEU ACARAJÉ.

Eu já procurei, numa busca incessante e improdutiva. Fui a casas do norte, mercadinhos, mercados e mercadões… Nada. Pense num lugar onde poderia haver camarão, pois nele eu já estive. Os vendedores me mostram camarões salgados e carregados de tintura para dar aquela cor vermelha característica do tradicional camarão de acarajé.

“Venha cá, meu amigo. Você tem camarão defumado?”

“Tenho esse aqui, ó!”

“Mas esse aí não é defumado. É salgado e pintado. Vocês são tintureiros agora?”

O sacripanta ri. Foi pego no pulo, mas não perde a compostura. “Esse aqui é o que a gente vende. Vai querer?”

“Mingula!”

As ditas casas de acarajé da capital são uma tortura. Os sacrilégios variam. Alguns oferecem bolinhos pesados, que causam efeito de cimento no estômago. Outros vêm com vatapá que deixaria qualquer baiano-raiz virado nos seiscentos DEMÔNHOS. Alguns, exagero que não cabe, mandam aquele camarão esperto grelhadinho na hora, com azeite: um camarão afrescalhado.

Reclamo. “Rapaz, camarão de acarajé é aquele que espeta o céu da boca e você tem que ficar catando cabeça no meio do vatapá e jogando no chão. Tem?” O garçom não entende. E teria como?

Há alguns anos, tal restaurante metido a besta da sócio-elite paulistana sacramentou no cardápio (acarajé de verdade não tem em menu, só em cardápio, daqueles plastificados e cheio de erro de português) que vendia acarajé light. LIGHT. Pergunto “Hômi, qual o quê! Eu já vi muita coisa nessa vida, mas acarajé light é demais pra minha cabeça. Diabéisso?” Para os que pousaram neste planeta anteontem e ainda não inteiraram do arerê que comanda o rebu, acarajé é massa de feijão fradinho, cebola e sal frita no azeite de dendê. Como é que pode ser light essa mistura? Vai mudar o quê, o dendê? Que heresia é essa? O simpático garçom (mâitre, no linguajar topzera-das-galáxias) coça a cabeça, “é… é estranho.” Pronto: gourmetizaram o acarajé. Dali para virar quiosque de aeroporto não faltava muito.

Lembrei de meu pai e certa pastelaria na Ribeira, em Salvador, que ele adorava. Conta-me a esposa dele que ele sempre que estava por perto parava para saborear as iguarias do recinto. “O pastel era horroroso. Toda vez que a gente comia, passava mal.” Está aí uma quase necessidade da experimentação da comida baiana, aquela pontada no estômago do quase desespero. Negócio é chegar ligado no esquema e já procurar acesso fácil ao banheiro. “Se não for pra passar mal eu nem vou.” Diria meu pai, chegado num mocotó na feira de São Joaquim, de preferência no box mais sujo do icônico centro de compras no pé do ferry boat.

Tenho que me fartar a escolher, portanto, entre o acarajé miserável que bateria uma laje e o caro hipster-cult que se diz “light”, com vatapá sem gosto e camarão desinfeliz. Assim não dá, assim não pode.

Eu procuro. Eu tento. Eu insisto. Incutido é bicho que não aprende. Brado, “É a porra! Cadê meu camarão?”

Sigo para a Casa do Norte em Osasco, na região metropolitana de São Paulo, local onde sempre finalizo a lista, desde que aqui nestas terras pisamos, migrados da necessidade para a esperança. Por lá, me abasteço de feijão fradinho, amendoim, castanha, dendê e leite de coco. No mercado, quilos de cebola, leite e cheiro verde. Na padaria, pão. Incumbido que fui de me tornar guardião da receita que minha mãe aperfeiçoou, Domingo vou fritar meus acarajés aqui em casa. Mas nada de acarajé light nem topzera; aqui só sai do bom e do melhor. É daqueles para comer melando o guardanapo, acompanhado por cerveja trincando de gelada e papo sem hora para acabar. No som, música da Bahia, de João Gilberto a Vingadora, de É o Tchan a Caetano Veloso, passando por Gerônimo, Sarajane, Luiz Caldas e o diabo AQUÁTICO. O camarão vai ser o que tem, porque jeito não há. Mas se fechar o olho, bem fechado e imaginando saudade, vai ser possível saborear o camarão certo, catado na hora sujando a mão e a roupa, sentindo na pele a brisa amena do mar num fim de tarde soteropolitano.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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