Carnaval Contos

Seu Ponga

Escrito por Gabriel Galo

Ganhou esse apelido pela habilidade que tinha para subir no bonde. Pongava sem perder a compostura, pose de malandro retido, sem bagunçar nem o bigode nem o terno de linho.

Hoje, já beirando os 90, nem bonde vê mais passar.

Ele conta com olhos saudosos de seu tempo. Do carnaval de rua, das marchinhas. Das charangas.

Seu Ponga esteve na formação original da primeira charanga do Rio de Janeiro, a Bonde da Tereza. Informação esta que não pode ser verificada por qualquer registro a não ser a memoria do senhor que ainda ostenta um fino bigode.

Vive num apartamento em cima de um café na Lapa carioca. Quando adentra o humilde recinto comercial, a franzina figura é reconhecida imediatamente, para grande festa de todos que ali estão:

– Dá-lhe, seu Ponga! O de sempre?

E servem uma dose de cachaça com mel, virada duma vez, sem nem pestanejar.

– E o Carnaval esse ano, seu Ponga? A charanga sai ou não sai?

Ele toca saxofone. Ou tocava. Diz que aprendeu com Pixinguinha, a tocar e a beber. Quem teve o privilégio de ouvi-lo diz que superou o tutor.

– Difícil, meu filho. Tenho mais saúde pra isso, não.

Todos fazem fila para cumprimentá-lo.

Faz, no entanto, quase 15 anos que seu Ponga realmente não tem mais saúde para tocar. Principalmente no carnaval. Foram muitas décadas subindo os morros de Santa Tereza com sua charanga. Os pés doem, os joelhos não suportam mais ladeira, e os pulmões estão debilitados pelo cigarro fumado desde os 11 anos de idade.

Neste ano, veja só as coincidências desta vida, completa 90 anos no sábado de carnaval.  Empolgado, tendo já vivido para hora extra, decidiu que se apresentaria uma última vez, em seu aniversário, na sua Santa Tereza.

Pediu ajuda, monitorou as charangas que tocariam. No dia, carro passou logo cedo para levá-los, ele e seu saxofone, que não via ar desde há muito.

Limpou, lustrou, benzeu, seguiu.

Quem veio ter com ele foi Hamilton, líder da charanga que sairia antes das 9 e iria até o último cliente. Pôs-se de posto e de poste a acompanhar o senhor pelo trajeto. Seu Ponga segurou no braço do novo amigo, e foi caminhando pelas estreitas ruas de paralelepípedo do bairro.

Dali um tempo, resolveu dar nova chance ao bocal. Mesmo depois da limpeza, viam-se as manchas do tempo, uma ferrugem aqui e outra ali e mais uma acolá.

O povo gritava eufórico “Seu Ponga! Seu Ponga!”

Alguns perguntavam:

– Quem é esse?

– Sei lá, mas deve ser importante.

Hamilton tomou a frente e pediu silencio, que o mestre do verdadeiro carnaval carioca, o dos bairros, o dos travestidos, o das marchinhas, o da vida de então!, iria tocar de novo depois de 15 anos!

Quanta honra!

Incrível, mas nem um pio se ouvia.

Seu Ponga subiu nos degraus de um casarão, fez-se visto, sorriu em despedida, e levando o instrumento à boca, o único sopro que se ouviu foi o de adeus, o da morte.

Pongou no bonde que cruzava ali perto, sem perder o molejo, nem a fineza do bigode, nem um pro lado do cabelo engomado, sem nem amassar um teco do terno de linho, e foi recebido com alegria pelos grandes do carnaval carioca de priscas eras, ali logo depois dos arcos da Lapa.

– Este carnaval… Não é mais o mesmo, hein, Ponga?

– Não. Mas continua lindo.

***

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça.

Aqui você vai encontrar contos, crônicas, ensaios e análises políticas sobre o Brasil, a Bahia, São Paulo e mais tantos outros lugares e personagens fascinantes.

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