Ensaio

Sobre a carta de Palocci ao PT

Carta de ex-Ministro Palocci ao PT deve ser lida nas entrelinhas. Crédito da imagem: BETO BARATA/ Estadão Conteúdo
Escrito por Gabriel Galo

E por que ela deve ser lida nas entrelinhas

Essa semana foi impactada pela carta de Antônio Palocci, ex-Ministro dos governos Lula e Dilma à senadora Gleisi Hoffman, atual presidente do PT, sobre seu processo de desligamento do partido. Houve comoção com o teor reformatório da carta. Teria chegado o momento da redenção moral do Partido dos Trabalhadores? Certamente não. Devemos nos perguntar, portanto: para quê serviu a carta de Palocci?

Há alguns meses, Emílio Odebrecht foi ouvido em depoimento pelo juiz Sérgio Moro. Moro, com seu questionamento juridicamente falho, fazia perguntas que mais se assemelhavam a “o que você acha?” do que a fatos concretos. Para cada pergunta, Emílio Odebrecht respondia calmamente que não tinha como responder. Dado momento, Moro sobe nas tamancas, e profere um discurso que tantos de nós do lado de fora do mundo jurídico faríamos. Linhas gerais, seguia assim:

“Não podemos fingir que não sabemos para onde ia o dinheiro. Está claro que era propina e corrupção. Dinheiro que poderia ser usado para construir hospitais e escolas!”

Prestando atenção, é possível ouvir o aplauso dos das pessoas assistindo ao vídeo neste momento. “Finalmente alguém diz a verdade!”

Acontece que a fala de Moro nada de relevante juridicamente foi capaz de levantar. Pelo contrário, levanta dúvidas sobre a correção processual de sua atuação. O que é necessário se impor na condução de uma investigação e julgamento é, justamente, a separação do rigor processual da filosofia de boteco, feito com o estômago. O que Moro fez foi jogar para o público, falar o que pessoas queriam ouvir.

A carta de Palocci, inicialmente, causa essa mesma sensação. Alguém, finalmente, falando o que tantos querem falar, a verdade vindo à tona. Será?

Palocci, ás da política de bastidores e de cartas marcadas, entendeu qual é a regra do jogo. Sua carta nada diz além do que todos já sabem. Talvez esteja guardando fatos para serem inseridos em sua delação premiada. Talvez a carta não seja o meio apropriado de expor feridas. Analisando o conteúdo, percebe-se que a retidão moral recém-adquirida de Antonio Palocci não passa de uma falácia. Assim fosse, nem carta haveria, partiria para as vias de fato.

Palocci usa o meio do agrado ao público, falando o que todos querem ouvir, para atrair simpatia para sua causa. Não é mais o criminoso vil; é o criminoso arrependido, que quer, ó!, salvar o partido. Ele tenta forçar olhos mais simpáticos para seu caso, manipulando a comunicação.

Restam duas possibilidades: a de que a carta é um movimento combinado de Palocci com o partido; ou de que a carta é uma grande chantagem do ex-Ministro.

Eu apostaria na segunda opção. “Garantam o meu ou eu realmente falo o que tenho para falar.” A carta foi uma ameaça ao PT. De que é melhor que ele não seja lançado às feras, o bode expiatório que, por exemplo, Eduardo Cunha se transformou. Palocci joga o partido nas redes pedindo proteção, ou, mais importante, que seus benefícios adquiridos com tantos anos de dedicação não sejam ignorados porque não mais fará parte do quadro.

Palocci leu sua posição e resolveu fazer ele o primeiro movimento. A partir de agora, o jogo segue de acordo com o que ele definiu. A carta deve ser lida nas entrelinhas. Não entregou nada a justiça, mas expôs que pretende fazê-lo. Articulador de mão cheia, entendeu o que deveria fazer e atacou preciso. A carta de Palocci é mais um ato de uma ópera bufa, em que absolutamente nada quer dizer o que está escrito.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário e escritor (cronologicamente falando).

Escrevo (quase) diariamente contos, crônicas, ensaios e análises políticas. Sou também colunista do Correio da Bahia e do HuffPost Brasil.

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